Os mesmos de sempre? Leilão de concessão da Régis Bittencourt reúne empresas que já dominam o Paraná
Arteris, Motiva e EPR, grupos que controlam quase toda a malha concedida no Estado, apresentaram propostas para assumir a BR-116 entre Curitiba e São Paulo
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação/ANTT
A disputa pela nova concessão da BR-116 entre Curitiba e São Paulo, conhecida como Rodovia Régis Bittencourt, deve consolidar ainda mais o domínio de um pequeno grupo de empresas sobre as principais rodovias do Paraná. O leilão, marcado para esta quinta-feira (23), na B3, em São Paulo, recebeu propostas de três concorrentes que já operam no Estado: Arteris, Motiva (antiga CCR) e EPR.
Independentemente do resultado, o comando da rodovia permanecerá nas mãos de um dos grupos que já administram parte significativa da malha concedida paranaense. O cenário reforça uma característica do setor de concessões rodoviárias: a concentração do mercado em poucas empresas com capacidade financeira para disputar contratos bilionários de longo prazo.
Atualmente, a Motiva opera o Lote 3 das concessões paranaenses por meio da Motiva Paraná. A EPR administra três lotes — o 2, o 4 e o 6 — através das concessionárias EPR Litoral Pioneiro, EPR Paraná e EPR Iguaçu. Já a Arteris é responsável pela concessão da Arteris Litoral Sul, que compreende o Contorno Leste de Curitiba (BR-116), a BR-376 e a BR-101 até Palhoça, em Santa Catarina.
A Régis Bittencourt é uma das rodovias mais estratégicas do país. São mais de 383 quilômetros ligando Curitiba à capital paulista, atravessando 16 municípios e formando um dos principais corredores logísticos do Brasil. Diariamente, passam pela estrada cerca de 29 mil veículos, dos quais aproximadamente 80% são caminhões e ônibus, responsáveis pelo transporte de cargas entre as regiões Sul e Sudeste.
O novo contrato prevê investimentos estimados em R$ 7,07 bilhões em obras (Capex), além de R$ 4,06 bilhões em custos operacionais (Opex) ao longo da concessão.
Contrato nasce de uma concessão problemática
O leilão faz parte do programa federal de otimização de contratos considerados "estressados" — concessões antigas que acumularam problemas de execução, judicializações e obras não realizadas, tornando necessária uma renegociação completa dos contratos.
A Régis Bittencourt se enquadra justamente nesse grupo. A rodovia é administrada pela Arteris desde fevereiro de 2008, em um contrato originalmente previsto para durar 25 anos. Ao longo dos últimos anos, o trecho acumulou reclamações de usuários, especialmente em períodos de chuvas, quando bloqueios provocados por deslizamentos e problemas estruturais se tornaram frequentes.
Para tentar destravar investimentos, o governo federal adotou um modelo chamado de "leilão de otimização". Nele, a concessionária atual negocia previamente um novo contrato com o poder público, mas outras empresas podem disputar a operação oferecendo descontos maiores sobre a tarifa de pedágio. Caso apresentem uma proposta mais vantajosa, assumem a concessão.
Na prática, o certame funciona como uma nova concorrência, embora restrita a um contrato já renegociado.
Mercado cada vez mais fechado
A disputa pela Régis Bittencourt também evidencia como o mercado brasileiro de concessões rodoviárias vem se concentrando nas mãos de poucos grupos. As mesmas empresas que venceram os recentes leilões no Paraná continuam aparecendo entre as principais candidatas às novas licitações federais.
Isso acontece porque contratos dessa dimensão exigem elevada capacidade de investimento, acesso a financiamento, experiência operacional e estrutura técnica para administrar centenas de quilômetros de rodovias durante décadas. Essas barreiras acabam restringindo o número de concorrentes aptos a participar das disputas.
O resultado é que grupos como Arteris, Motiva e EPR ampliam continuamente seus portfólios de concessões, fortalecendo sua posição no mercado nacional.
Seja qual for a vencedora do leilão desta semana, uma certeza já existe: uma empresa que já conhece as rodovias paranaenses continuará comandando um dos mais importantes corredores logísticos do país. O desafio, porém, vai além da troca — ou manutenção — da concessionária. A expectativa é que o novo contrato consiga entregar os investimentos prometidos e evitar que a Régis Bittencourt repita os problemas que marcaram a concessão anterior, marcada por atrasos, obras insuficientes e críticas de usuários ao longo dos últimos anos.
