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Olho Vivo põe Fernando Guimarães sob pressão e amplia debate sobre possível suspeição no TCE

Relator do caso no Tribunal de Contas é casado com superintendente do governo Ratinho Jr.; vínculos familiares e conexões com empresas envolvidas em polêmicas reacendem questionamentos sobre imparcialidade

Por Gazeta do Paraná

Olho Vivo põe Fernando Guimarães sob pressão e amplia debate sobre possível suspeição no TCE Créditos: TCE

O programa Olho Vivo, que já começou a ganhar as ruas do Paraná antes mesmo de o governo explicar de forma clara quem contratou, quem pagou e sob qual modelo jurídico a estrutura foi implantada, abriu agora uma frente ainda mais sensível: a posição do conselheiro Fernando Guimarães dentro desse enredo.

O nome dele deixou de ser apenas o de mais um integrante do Tribunal de Contas do Estado do Paraná. Com a redistribuição da denúncia sobre o Olho Vivo, o processo saiu da esfera do conselheiro Fábio Camargo e passou às mãos de Fernando Guimarães. A mudança elevou a temperatura de um caso que já era explosivo, porque o programa envolve o governo Ratinho Junior, a Celepar, uma estrutura baseada em tecnologia de nuvem e a participação de empresa privada em um arranjo que a denúncia descreve como uma triangulação capaz de contornar o rito tradicional da contratação pública. Há ainda a menção à instalação de pontos de monitoramento com câmeras de leitura de placas em municípios como São José dos Pinhais, sem transparência suficiente sobre contratos, estudos técnicos ou fonte de custeio.

É nesse ponto que a figura de Fernando Guimarães passa a ser observada não apenas pelo que decide, mas pelo lugar que ocupa numa rede de relações políticas, familiares e institucionais que mantém proximidade com o Executivo estadual.

 

Mulher em superintendência do governo
O dado mais evidente é o da mulher de Fernando, que ocupa atualmente o cargo de superintendente-geral de Desenvolvimento Econômico e Social no governo Ratinho Junior. Além disso, registros no Portal da Transparência mostram sua atuação direta na Governadoria, em Curitiba, com histórico recente de cargos comissionados ligados à assessoria do governador, incluindo funções como Cargo Comissionado Executivo e cargos em comissão no âmbito da própria estrutura central do Executivo.

Ela também foi alvo de investigação da Polícia Federal no âmbito da Operação Fidúcia, que apurou irregularidades envolvendo contratos firmados por uma organização social com municípios do Paraná. As apurações indicaram práticas como fraude em licitações, superfaturamento e desvio de recursos públicos.

Em decisão da Justiça Federal, foi condenada a 10 anos e 10 meses de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. A sentença apontou que os recursos eram desviados por meio de pagamentos indevidos, simulação de despesas e contratação de serviços com valores inflados. A defesa contesta a decisão e afirma que haverá recurso, destacando que se trata de condenação em primeira instância, ainda sem trânsito em julgado. O governo do Estado sustenta que os fatos são anteriores à atual função exercida e não têm relação com sua atuação no cargo.

Ou seja, não se trata de uma relação indireta com a administração estadual, mas de presença formal, ativa e remunerada no núcleo do governo que agora é alvo de investigação, somada a um histórico judicial que amplia o nível de escrutínio sobre o entorno do relator.

 

Filha em empresa de radares e free flow
O entorno familiar amplia ainda mais o alcance dessa relação. A filha de Fernando aparece vinculada profissionalmente à empresa Velsis – Alta Tecnologia e Soluções para Cidades e Rodovias, com atuação em áreas como gestão jurídica, licitações e contratos.

A empresa integra o mesmo universo de contratos públicos que, no Paraná, vêm sendo alvo recorrente de questionamentos. Em Curitiba, por exemplo, sistemas de fiscalização eletrônica envolveram empresas do setor em licitações marcadas por controvérsias, incluindo histórico de investigações, suspeitas sobre direcionamento e aumento expressivo de valores contratuais ao longo do tempo.

