Israel vai às urnas com Netanyahu pressionado após três anos de guerra
Cerca de 7 milhões de israelenses votam na primeira eleição desde o ataque do Hamas em 2023, em disputa marcada pela guerra e pela segurança
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Cerca de 7 milhões de israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27) na primeira eleição do país desde o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. A disputa coloca o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diante de dois nomes da oposição que também defendem uma política rígida nas áreas militar e de segurança.
Além de Netanyahu, líder do Likud e há 19 anos uma das figuras centrais da política israelense, aparecem entre os principais candidatos o ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Gadi Eisenkot, do partido Yashar, e o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, que lidera uma coalizão de partidos reunida no Beyahad.
Os três têm uma posição semelhante em pontos centrais da política de segurança. Nenhum deles defende a criação de um Estado palestino e os três consideram o desarmamento do Hamas necessário.
A principal diferença entre eles está na forma de lidar com os assentamentos israelenses na Cisjordânia e na relação com outros países da região. Também há divergências sobre a condução política do país, especialmente entre Netanyahu e seus adversários.
Como a votação é feita em cédulas de papel, o resultado deve ser conhecido somente no fim desta quarta-feira (28).
Três candidatos com perfil de segurança
Eisenkot participou do gabinete de guerra criado após o ataque de 7 de outubro, mas deixou o governo de Netanyahu e passou a criticar a condução da ofensiva na Faixa de Gaza.
O ex-general acusa o primeiro-ministro de não dar prioridade suficiente ao resgate dos reféns e de não ter tomado medidas para impedir o ataque do Hamas, apesar de ter recebido alertas prévios. Netanyahu nega as acusações.
Bennett, por sua vez, já ocupou o cargo de primeiro-ministro por um ano, entre 2021 e 2022. Ele tem perfil religioso e vem do campo político ligado à direita israelense.
Para a professora de relações internacionais do Ibmec de São Paulo Karina Stange Calandrin, a semelhança entre os três candidatos é maior quando o assunto é segurança.
“Os três são de direita. Em termos de segurança, eles são bem parecidos. São partidos que a gente chama de falcões”, explicou à Agência Brasil.
Segundo ela, os chamados “falcões” defendem uma resposta mais dura aos adversários de Israel e têm menor disposição para apostar em negociações e diplomacia como forma de resolver os conflitos.
O professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Michel Gherman vê uma diferença mais profunda entre Netanyahu e os dois adversários. Para ele, o atual primeiro-ministro representa uma extrema-direita com um projeto de concentração de poder.
“As diferenças fundamentais têm a ver com a posição em relação à democracia representativa”, afirmou.
Segundo Gherman, Netanyahu defende uma reforma que reduziria a autonomia do Judiciário e ampliaria o poder do Executivo.
Questão palestina divide os candidatos
Apesar das diferenças, a criação de um Estado palestino não aparece como proposta dos três principais concorrentes.
Karina Calandrin avalia que a posição perdeu espaço entre os eleitores israelenses desde o ataque de 7 de outubro.
“Hoje, na sociedade israelense, o Estado palestino perdeu muito apoio desde o 7 de outubro. Qualquer candidato que tenha a bandeira do Estado palestino não vai ganhar muitos votos”, disse.
A diferença aparece principalmente na política de assentamentos na Cisjordânia. Segundo a professora, integrantes da coalizão de Netanyahu, entre eles os ministros Ben-Gvir e Smotrich, têm incentivado a expansão dos assentamentos.
Para Calandrin, uma eventual vitória da oposição poderia reduzir esse avanço e, consequentemente, diminuir a violência na região.
Ela também avalia que Eisenkot e Bennett poderiam adotar uma postura mais aberta ao diálogo com países que participam das negociações sobre o conflito.
“Outra mudança pode ser uma propensão maior a negociar com atores internacionais já que Netanyahu tem rejeitado negociar com Catar e Egito. Isso pode mudar”, afirmou.
Durante a votação desta terça-feira, a agência palestina Wafa relatou novos episódios envolvendo ataques de colonos e forças de segurança israelenses na Cisjordânia.
Para Michel Gherman, Bennett mantém uma posição próxima à de Netanyahu em relação aos palestinos, enquanto Eisenkot pode adotar uma postura mais moderada.
“Netanyahu é a favor de um Estado beligerante completo. Eisenkot é a favor de acordos, não com os palestinos neste momento, mas com os países árabes ao redor”, afirmou.
Resultado não garante governo
A eleição também não define, sozinha, quem conseguirá governar Israel.
O país adota o sistema parlamentarista. O Legislativo, conhecido como Knesset, possui 120 cadeiras, e o partido ou grupo que vencer precisa reunir apoio suficiente de outras legendas para formar uma maioria.
Por isso, o resultado das urnas pode abrir uma nova rodada de negociações entre os partidos.
Karina Calandrin avalia que tanto a legenda de Eisenkot quanto a coalizão liderada por Bennett podem precisar de apoio de partidos árabes para alcançar maioria.
O problema, segundo ela, é que os dois grupos já indicaram resistência a esse tipo de aliança.
“Vai ser muito difícil formar a coalizão sem os árabes. A não ser que eles mudem de ideia e cedam pra tirar Netanyahu do poder. Minha previsão é que não vai ter coalizão”, afirmou.
Gherman aponta outra possibilidade. Os partidos árabes poderiam não integrar formalmente o governo, mas apoiar a oposição em votações necessárias para impedir a permanência de Netanyahu.
“Vai ter uma solução política em que os partidos árabes não vão apoiá-los, mas vão votar contra Netanyahu. E aí a formação vai ser uma coalizão de minoria”, disse.
Eleição acontece após três anos de guerra
A votação ocorre três anos depois do ataque do Hamas que matou cerca de 1,2 mil pessoas e deixou aproximadamente 200 reféns.
Em resposta, Israel iniciou uma ampla operação militar na Faixa de Gaza. Segundo os dados apresentados pela Agência Brasil, mais de 75 mil pessoas morreram no território palestino durante o conflito e grande parte da infraestrutura civil foi destruída.
A atuação israelense em Gaza passou a ser classificada como genocídio por países e especialistas. Integrantes do governo Netanyahu também defenderam a saída de palestinos da região e a expansão da presença israelense no território.
Desde o ataque de 7 de outubro de 2023, Israel também se envolveu em confrontos no Líbano, realizou ataques na Síria e participou de uma ofensiva contra o Irã em conjunto com os Estados Unidos.
Na Cisjordânia, os assentamentos israelenses também avançaram nos últimos anos.
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