Créditos: Albari Rosa/Arquivo AEN
Copel entra no top 10 dos dividendos, enquanto qualidade do serviço recua
Copel aparece entre as 10 empresas que mais remuneram acionistas no Brasil, enquanto indicadores da Aneel apontam piora no fornecimento de energia após a privatização
A Companhia Paranaense de Energia (Copel) está entre as empresas que mais remuneraram acionistas nos últimos 12 meses, de acordo com um levantamento da EQI Research. A companhia ocupa a 10ª posição no ranking nacional, com dividend yield de 13%, indicador que mede o retorno pago em dividendos em relação ao preço das ações.
O desempenho coloca a Copel ao lado de empresas de diferentes segmentos da economia, como Grendene, Direcional Engenharia, Marcopolo, Cemig, Cyrela, Marfrig, Rede D'Or, TIM e Itaúsa. Entre as companhias do setor elétrico, apenas a Cemig aparece à frente da empresa paranaense, com dividend yield de 16,5%.
O levantamento considera um período marcado por mudanças na tributação dos dividendos. Com a entrada em vigor das novas regras do Imposto de Renda em janeiro de 2026, diversas empresas anteciparam a distribuição de lucros ainda em 2025 para evitar a incidência da nova alíquota sobre parte dos pagamentos aos acionistas.
O dividend yield é um dos principais indicadores utilizados pelo mercado financeiro para avaliar o retorno proporcionado pelas ações. A métrica representa a relação entre os dividendos distribuídos e o preço do papel, indicando quanto o investidor recebe em remuneração proporcional ao valor investido.
Especialistas costumam considerar atrativos dividend yields entre 7% e 8% ao ano, embora a análise também envolva fatores como estabilidade dos pagamentos, histórico da empresa e comparação com concorrentes do mesmo segmento.
No caso da Copel, entretanto, o bom desempenho na remuneração aos acionistas contrasta com a deterioração dos indicadores de qualidade do serviço prestado aos consumidores paranaenses.
Queda na qualidade do serviço
Depois de quatro anos consecutivos de queda, a distribuidora da Copel encerrou 2024 como uma das três piores concessionárias de energia elétrica do Brasil entre as empresas de grande porte, segundo o ranking de Desempenho Global de Continuidade (DGC), divulgado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A companhia terminou o ano na 29ª colocação entre as 31 distribuidoras avaliadas, ficando à frente apenas da CEE, do Rio Grande do Sul, e da Equatorial Goiás.
A perda de posições vem ocorrendo de forma contínua. Em 2021, a Copel ocupava o 10º lugar no ranking nacional. Em 2022, caiu para a 22ª posição. Em 2023, ano da privatização, passou para o 25º lugar. Em 2024, chegou à 29ª colocação, consolidando uma sequência de quatro anos de piora nos indicadores.
O índice da Aneel leva em consideração dois fatores que afetam diretamente os consumidores: a duração das interrupções no fornecimento de energia (DEC) e a frequência das quedas de energia (FEC). Quanto maiores esses indicadores, pior é a avaliação da distribuidora.
Os resultados chamam ainda mais atenção porque seguem na direção oposta do restante do país. Segundo a Aneel, a qualidade média da distribuição de energia melhorou em 2024, com redução tanto no tempo médio sem fornecimento quanto na frequência das interrupções. A Copel, por outro lado, perdeu posições e terminou entre as piores concessionárias do Brasil.
Na prática, isso significa que, enquanto o mercado financeiro comemora uma das maiores distribuições de dividendos do país, consumidores paranaenses convivem com um serviço que apresenta piora justamente nos indicadores utilizados pela agência reguladora para medir a qualidade do fornecimento.
Impactos no campo
Os reflexos da queda na qualidade do serviço também atingem o agronegócio, um dos principais motores da economia paranaense. Produtores rurais relatam prejuízos provocados por interrupções frequentes e oscilações na rede elétrica, comprometendo atividades que dependem de energia contínua.
A falta de eletricidade afeta diretamente o funcionamento de aviários, granjas de suínos, sistemas de irrigação, ordenhas mecanizadas, tanques de resfriamento de leite e estruturas de armazenamento de alimentos.
Casos recentes ilustram esses impactos. Em Cascavel, um piscicultor perdeu cerca de 60 toneladas de tilápia após uma interrupção no fornecimento de energia. Em Sulina, no Sudoeste do Paraná, 707 frangos morreram em apenas dez minutos devido à falta de energia.
Os problemas também se refletem nos pedidos de ressarcimento. Aproximadamente 28 mil solicitações de indenização por prejuízos causados por interrupções no fornecimento foram encaminhadas à Copel, mas pouco mais de 7 mil tiveram o pedido aceito.
Representantes do setor agropecuário afirmam que as falhas no abastecimento aumentam os custos de produção, provocam perdas financeiras e reduzem a competitividade das propriedades rurais, especialmente em atividades nas quais qualquer interrupção pode comprometer toda a produção.
Dividendos em alta e debate sobre prioridades
O contraste entre os resultados financeiros e os indicadores de qualidade tem alimentado o debate sobre as prioridades da companhia após a privatização. Para investidores, a Copel figura entre as empresas que mais remuneraram seus acionistas no último ano. Já para consumidores e entidades representativas, o desempenho operacional da distribuidora levanta questionamentos sobre a qualidade do serviço prestado.
As mudanças na tributação também influenciaram o volume de dividendos distribuídos. Desde 1º de janeiro de 2026, lucros e dividendos superiores a R$ 50 mil por mês, por empresa, passaram a sofrer retenção de 10% de Imposto de Renda na fonte. A legislação preservou os dividendos referentes aos resultados de 2025 cuja distribuição foi aprovada até 31 de dezembro daquele ano. O cenário levou diversas companhias a anteciparem pagamentos aos acionistas, influenciando o ranking das maiores distribuidoras de dividendos.
No Paraná, porém, o debate ganhou outro foco. Independentemente das discussões sobre reajustes tarifários ou mudanças na legislação tributária, consumidores e produtores rurais continuam cobrando melhorias no fornecimento de energia, enquanto a companhia registra uma das maiores remunerações aos acionistas do mercado brasileiro.
As críticas também chegaram ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR). Em sessão recente, conselheiros cobraram uma atuação mais firme do órgão de controle diante da piora dos indicadores da empresa após a privatização.
O principal destaque foi a apresentação de um levantamento técnico elaborado pelo próprio Tribunal. Segundo o presidente da Corte, Ivens Linhares, o relatório identificou aumento superior a 133% nas reclamações de consumidores ao longo de 2025. O documento também aponta crescimento das compensações financeiras pagas pela empresa por falhas no fornecimento, aumento no tempo de atendimento das ocorrências, redução do quadro próprio de funcionários, ampliação da terceirização e queda no desempenho operacional em comparação ao período anterior à privatização.
"Embora a Copel ainda esteja atingindo os parâmetros regulatórios da Aneel, diminuiu a qualidade do seu desempenho", afirmou Linhares durante a sessão.
As críticas também partiram do conselheiro Fábio Camargo. Segundo ele, a população ainda aguarda os resultados prometidos durante o processo de privatização. Em sua manifestação, o conselheiro questionou se houve melhora efetiva dos serviços, dos investimentos e do atendimento aos consumidores. Camargo também citou prejuízos registrados por produtores rurais em razão das interrupções no fornecimento de energia, incluindo perdas na piscicultura, na avicultura e em outras atividades que dependem de abastecimento contínuo.
