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Relatos apontam controle da Unimed sobre exames e protocolos de câncer após compra do Policlínica

Aquisição do Hospital Policlínica pela Unimed foi autorizada pelo Cade com acordo que prevê manutenção de contratos com hospitais locais por 10 anos e veto a novas compras por 5 anos

Por Eliane Alexandrino

Relatos apontam controle da Unimed sobre exames e protocolos de câncer após compra do Policlínica Créditos: Divulgação

Pacientes e médicos de Cascavel relatam dificuldades na liberação de exames e questionamentos sobre protocolos de medicamentos utilizados no tratamento contra o câncer. As questões envolvem procedimentos adotados pela Unimed Cascavel e teriam se intensificado após a aquisição do antigo Hospital Policlínica pela cooperativa.

Para quem enfrenta o tratamento oncológico, o vínculo entre médico e paciente costuma ser considerado um dos pilares da recuperação. A proximidade com o profissional que acompanha o caso, muitas vezes acessível para esclarecer dúvidas ou orientar em situações de emergência, é apontada por especialistas como parte importante de um atendimento humanizado.

Segundo relatos de pacientes e médicos oncologistas ouvidos pela reportagem, mudanças na dinâmica de atendimento teriam ocorrido a partir do início de 2026. Entre os pontos citados está a implantação de um espaço específico para atendimento oncológico dentro do Centro de Oncologia Unimed Cascavel, destinado principalmente à aplicação de medicamentos, localizado na Avenida Tancredo Neves.

De acordo com médicos, há preocupação de que a adoção de protocolos internos possa reduzir a autonomia dos profissionais na indicação de tratamentos. Alguns especialistas afirmam que têm sido questionados sobre a escolha de medicamentos utilizados em terapias oncológicas, que em muitos casos envolvem medicamentos de alto custo.

Além disso, pacientes relatam demora ou dificuldades na autorização de exames de diagnóstico por imagem, como ultrassonografias, tomografias e outros procedimentos utilizados no acompanhamento clínico. Em alguns casos, segundo relatos encaminhados à reportagem, pacientes teriam recorrido à rede particular para realizar exames após negativas ou demora na liberação.

A Gazeta do Paraná também recebeu queixas de profissionais da área médica sobre insatisfação com os valores pagos por consultas e procedimentos. Segundo médicos, a remuneração praticada estaria abaixo da média de mercado, o que tem levado parte dos profissionais a deixar a rede cooperada ou rever o modelo de atendimento.

Outro ponto citado por médicos mais recentes na cooperativa é o modelo de ingresso como aspirante a cooperado, etapa inicial do processo de integração ao sistema. Nesse período, parte da remuneração recebida pode ficar retida por determinado tempo, conforme regras internas da cooperativa.
As denúncias surgem no contexto da aquisição do antigo Hospital Policlínica Cascavel pela Unimed Cascavel, concluída em 2025 pelo valor de aproximadamente R$ 85 milhões. O hospital passou a atender os beneficiários da cooperativa a partir de 1º de setembro daquele ano.

A operação foi analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que aprovou a compra mediante a assinatura de um Acordo em Controle de Concentrações (ACC). Durante a análise, a Superintendência-Geral do órgão apontou riscos à concorrência no mercado hospitalar do município.
Segundo o Cade, havia possibilidade de exclusão de hospitais concorrentes das redes credenciadas, o que poderia afetar o equilíbrio do setor. Para evitar esse cenário, a Unimed Cascavel assumiu compromissos formais.

Entre as medidas previstas no acordo está a manutenção, por um período de 10 anos, dos contratos com hospitais e clínicas locais, como São Lucas, Dr. Lima, Uopeccan e Ceonc, impedindo descredenciamentos nesse intervalo. O acordo também estabelece que a cooperativa deverá adotar tratamento isonômico entre prestadores próprios e credenciados, com aplicação de protocolos clínicos padronizados.

Outra exigência é que a Unimed Cascavel se abstenha de realizar novas aquisições de hospitais gerais em Cascavel por um período de cinco anos. A cooperativa também assumiu o compromisso de investir na melhoria da infraestrutura e na ampliação da capacidade de atendimento do Hospital Policlínica Unimed.
O cumprimento das obrigações será monitorado pela Superintendência-Geral do Cade. Um profissional independente será responsável por apresentar relatórios periódicos ao órgão, com informações detalhadas sobre a execução das medidas acordadas e eventuais indícios de descumprimento das condições estabelecidas.

Relatos apontam seleção de pacientes por rentabilidade em tratamentos oncológicos

Durante entrevista concedida à reportagem, um oncologista que trouxe os questionamentos relatou uma situação que chamou atenção da equipe. Segundo ele, alguns profissionais da área estariam selecionando pacientes com base no potencial de rentabilidade dos tratamentos.

De acordo com o médico, casos que envolvem terapias mais complexas e de maior valor financeiro acabam sendo priorizados, enquanto outros pacientes podem enfrentar maior dificuldade para acessar determinados serviços. A prática, se confirmada, levanta questionamentos éticos sobre a condução de tratamentos oncológicos na cidade.

