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Conflito no Oriente Médio pode pressionar preço dos combustíveis e preocupar agronegócio

Especialistas apontam impacto no diesel, enquanto Sistema FAEP alerta para risco de desabastecimento no campo; ANP afirma que monitora o fornecimento no país

Por Eliane Alexandrino

Conflito no Oriente Médio pode pressionar preço dos combustíveis e preocupar agronegócio Créditos: Divulgação

A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã pode pressionar os preços dos combustíveis no Brasil e no mundo, segundo especialistas. A tensão no Oriente Médio já provocou interrupções na navegação de petroleiras pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa parte significativa do petróleo comercializado globalmente.

Diante do risco de interrupções no fornecimento, o banco Barclays elevou a previsão do barril do petróleo Brent para cerca de US$ 100. Analistas apontam que o principal impacto no Brasil tende a ocorrer no diesel, combustível essencial para o transporte e a logística.
A alta do petróleo no mercado internacional tende a elevar o custo de reposição dos combustíveis, pressionando reajustes internos e encarecendo o frete e os alimentos, com reflexos na inflação. O efeito final dependerá da duração do conflito, já que restrições prolongadas podem reduzir a oferta global e ampliar os impactos econômicos.

Diante desse cenário, o Sistema FAEP alertou para o risco de falta de diesel no agronegócio brasileiro. A entidade destaca que o agravamento das tensões no Oriente Médio pode afetar o fornecimento global de petróleo e derivados. A preocupação envolve especialmente o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Segundo a federação, sindicatos rurais já relatam escassez de combustível em entrepostos no interior do Paraná. O diesel é considerado um insumo estratégico para o setor, pois está presente em praticamente todas as etapas da produção agrícola e também no transporte da produção.

Dados do Departamento Técnico, Econômico e Legal (DTEL) do Sistema FAEP apontam que 73% da energia utilizada na agropecuária brasileira provém de combustíveis fósseis, principalmente o diesel. Além disso, o Brasil importa cerca de 29% do diesel consumido no país.

De acordo com Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, o conflito afeta o agronegócio em diferentes frentes. “O conflito no Oriente Médio impacta a agropecuária brasileira e paranaense de diversas formas. A primeira delas é no fornecimento de combustíveis. O Estreito de Ormuz é uma rota estratégica por onde passa cerca de 20% do comércio internacional de petróleo e gás, fundamental para o abastecimento global”, afirma.

Segundo ele, o impacto também pode ocorrer no fornecimento de fertilizantes. “Cerca de 30% dos fertilizantes comercializados no mundo têm origem ou relação com a região do Golfo, especialmente a ureia. No Brasil, aproximadamente 35% da ureia utilizada tem origem no Oriente Médio”, explica.
Outro reflexo possível está nas exportações agrícolas. Em 2025, cerca de 45% do milho exportado pelo Paraná teve como destino o Irã, principal comprador do cereal paranaense no Oriente Médio. A região também é um importante mercado para proteínas animais, especialmente a carne de frango, produto em que o Paraná lidera a produção e as exportações no país.

No caso específico do diesel, a federação afirma ter recebido relatos de escassez e aumento de preços em diversas regiões do Estado. Há registros de alta entre R$ 1,50 e R$ 2,00 por litro em comparação aos valores normalmente praticados.

Desabastecimento no sul do Brasil

Relatos de desabastecimento foram registrados em municípios das regiões Centro-Sul, como Guarapuava e Prudentópolis, no Oeste, em cidades como Marechal Cândido Rondon, e também no Norte Pioneiro, onde produtores relatam dificuldade para encontrar tanto o diesel S10 quanto o S500.
A situação ocorre em um momento considerado delicado para o campo, durante a colheita da soja e o plantio do milho. Com as máquinas em operação e parte significativa da safra ainda em campo, a falta de combustível pode comprometer atividades como colheita, transporte até armazéns e cooperativas e o escoamento da produção até os portos ou outras regiões do país.
Além dos impactos logísticos, o aumento no preço do diesel tende a elevar os custos de produção e transporte, o que pode refletir diretamente no preço final dos alimentos.
Para o presidente do Sindicombustíveis, Roberto Pellizzetti, fazer previsões sobre o comportamento do mercado de petróleo é sempre um desafio, devido à quantidade de fatores que influenciam os preços.
“Fazer previsões nessa área de combustível, de petróleo, é pedir para errar, porque tudo isso é muito imprevisível. São inúmeros fatores que influenciam no preço final, como guerras, desastres naturais e mercados internos. É um cenário bastante complexo”, afirma.

Segundo ele, mudanças no cenário geopolítico e na produção internacional podem alterar o equilíbrio do mercado de energia. Pellizzetti avalia que uma eventual retomada mais intensa da produção de petróleo em países com grandes reservas, como a Venezuela, pode ampliar a oferta global e influenciar os preços no médio prazo.

“A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do planeta e não explorava esse potencial. Se houver investimentos e retomada da produção, podemos ter momentos mais positivos para o mercado de combustíveis. Isso pode refletir no bolso do consumidor, inclusive aqui em Cascavel, com possibilidade de redução de preços ao longo do tempo”, avalia.
Ainda assim, o especialista ressalta que os efeitos não costumam ser imediatos. “Não sabemos se isso ocorre nos primeiros meses, mas certamente pode alterar o cenário do petróleo no mundo e nos mercados como um todo”, conclui.

Relatos de falta de diesel no Paraná

O Sistema FAEP informou ter recebido relatos de produtores rurais e sindicatos sobre dificuldades para encontrar diesel em diferentes regiões do Paraná. Entre os municípios citados estão Ubiratã, Lapa, Piraí do Sul, Prudentópolis, Nova Esperança, Alvorada do Sul e Porecatu.
Segundo a entidade, além da escassez do combustível, produtores também relatam aumento significativo nos preços, justamente em um período crítico para o campo, marcado pela colheita da soja e pelo plantio do milho. A federação alerta que a falta de diesel pode comprometer operações mecanizadas, transporte da produção e o escoamento das safras.

Foto: Divulgação

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