Muralha digital falha, vereador fala em prevaricação e sessão expõe crise na segurança de Curitiba
Confronto na Câmara opõe secretário e vereador, revela falhas no monitoramento, pressão sobre a Guarda e escancara limites da segurança diante da crise social no centro da cidade
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Rodrigo Fonseca/CMC
A sessão desta terça-feira (24) na Câmara Municipal de Curitiba não foi apenas mais uma prestação de contas da Secretaria de Defesa Social. Foi, na prática, um choque de versões sobre o que está acontecendo nas ruas da cidade. De um lado, a narrativa de avanço, tecnologia e integração. Do outro, a acusação direta de que o sistema não funciona, de que a realidade foi maquilhada e de que a população vive algo bem diferente do que se apresenta no plenário.
O secretário Rafael Viana iniciou sua participação tentando equilibrar expectativa e realidade. Ao tratar da Muralha Digital, principal aposta da gestão, fez uma ressalva que, por si só, já indicava o tamanho do problema. “Não podemos imaginar que com a ampliação da muralha digital nós vamos detectar todos os crimes que estão acontecendo na cidade e vamos imediatamente destacar uma viatura para atender e evitar aquele crime. A gente vai testando, vai ajustando, porque quando aumenta o número de ocorrências chegando no sistema, isso exige avaliação humana. Um alerta pode ser um assalto, mas pode ser alguém tropeçando. Então não existe solução mágica”, afirmou.
A fala desmonta, ainda que de forma técnica, a ideia de que a tecnologia é capaz de controlar o território urbano. A Muralha Digital aparece, no discurso do próprio secretário, como um sistema em construção, limitado, dependente de testes e sujeito a falhas. Mas o tom institucional durou pouco. O vereador Da Costa levou o debate para outro nível, rompendo completamente com a formalidade da sessão e transformando a discussão em confronto direto. Sem rodeios, partiu para o ataque.
“O senhor veio aqui fazer palestrinha, palestrinha, apresentar um monte de número e não respondeu nada do que está no meu requerimento. O senhor não respondeu por que a câmera da muralha digital não funciona, por que eu fui barrado duas vezes de entrar lá, sendo que tenho prerrogativa para isso. O senhor não respondeu por que guardas municipais foram afastados no dia seguinte da prisão de um traficante. E agora vem aqui dizer que está tudo mil maravilhas? Não está. Não está funcionando”, disparou.
A escalada veio em seguida, com acusações ainda mais graves. “Curitiba não é esse mundo encantado que vocês estão vendendo. É só sair na rua para ver. O centro está tomado, e vocês sabem disso. Então me respondam: vocês são incompetentes, ou são coniventes com o que está acontecendo, ou estão prevaricando, porque estão vendo as imagens e nada acontece”, afirmou.
O vereador ainda levantou suspeitas de monitoramento político, ao relatar que estaria sendo observado por agentes da própria Guarda. “Eu fiscalizo a guarda, não é a guarda que me fiscaliza. Como é que vocês colocam agente para ficar filmando meu celular aqui dentro? Eu quero as imagens. Eu quero saber quem está mandando nisso”, disse, elevando a tensão dentro do plenário.
A resposta do secretário não veio na mesma temperatura, mas buscou enfrentar o núcleo da crítica. Ao tratar das falhas no sistema, apresentou uma justificativa que revela um problema estrutural. “Em relação à câmera da Tiradentes, nós enfrentamos problemas porque criminosos cortam a fibra ótica. Isso é rotineiro. Justamente porque trabalhamos contra o tráfico de drogas, eles não querem que o monitoramento exista ali. Neste mês, inclusive, prendemos duas pessoas em flagrante por cortar essa fiação”, afirmou.
Ao mesmo tempo em que tenta explicar as falhas, a fala escancara a vulnerabilidade do sistema. Se a estrutura pode ser derrubada com frequência, o controle prometido se torna intermitente. A defesa seguiu na tentativa de delimitar o papel da tecnologia e, principalmente, o da Guarda Municipal. “A gente não foge dos problemas, mas também não pode vender uma solução que não existe. Segurança pública é complexa, não existe resposta rápida. E mais: a gente não pode colocar nas costas da guarda municipal todos os problemas da cidade. Eles são pessoas, têm limite, têm família, têm desgaste. Não dá para transformar a guarda na solução de tudo”, afirmou.
Essa fala dialoga diretamente com outro ponto sensível da sessão: a ampliação silenciosa das funções da Guarda. Questionado sobre valorização salarial e acúmulo de atribuições, o secretário admitiu o desequilíbrio. “É uma equação difícil. A gente gostaria de remunerar melhor, de dar melhores condições, mas existe limitação orçamentária. Ao mesmo tempo, a demanda da sociedade cresce. Então a gente vai tentando equilibrar isso, mas é um problema que precisa ser enfrentado”, disse.
Se o embate político expôs a disputa de narrativa, foi um outro momento da fala do secretário que revelou o tamanho do abismo entre política de segurança e realidade social. Ao descrever uma operação em hotéis do centro, o discurso saiu do campo institucional e entrou no terreno da realidade crua. “Eu participei pessoalmente de uma fiscalização em um hotel. Encontramos um quarto com dez venezuelanos vivendo em um espaço minúsculo. Em outro, uma família do Ceará com filhos morando há dois anos em cinco metros quadrados. Ao lado, prostituição. Em outro quarto, foragidos. Era um ambiente degradante. E aí vem a pergunta: o que fazer? Tirar 200 pessoas e colocar na rua? A gente chama assistência social, chama polícia federal, chama todo mundo. Mas a verdade é que a gente sai de uma operação dessas com uma sensação de que não tem resposta pronta”, relatou.
A fala não apenas descreve uma operação. Ela expõe o limite da própria política de segurança. Esse limite aparece novamente quando o secretário aborda a atuação da Guarda diante de problemas sociais mais amplos. “A gente não trata pessoas como objeto. Não vai pegar alguém em situação de rua e empurrar para outra esquina. Isso não resolve. Questões sociais não são resolvidas com polícia. E quando se tenta resolver assim, o resultado é pior, inclusive para o próprio agente”, afirmou.
O debate ganhou contornos ainda mais ideológicos quando o vereador Eder Borges ampliou o foco e responsabilizou decisões nacionais pelo cenário atual. “Curitiba virou um ambiente confortável para 'nóia', para marginal. Vem gente do Brasil inteiro para cá porque sabe que aqui tem acolhimento. Isso é resultado de decisões que tiraram a autoridade do poder público. E agora a conta está chegando”, disse.
Créditos: Redação
