Pinheirão: governo divulga projeto mesmo sem acordo sobre desapropriação
Mesmo com vídeos e projeções divulgadas pelo governo, o projeto para transformar o antigo Estádio do Pinheirão em centro de eventos segue indefinido
Por Da Redação
Créditos: SEPL
A divulgação recente de vídeos com simulações do futuro Centro de Eventos do Paraná, no local onde hoje está o antigo Estádio do Pinheirão, em Curitiba, voltou a colocar o projeto no centro do debate público. As imagens foram publicadas na última semana pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior e pelo secretário de Estado das Cidades, Guto Silva, e mostram um complexo moderno, com arena multiuso, centro de exposições, área comercial e estruturas voltadas ao turismo e à realização de grandes eventos nacionais e internacionais. O vídeo apresentado foi feito por Inteligência Artificial pelo produtor de conteúdo digital, @cauanwenderico_, e compartilhado pelas autoridades em suas redes.
Veja o vídeo!
Apesar da apresentação pública do projeto e do discurso de que o empreendimento colocará o Paraná na rota dos grandes eventos globais, o governo estadual ainda não solucionou um ponto central: a desapropriação do terreno onde o complexo deve ser construído. O espaço, localizado no bairro Tarumã, foi declarado de utilidade pública em outubro de 2024, mas o processo segue sem a divulgação de um acordo definitivo entre o Estado e o empresário João Destro, proprietário da área.
O Pinheirão foi inaugurado em 1985 e chegou a ser idealizado como um “Maracanã de Curitiba”, recebendo jogos do Athletico, do Paraná Clube e até da Seleção Brasileira. Desativado desde 2007, o imóvel foi arrematado em leilão judicial em 2012 por um investidor privado e, desde então, permaneceu sem novos investimentos. Em outubro de 2024, o governo do Paraná formalizou a desapropriação por meio do Decreto nº 7.669, com a justificativa de implantar um Centro de Convenções de grande porte.
Na notificação enviada ao proprietário, o Estado apresentou uma proposta de indenização no valor de R$ 64,9 milhões, baseada em avaliação imobiliária da Procuradoria-Geral do Estado (PGE). O governo informou, à época, que o pagamento poderia ser feito em parcela única e que o projeto seria viabilizado por meio de uma parceria público-privada (PPP), com investimento privado estimado em mais de R$ 1 bilhão.
O valor oferecido, no entanto, foi contestado pelo empresário. Diante da divergência, a Justiça determinou a realização de uma perícia judicial para definir o valor do imóvel, que possui cerca de 124 mil metros quadrados. O laudo, divulgado em julho de 2025, fixou o valor do terreno em R$ 132,1 milhões, mais que o dobro do montante inicialmente proposto pelo governo.
Mesmo assim, a quantia estabelecida pela perícia ficou bem abaixo do valor defendido pela família Destro, que estima que o imóvel valha cerca de R$ 358,6 milhões. A diferença entre as avaliações ampliou o impasse judicial e afastou uma solução consensual para o caso.
Após a divulgação do laudo, o Governo do Paraná informou que contestou formalmente a avaliação do perito. Em nota, a PGE afirmou que impugnou os valores atribuídos às chamadas benfeitorias, como arquibancadas, campo de futebol e pista de atletismo. Segundo o Estado, essas estruturas estão em péssimo estado de conservação, deverão ser demolidas e, por isso, não deveriam integrar o valor da indenização.
O governo também questionou o fato de a perícia ter considerado duas matrículas independentes para a precificação do imóvel. De acordo com a PGE, trata-se de uma área única, contígua e indissociável, inclusive reconhecida como um único lote pelo próprio município de Curitiba. A manifestação do Executivo estadual foi anexada ao processo judicial, que segue em andamento.
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Com a entrega do laudo e a impugnação apresentada pelo Estado, o processo entrou em uma nova fase, na qual as partes ainda podem apresentar contestações. Fontes ouvidas pela Gazeta do Paraná indicam que uma audiência de conciliação chegou a ser cogitada pela Justiça, com o objetivo de buscar um acordo entre governo e proprietário. Até o momento, porém, não houve anúncio oficial de entendimento entre as partes nem definição sobre o valor final da desapropriação.
Enquanto o impasse se prolonga, o governo segue divulgando o projeto do Centro de Convenções. De acordo com as informações oficiais, o complexo deve contar com arena de eventos, centro de exposições com capacidade para até 25 mil pessoas, setor hoteleiro, boulevard com restaurantes, academia e outras estruturas comerciais. O objetivo, segundo o Executivo estadual, é revitalizar a região do Tarumã e impulsionar o turismo, o comércio, a hotelaria e o setor de serviços.
Por outro lado, a família Destro manifestaram à época, insatisfação com o processo. Em entrevistas concedidas anteriormente, representantes afirmaram que o Pinheirão nunca esteve à venda e que o imóvel era considerado uma reserva patrimonial para futuros empreendimentos privados. Também há críticas à condução do processo e à falta de diálogo com o governo antes da desapropriação.
Diante da divulgação dos vídeos e da continuidade do impasse, a Gazeta do Paraná procurou o Governo do Estado para esclarecer em que estágio se encontra o processo de desapropriação, se há previsão para conclusão do litígio e quando as obras poderiam ser iniciadas e finalizadas. Até o fechamento desta matéria, no entanto, não houve retorno aos questionamentos encaminhados.
Assim, embora o projeto seja apresentado como uma transformação iminente de um espaço abandonado em um dos maiores centros de eventos do país, o futuro do antigo Estádio do Pinheirão permanece indefinido, condicionado à resolução de um impasse judicial que, até agora, segue sem solução.