Para muitos pacientes e familiares, o tratamento contra o câncer representa a principal esperança de recuperação. No entanto, segundo os relatos recebidos pela reportagem, em alguns casos o paciente poderia acabar sendo tratado apenas como parte de um modelo de remuneração que privilegia procedimentos mais lucrativos.

680 médicos cooperados

A Unimed Cascavel é uma cooperativa que reúne 680 médicos cooperados que prestam serviços de diversas especialidades à saúde. A Unimed é a principal operadora de planos de saúde da cidade, detendo de 80% a 90% dos beneficiários de planos médico-hospitalares e conta com 100 mil clientes.
Já o Hospital Policlínica Cascavel, era considerado uma unidade hospitalar de média e alta complexidade, que atua em serviços ambulatoriais e hospitalares de urgência/emergência, controlado antes pelo Grupo Hospital Care, que havia adquirido 60% das ações do Policlínica em 2021.

Para o conselheiro do Cade e relator do caso, Victor Fernandes, a negociação chegou a levantar preocupações: “São preocupações concorrenciais relacionadas a potenciais efeitos de fechamento de mercado e à possibilidade de tratamento discriminatório contra concorrentes, em razão da integração vertical entre a operadora de planos de saúde e o hospital”, disse.

Só no ano passado a Unimed Cascavel faturou R$ 43,9 milhões de janeiro a novembro de 2025.

O que diz a Unimed

A Unimed Cascavel informou que o Hospital Policlínica Unimed (HPU) é um hospital geral preparado para atendimentos de média e alta complexidade, incluindo casos oncológicos que necessitem de cirurgia ou internação hospitalar, conforme indicação médica. A acomodação do paciente varia conforme o tipo de tratamento, podendo ocorrer nas alas 1, 3 ou 4. A unidade não oferece serviço de radioterapia.
Para tratamentos ambulatoriais, como quimioterapia e imunoterapia, a cooperativa mantém o Centro de Oncologia Unimed Cascavel, localizado na Clínica Unimed, na Avenida Tancredo Neves. O espaço conta com oncologistas clínicos, hematologistas e equipe multiprofissional com enfermagem, farmácia, nutrição e psicologia especializadas em oncologia.

A cooperativa também disponibiliza plantão 24 horas para suporte aos pacientes e rede credenciada para tratamentos oncológicos na cidade. Atualmente, a Unimed Cascavel possui cerca de 103.960 mil contratantes e 680 médicos entre cooperados e aspirantes, distribuídos em 42 especialidades médicas. Para tratamentos oncológicos, também há rede credenciada na cidade, com encaminhamento feito pela cooperativa.

A Unimed Cascavel afirma que os beneficiários têm livre escolha para realizar consultas, exames e tratamentos dentro da rede credenciada ou em serviços próprios da cooperativa. Segundo a operadora, a estrutura integrada amplia as possibilidades de atendimento e não impõe restrições quanto ao local de tratamento, inclusive em casos oncológicos, desde que sejam observados critérios clínicos e contratuais.
A cooperativa destaca que, como operadora regulamentada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), tem obrigação legal de autorizar e custear os procedimentos previstos no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde. As autorizações seguem indicação médica, diretrizes clínicas reconhecidas e cobertura contratual do plano. De acordo com a Unimed, não há orientação para substituição de medicamentos por motivos exclusivamente econômicos, e as decisões são baseadas na medicina baseada em evidências e na segurança do paciente.

Em relação aos prazos, a operadora informa que cumpre as regras da ANS. Exames como ultrassonografia têm prazo máximo de até cinco dias úteis para autorização, enquanto exames de maior complexidade, como ressonância magnética, podem levar até dez dias úteis. Para consultas médicas, os limites regulatórios são de até sete dias úteis nas especialidades básicas e até 14 dias nas demais.
Em relação aos valores pagos aos médicos cooperados e prestadores da Unimed Cascavel são definidos em contratos confidenciais, conforme práticas de mercado e regras de governança. Ainda assim, a cooperativa afirma que os honorários médicos estão acima da média praticada no Paraná e no Brasil, reforçando o compromisso com a valorização profissional e a sustentabilidade da rede assistencial.

A eventual mudança no modelo de atendimento por parte de médicos depende de diversos fatores individuais, e não apenas do valor das consultas. A Unimed mantém diálogo com o corpo clínico e revisões periódicas de remuneração. Atualmente, a cooperativa conta com 644 médicos cooperados em 42 especialidades, enquanto o Sistema Unimed reúne cerca de 120 mil médicos em todo o país.

A Unimed também afirma manter canais de atendimento e Ouvidoria para esclarecimentos e revisões de processos. A cooperativa afirma cumprir integralmente as condições estabelecidas em acordo firmado com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) após a aquisição do Hospital Policlínica Cascavel, atual Hospital Policlínica Unimed (HPU), garantindo tratamento isonômico entre prestadores próprios e credenciados.

Foto: Divulgação

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