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Eleições nos EUA podem mudar futuro dos Bolsonaro; entenda o que está em jogo

Com apenas 32% de aprovação, Trump enfrenta risco de perder o controle do Congresso nas eleições de novembro; democratas lideram pesquisas e já cobram explicações sobre a aproximação da Casa Branca com a família Bolsonaro

Gazeta do Paraná · · 11 min de leitura
Trump em encontro com Flávio Bolsonaro
Trump em encontro com Flávio Bolsonaro — Crédito: Divulgaçao Casa Branca

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A família Bolsonaro pode enfrentar uma mudança importante no cenário político dos Estados Unidos apenas uma semana depois da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Em 3 de novembro, os americanos irão às urnas para renovar toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado. A eleição não decidirá a permanência de Donald Trump na Presidência, mas poderá reduzir significativamente seu poder político e ampliar a fiscalização sobre a atuação de seu governo, inclusive nas relações com aliados estrangeiros.

O resultado interessa diretamente aos Bolsonaro. O governo americano confirmou que concederá vistos a Flávio, sua esposa e suas duas filhas, após o senador deixar o Brasil em descumprimento de uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao mesmo tempo, integrantes do Partido Democrata já vinham questionando a aproximação da administração Trump com a família Bolsonaro e denunciando possíveis interferências americanas na política brasileira.

Se a oposição conquistar a maioria no Congresso, poderá investigar decisões do Departamento de Estado, cobrar explicações sobre eventual utilização de recursos públicos e ampliar a pressão sobre a política externa da Casa Branca. Isso não significa que uma vitória democrata provocaria automaticamente a deportação de Flávio ou a perda de sua situação migratória, mas pode alterar o equilíbrio político que atualmente favorece a família Bolsonaro em Washington.

O que os americanos vão eleger?

Diferentemente do Brasil, onde deputados, senadores, governadores e presidente podem ser escolhidos em uma mesma eleição geral, os Estados Unidos realizam eleições legislativas nacionais no meio do mandato presidencial. Por isso, o pleito de 3 de novembro é conhecido como midterm election, ou eleição de meio de mandato.

Serão renovadas as 435 cadeiras com direito a voto da Câmara dos Representantes, cujos integrantes exercem mandatos de dois anos. No Senado, que possui 100 integrantes com mandatos de seis anos, aproximadamente um terço das cadeiras estará em disputa, além de eventuais eleições especiais. Também haverá eleições estaduais e locais, incluindo disputas para governos estaduais.

A Câmara e o Senado formam o Congresso americano, responsável pela aprovação de leis, pelo orçamento federal e pela fiscalização do governo. Para controlar a Câmara, um partido precisa alcançar a maioria das cadeiras, normalmente 218 quando todas estão ocupadas. No Senado, o controle depende da distribuição dos 100 assentos e, em determinadas votações, do desempate exercido pelo vice-presidente.

Trump, entretanto, não estará na disputa presidencial. Seu mandato continua até janeiro de 2029, independentemente de uma eventual derrota republicana no Congresso. A próxima eleição presidencial está prevista para novembro de 2028.

Trump tem apenas 32% de aprovação

O cenário eleitoral americano apresenta números preocupantes para Donald Trump e seu Partido Republicano. Pesquisa Reuters/Ipsos, concluída na segunda-feira (26), mostra que apenas 32% dos americanos aprovam o desempenho do presidente. O índice representa uma recuperação de um ponto percentual em relação à semana anterior, quando Trump registrou 31%, seu menor nível de aprovação nos dois mandatos presidenciais.

A economia aparece como um dos principais fatores de desgaste. Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados consideram que o custo de vida está seguindo na direção errada. A preocupação com os preços ganhou força depois dos ataques militares americanos ao Irã, em fevereiro, que provocaram aumento dos combustíveis e intensificaram as pressões inflacionárias.

Na disputa pelo Congresso, os democratas aparecem com vantagem expressiva. Entre os eleitores considerados mais propensos a comparecer às urnas, 53% afirmam que pretendem votar em candidatos democratas ou demonstram inclinação por eles, contra 44% que preferem os republicanos. A diferença é de nove pontos percentuais.

Entre todos os eleitores registrados, independentemente da probabilidade de comparecimento, a pesquisa aponta 47% de preferência pelos democratas e 36% pelos republicanos, com 11% de indecisos. Quando a inclinação desses indecisos é considerada, o resultado passa a 50% para os democratas e 41% para os republicanos.

O levantamento ouviu 1.679 adultos americanos, incluindo 1.280 eleitores registrados, e apresenta margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto dos adultos e três pontos para os eleitores registrados.

Os números indicam vantagem nacional dos democratas, mas não significam que o partido conquistará automaticamente a maioria no Congresso. Nos Estados Unidos, a eleição para a Câmara é decidida distrito por distrito, enquanto as vagas do Senado são disputadas em cada estado. A distribuição geográfica dos votos pode produzir resultados diferentes da preferência nacional.

Analistas eleitorais consideram que os democratas têm boas possibilidades de recuperar a Câmara dos Representantes, enquanto a conquista do Senado é mais difícil. A insatisfação econômica também aparece como fator de mobilização da oposição: 46% dos eleitores democratas disseram estar muito entusiasmados com a eleição, contra 30% dos republicanos.

Por que a eleição preocupa Trump?

Historicamente, eleições de meio de mandato costumam ser difíceis para o partido que ocupa a Presidência. Parte dos eleitores utiliza o pleito para manifestar insatisfação com o governo, especialmente em períodos de dificuldades econômicas, inflação ou conflitos políticos.

Para Trump, uma derrota representaria a perda de parte da sustentação institucional de sua administração. Embora continuasse comandando o Executivo, o presidente poderia passar a enfrentar uma Câmara controlada pela oposição, com maior capacidade de investigar suas decisões e dificultar a aprovação de projetos legislativos.

O cenário mais favorável aos democratas é a conquista simultânea da Câmara e do Senado. Entretanto, mesmo uma vitória restrita à Câmara já seria suficiente para modificar o funcionamento do governo americano, sobretudo porque as comissões parlamentares passariam a ser dirigidas pela oposição.

Caso os republicanos mantenham o controle das duas Casas, Trump preservará maior capacidade de aprovar sua agenda e contará com aliados à frente das principais comissões de fiscalização. Se perder apenas uma delas, terá de negociar com adversários políticos em parte importante de suas decisões.

O que acontece se os democratas vencerem?

A principal mudança seria no controle das comissões parlamentares. Nos Estados Unidos, essas estruturas possuem poderes importantes de investigação e fiscalização. Seus integrantes podem realizar audiências, convocar autoridades, solicitar documentos e, observadas as exigências legais, emitir intimações para obtenção de informações.

Uma Câmara democrata poderia, por exemplo, abrir uma investigação sobre a concessão de vistos a Flávio Bolsonaro e seus familiares, solicitar esclarecimentos ao Departamento de Estado e examinar eventuais gastos públicos relacionados à proteção ou ao transporte do senador.

Também poderia investigar se autoridades americanas participaram de alguma operação destinada a facilitar sua saída do Brasil. Até o momento, entretanto, não há comprovação pública de que o governo Trump tenha organizado a viagem ou utilizado recursos federais para financiá-la.

Se os democratas conquistarem também o Senado, a fiscalização poderá se ampliar. A oposição teria maior influência sobre comissões, nomeações e a tramitação de propostas legislativas, embora continuasse sujeita às regras de votação da Casa, que frequentemente exigem apoio superior à maioria simples para superar obstruções.

O novo Congresso assumirá em 3 de janeiro de 2027. Portanto, mesmo uma vitória democrata expressiva em novembro não produzirá imediatamente mudanças na composição das comissões ou no funcionamento do Legislativo.

Trump poderia ser retirado do poder?

Uma derrota republicana em novembro não destitui o presidente. A Constituição americana estabelece um procedimento específico de impeachment, que começa na Câmara dos Representantes e depende de julgamento pelo Senado.

A Câmara pode aprovar acusações por maioria simples. Para condenar e remover um presidente do cargo, porém, são necessários os votos de dois terços dos senadores presentes. Considerando a composição completa do Senado, isso corresponde a 67 votos.

Portanto, mesmo que os democratas recuperem a Câmara e conquistem uma maioria simples no Senado, não teriam automaticamente votos suficientes para retirar Trump da Presidência.

Além disso, o presidente mantém poderes próprios, como dirigir a política externa, comandar órgãos federais e vetar projetos de lei. O Congresso pode tentar derrubar um veto, mas precisa de maioria de dois terços em cada uma das duas Casas.

Na prática, uma vitória democrata poderia transformar os dois anos finais do mandato de Trump em um período de maior confronto institucional, com investigações, disputas orçamentárias e dificuldades para aprovar parte de sua agenda.

Os Bolsonaro já estão na mira dos democratas

A aproximação entre Trump e a família Bolsonaro já era alvo de questionamentos antes da saída de Flávio do Brasil. Em setembro, parlamentares democratas enviaram cartas ao secretário de Estado Marco Rubio cobrando explicações sobre a atuação americana durante a eleição presidencial brasileira.

Em uma das iniciativas, 31 parlamentares questionaram medidas adotadas por Washington e pediram garantias de respeito ao resultado eleitoral brasileiro. Entre os signatários estavam a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador independente Bernie Sanders, que atua em alinhamento com os democratas.

Em outra manifestação, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch acusaram o governo Trump de promover uma campanha de interferência e desestabilização no Brasil. A carta, divulgada em 29 de setembro pela Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, menciona expressamente a reunião entre Trump e Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca.