Um dos casos mais emblemáticos envolve o contrato de radares da capital, que registrou aumento de 91,84% em três anos, saltando de cerca de R$ 30,8 milhões para mais de R$ 59 milhões após sucessivos aditivos e reajustes. O serviço é operado por consórcio formado por empresas com histórico controverso e já investigadas em diferentes estados do país.

Além desse histórico, a empresa também atua no desenvolvimento de tecnologias de monitoramento e cobrança automatizada no Paraná, incluindo soluções para o modelo de pedágio “free flow”, baseado na identificação automática de veículos por sensores, radiofrequência e câmeras com leitura de placas, permitindo a cobrança sem praças físicas. Esse tipo de tecnologia já vem sendo testado no estado, inclusive em rodovias como a BR-277, com uso de pórticos equipados com sistemas de leitura e processamento de dados em larga escala.

A coincidência de contexto não permite afirmar qualquer participação direta da empresa no programa Olho Vivo. No entanto, o fato de a filha do relator estar ligada a uma companhia inserida em um setor que concentra contratos públicos relevantes, tecnologias de monitoramento e sistemas de coleta e processamento de dados reforça o debate sobre aparência de imparcialidade, especialmente em um caso que envolve contratação, infraestrutura tecnológica e gestão de informações em larga escala.


O genro e a Lottopar

O histórico recente adiciona mais elementos à discussão. Em episódio anterior envolvendo a estrutura da loteria estadual, o nome de Fernando Guimarães já havia surgido em meio a questionamentos sobre relações familiares e decisões administrativas de alto impacto.

Na ocasião, seu genro integrava o grupo empresarial vencedor de uma licitação milionária ligada à Loteria do Estado do Paraná (Lottopar), contrato estimado em cerca de R$ 167 milhões. O mesmo grupo tinha entre seus integrantes empresários que realizaram doações de aproximadamente R$ 400 mil para a campanha de reeleição do governador Ratinho Junior.

Além disso, o genro do conselheiro havia ocupado cargo comissionado em posição de chefia dentro do próprio governo estadual no período em que foram elaboradas as bases da loteria. Posteriormente, passou a integrar a empresa que venceu o certame, o que ampliou os questionamentos sobre possível conflito de interesses e sobre a proximidade entre agentes públicos e beneficiários do contrato.

Relatórios técnicos do próprio Tribunal de Contas apontaram indícios de restrição de competitividade e possível direcionamento no edital, que acabou tendo apenas um concorrente habilitado.

O episódio inseriu o nome do conselheiro em um ambiente de críticas envolvendo possível favorecimento em contratos públicos e reforçou o debate sobre a permeabilidade entre relações pessoais, decisões administrativas e fiscalização institucional.

O próprio conselheiro já afirmou publicamente que os vínculos familiares não interferem em sua atuação e que não há comprometimento de sua imparcialidade. Ainda assim, a repetição de situações em que relações pessoais e decisões institucionais se cruzam mantém o tema em evidência.

No caso do Olho Vivo, o cenário é ainda mais sensível. A denúncia envolve possíveis falhas no modelo de contratação, ausência de estudos técnicos, riscos relacionados à proteção de dados e indícios de execução antecipada do projeto. Trata-se de um programa de grande escala, com impacto direto na segurança pública, na gestão de informações e na aplicação de recursos públicos.

A combinação desses fatores torna inevitável o questionamento sobre a posição do relator. Não apenas do ponto de vista jurídico, mas também sob o aspecto da confiança institucional.

O debate sobre suspeição, nesse contexto, não se limita à existência de vínculo formal direto com o objeto investigado. Ele se amplia para a análise do conjunto de relações que cercam o processo e para a percepção pública sobre a independência do julgamento.

De um lado, está Fernando Guimarães, responsável por conduzir uma das apurações mais delicadas em andamento no Estado. De outro, estão o governo Ratinho Junior e uma estrutura administrativa da qual fazem parte pessoas diretamente ligadas ao conselheiro.

No meio, um programa que envolve tecnologia sensível, contratos de alto valor e uma modelagem que ainda carece de explicações completas.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp