Os nomes por trás da concessão bilionária: quem acompanhou, por dentro, a construção do novo modelo portuário
Segunda reportagem da série da Gazeta do Paraná reconstrói a cronologia da concessão do Canal da Galheta e identifica como um mesmo grupo de agentes públicos e privados aparece, em diferentes funções, ao longo da formulação do projeto. Documentos não apontam ilegalidade na licitação, mas revelam sobreposição de trajetórias em um dos setores mais estratégicos da infraestrutura nacional.
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Imagem gerada com IA
O leilão do Canal de Acesso de Paranaguá, realizado em outubro de 2025, foi apresentado como um marco técnico, um avanço institucional e um novo modelo para o país. Mas, ao reconstruir a trajetória desse projeto, a Gazeta do Paraná encontrou algo menos visível do que os discursos oficiais e, ao mesmo tempo, mais incômodo: a repetição de uma mesma sequência de nomes.
Eles aparecem no início, quando o projeto ainda era uma proposta, permanecem durante a modelagem técnica, surgem novamente na fase de regulação e reaparecem, já no final, vinculados ao ambiente empresarial que disputa e vence a concessão. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma cronologia.
O momento em que o projeto muda de escala
Em abril de 2021, o Governo Federal inclui o Canal da Galheta no Programa de Parcerias de Investimentos. A decisão transforma uma demanda operacional do porto em política pública nacional e, a partir dali, o projeto deixa de ser técnico e passa a ser estratégico.
Naquele momento, a autoridade portuária estava sob comando de Luiz Fernando Garcia, que conduz o porto durante toda a fase de estruturação e assume a defesa pública do modelo. Garcia participa da divulgação do projeto, acompanha os estudos e posiciona Paranaguá como referência nacional, em uma atuação que atravessa todo o processo.
O desenho institucional e a ocupação dos espaços
Entre 2021 e 2023, o projeto é estruturado dentro de um circuito fechado de decisões técnicas, envolvendo Ministério de Portos e Aeroportos, ANTAQ, Infra S.A., PPI e Portos do Paraná. É nesse período que se definem o contrato de 25 anos, a matriz de riscos, o modelo tarifário e a lógica econômica da concessão.
Enquanto o modelo é desenhado, outro movimento ocorre em paralelo. Alex Sandro de Ávila avança dentro da estrutura pública, passando por funções ligadas à administração portuária até chegar à Secretaria Nacional de Portos, ponto central da política portuária do país. Quando o modelo de Paranaguá ganha escala nacional, Ávila já está nesse posto, em uma sincronia que chama atenção ao longo da cronologia.
A audiência pública e o ponto de inflexão
Em 2023, a ANTAQ realiza a Audiência Pública nº 07, abrindo o projeto ao mercado. Empresas apresentam sugestões, o modelo é ajustado e a concessão deixa de ser uma construção interna para dialogar com interesses econômicos concretos.
Esse é um dos momentos mais sensíveis de toda a cronologia. É quando o projeto passa a ser influenciado por agentes que, posteriormente, podem participar da disputa. Nesse contexto, trajetórias começam a se cruzar com mais nitidez.
Disney Barroca Neto, que atuava na área de arrendamentos portuários no governo federal, aparece posteriormente vinculado à DEME, empresa estrangeira que integra o consórcio vencedor. A sequência é objetiva: primeiro, a atuação na política pública; depois, a presença no setor privado diretamente interessado no resultado dessa política.
O controle formal e o limite da análise
O projeto passa pelo Tribunal de Contas da União, que analisa estudos, números, riscos e estrutura contratual antes de autorizar o avanço. Não há decisão apontando irregularidade.
O controle exercido é formal. Ele verifica o modelo, mas não reconstrói trajetórias nem analisa a circulação dos agentes que participam do processo.
O leilão e o encontro das trajetórias
Em outubro de 2025, o leilão acontece e o consórcio vencedor reúne a FTS Participações e a DEME. É nesse ponto que a cronologia institucional encontra o ambiente empresarial e onde dois nomes ganham centralidade.
Bombonato e a permanência no setor
Valdécio Bombonato não surge no momento do leilão. Ele já está presente antes. Seu nome aparece em empresas, conselhos, arrendamentos e projetos ligados ao setor portuário paranaense ao longo de anos, não em um episódio específico, mas em vários.
Documentos mostram sua presença em estruturas empresariais que operam no litoral, em empreendimentos estratégicos e na própria FTS Participações, integrante do consórcio vencedor. Sua trajetória também inclui investigações conduzidas pelo Ministério Público do Paraná em relação a outros empreendimentos portuários, sendo que um desses casos chegou ao Supremo Tribunal Federal, que analisou exclusivamente a legalidade de medidas cautelares, sem julgamento de mérito ou condenação.
O ponto que chama atenção não é um episódio isolado, mas a permanência.
Emerick e a engrenagem jurídica do setor
Se Bombonato aparece na estrutura empresarial, Adriano Dutra Emerick surge na engrenagem jurídica e societária. Advogado especializado em direito portuário, seu nome se repete como advogado, sócio de escritório, integrante de empresas e participante de conselhos ligados ao setor.
Não se trata de uma atuação pontual, mas transversal. A Gazeta identificou sua presença em estruturas relacionadas a arrendamentos portuários, em empresas do setor e em processos judiciais ligados a empreendimentos no litoral.
Assim como Bombonato, Emerick também figurou em investigação analisada pelo Supremo Tribunal Federal, restrita à análise da legalidade de medidas cautelares, sem julgamento de mérito.
O padrão que emerge da cronologia
Quando os dados são analisados isoladamente, parecem apenas trajetórias profissionais. Quando colocados em sequência, formam um padrão.
Luiz Fernando Garcia na gestão do porto e na defesa do modelo, Alex Sandro de Ávila na construção da política pública federal, Disney Barroca Neto na transição entre o setor público e o grupo vencedor, Valdécio Bombonato na estrutura empresarial e Adriano Dutra Emerick no eixo jurídico e societário.
Não é a existência desses nomes que chama atenção, mas a repetição.
Um setor fechado sobre si mesmo
A infraestrutura portuária é um dos setores mais técnicos da economia, mas a cronologia sugere algo além da especialização. Ela mostra a concentração.
Um grupo restrito de agentes aparece sucessivamente na formulação da política pública e na atuação empresarial do setor. Essa dinâmica não configura, por si só, ilegalidade, mas levanta uma questão estrutural sobre a circulação entre posições que definem regras e aquelas que operam o mercado criado por essas regras.
Paranaguá como ponto de partida
O caso não termina no Canal da Galheta. Documentos oficiais mostram que o modelo foi concebido para ser replicado em portos como Santos, Itajaí e Rio Grande.
Isso muda o peso da cronologia. Ela deixa de explicar apenas um contrato e passa a revelar como está sendo estruturado um novo modelo de infraestrutura no Brasil.
O que a documentação revela
Não há prova de direcionamento, não há decisão apontando ilegalidade. Mas há uma sequência de fatos documentados que, quando colocados lado a lado, revelam um desenho mais amplo.
A construção de um mercado, a atuação recorrente de um grupo e a sobreposição de trajetórias em um setor estratégico.
Não é uma conclusão. É um padrão. E ele está todo nos documentos.
A série continua.
Créditos: Redação