Os parlamentares questionaram o uso de tarifas comerciais, sanções e pressões diplomáticas sobre instituições brasileiras. Também pediram que o governo americano se comprometesse a reconhecer o resultado certificado das eleições, independentemente do vencedor.

A preocupação ganhou novos elementos com uma investigação publicada pela Reuters em 24 de outubro. A agência ouviu dez autoridades e ex-integrantes do governo americano e revelou que dois funcionários do Departamento de Estado, Darren Beattie e Ricardo Pita, atuaram para favorecer o retorno da família Bolsonaro ao poder no Brasil.

Segundo a reportagem, os dois defenderam medidas contra autoridades brasileiras e orientaram ações diplomáticas favoráveis aos interesses políticos dos Bolsonaro. A Reuters não conseguiu determinar até que ponto atuavam por ordens diretas da Casa Branca ou de Marco Rubio. O Departamento de Estado afirmou que suas medidas buscavam proteger interesses americanos e o direito dos brasileiros a eleições livres.

Depois da saída de Flávio do Brasil, o comentarista político e candidato democrata ao Congresso pelo Texas Isaiah Martin defendeu publicamente sua deportação e a investigação de eventuais gastos do governo americano com sua proteção.

Martin afirmou que cada dólar eventualmente utilizado para abrigar Flávio deveria ser investigado pelos democratas. A declaração, entretanto, não representa uma decisão institucional do Partido Democrata. Até agora, não há confirmação de que a bancada tenha apresentado um procedimento formal especificamente sobre a saída do senador.

O Congresso poderia deportar Flávio?

Não diretamente. A fiscalização parlamentar não equivale ao poder de determinar deportações. Nos Estados Unidos, as decisões migratórias envolvem autoridades do Executivo e, conforme o caso, procedimentos administrativos e judiciais.

Mesmo uma maioria democrata nas duas Casas não poderia simplesmente aprovar uma ordem individual de deportação de Flávio Bolsonaro. Seria necessário considerar sua situação migratória, os documentos utilizados para entrar no país, eventuais pedidos de proteção e as normas americanas aplicáveis.

O mesmo vale para uma possível extradição. A entrega de uma pessoa a outro país depende de requisitos jurídicos, procedimentos específicos e decisões das autoridades competentes. A existência de uma investigação no Brasil não produz automaticamente a obrigação de extradição.

Há ainda uma diferença importante entre visto e asilo político. O visto permite solicitar entrada no território americano conforme sua categoria e condições, enquanto o asilo envolve um pedido de proteção baseado em critérios legais específicos. A concessão de um visto não significa reconhecimento da condição de refugiado ou asilado.

E se Trump perder força em 2028?

A eleição de novembro também terá efeitos sobre a disputa presidencial de 2028. Um Congresso controlado pelos democratas poderia dificultar a agenda republicana, fortalecer lideranças da oposição e influenciar a sucessão presidencial.

Trump está em seu segundo mandato eleito e, pela 22ª Emenda da Constituição, não pode ser eleito presidente uma terceira vez. Assim, a disputa de 2028 definirá quem assumirá a Casa Branca em janeiro de 2029.

Se um democrata vencer a Presidência, a família Bolsonaro poderá encontrar um ambiente político diferente em Washington. Uma nova administração poderá rever prioridades diplomáticas, políticas migratórias e decisões discricionárias de proteção a aliados estrangeiros, sempre dentro dos limites legais.

Isso não significa que vistos válidos seriam automaticamente cancelados ou que um eventual asilo deixaria de produzir efeitos. Cada situação depende de sua base jurídica e das circunstâncias individuais.

O principal risco para os Bolsonaro, portanto, não é uma deportação automática decorrente das eleições legislativas, mas a possibilidade de perder influência política e passar a enfrentar maior fiscalização das relações mantidas com o governo americano.

O calendário decisivo

A primeira data é 3 de novembro, quando os americanos escolhem a nova composição do Congresso. Os eleitos assumirão em 3 de janeiro de 2027, quando poderão reorganizar comissões e iniciar novas iniciativas de fiscalização.

A segunda etapa será a eleição presidencial de novembro de 2028, que definirá o sucessor de Trump. A posse do novo presidente ocorrerá em 20 de janeiro de 2029.

Entre esses dois momentos, a situação dos Bolsonaro nos Estados Unidos poderá ser influenciada tanto pelas decisões da Justiça brasileira quanto pelas medidas migratórias americanas e pelo equilíbrio político em Washington.

A eleição de novembro, portanto, não decidirá diretamente se Flávio Bolsonaro poderá permanecer nos Estados Unidos. Mas poderá determinar até que ponto o governo Trump conseguirá sustentar suas decisões sem enfrentar uma oposição parlamentar fortalecida, justamente quando a relação entre a Casa Branca e a família Bolsonaro passa a receber maior atenção internacional.

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