Gazeta checa declarações de Sandro Alex, Requião Filho e Sergio Moro em sabatinas da Massa FM Cascavel
Falas sobre ferrovias, pedágio, contas públicas, Copel, ICMS, segurança e educação foram confrontadas com documentos e bases oficiais
Por Ana Zimermann
Créditos: divulgações campanhas
Na reta final para o primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, discursos, entrevistas e sabatinas passam a ocupar espaço ainda maior na campanha eleitoral. É também nesse período que números, comparações, resultados de políticas públicas e afirmações sobre responsabilidades de governos podem ganhar peso na formação da opinião dos eleitores.
Nesse contexto, a checagem de declarações permite separar propostas e opiniões de afirmações sobre fatos, números, contratos, indicadores e situações administrativas que podem ser verificadas. O objetivo não é comparar programas ou apontar preferência entre candidaturas, mas confrontar declarações objetivas com documentos públicos e bases oficiais.
A Gazeta do Paraná analisou declarações feitas pelos candidatos ao Governo do Paraná Sandro Alex (PSD), Requião Filho (PDT) e Sergio Moro (PL) nas entrevistas realizadas pela Massa FM Cascavel nos dias 21, 22 e 23 de setembro. Foram selecionadas afirmações com maior possibilidade de verificação documental.
Nos casos em que os dados confirmam apenas parte de uma declaração, a ressalva é apresentada junto à evidência. Promessas sobre ações futuras foram deixadas de lado quando não havia fato presente ou passado que pudesse ser verificado.
SANDRO ALEX
“Nós já temos o projeto da Serra da Esperança”
Sandro Alex afirmou que o Paraná já possui um projeto para solucionar o gargalo ferroviário da Serra da Esperança e que estaria buscando as autorizações necessárias para implantá-lo. O registro da entrevista também mostra que o candidato defendeu uma possível integração entre Ferroeste e Malha Sul.
O que os documentos mostram
Existe, de fato, um projeto oficial que prevê uma nova descida ferroviária na Serra da Esperança. A Nova Ferroeste planejada pelo Governo do Paraná tem traçado de 1.567 quilômetros e prevê uma ligação entre Paranaguá e Guarapuava, justamente para criar uma alternativa ferroviária na região da Serra da Esperança. Estudos de viabilidade e ambientais já foram realizados e sete audiências públicas foram promovidas. A ressalva é que isso não significa que exista um projeto executivo de engenharia pronto para início imediato das obras. A própria Ferroeste informa que essa etapa deverá ser elaborada pelo vencedor do futuro leilão e estima aproximadamente dois anos para sua conclusão. Somente depois poderá ser solicitada a Licença de Instalação ao Ibama.
Portanto, a declaração encontra respaldo quando “projeto” é entendido como o empreendimento ferroviário já estudado e planejado. Exige ressalva se interpretada como existência de projeto executivo concluído e pronto para construção.
“Estado tem caixa e capacidade de investimento”
Ao falar da solução ferroviária, Sandro declarou: “Eu tenho caixa para isso no Estado. Temos saúde financeira e capacidade de investimento”.
O que os documentos mostram
Os indicadores fiscais confirmam uma condição financeira favorável do Paraná. Em julho de 2026, a Secretaria da Fazenda informou que o Estado mantinha Capag A+, nota máxima de Capacidade de Pagamento atribuída pelo Tesouro Nacional. A Capag considera endividamento, poupança corrente e liquidez e é utilizada para avaliar a capacidade de estados e municípios contratarem operações de crédito com garantia da União. A documentação sustenta, portanto, a afirmação sobre saúde fiscal e capacidade de investimento.
Isso não demonstra, entretanto, que exista dinheiro livre ou já reservado especificamente para a solução ferroviária da Serra da Esperança. Capacidade de pagamento e disponibilidade fiscal são conceitos diferentes de uma dotação previamente destinada a determinada obra.
“Produtor pode gastar R$ 30 mil a R$ 50 mil para se conectar à rede trifásica”
Sandro afirmou que, mesmo quando a rede trifásica já chega perto da propriedade, produtores podem precisar investir entre R$ 30 mil e R$ 50 mil para fazer a ligação.
O que os documentos mostram
O valor inicial citado está muito próximo da referência oficial. No lançamento do programa Se Liga Aí, Paraná!, a Copel informou que o investimento médio para conectar propriedades próximas à nova rede trifásica é de aproximadamente R$ 32 mil. O programa prevê que a Copel custeie metade do valor médio e que a outra parcela possa ser financiada por mecanismos estaduais, com condições que variam conforme o perfil do produtor. Assim, a ordem de grandeza de R$ 30 mil encontra respaldo direto nos números oficiais. Os R$ 50 mil podem ocorrer em projetos específicos, conforme distância e adaptações necessárias, mas não aparecem na documentação consultada como custo médio do programa.
REQUIÃO FILHO
“O pedágio está hoje nas mãos do governo federal”
Na entrevista de 22 de setembro, Requião Filho afirmou: “O pedágio está hoje nas mãos do Governo Federal. Nós temos que brigar para que o Paraná possa ter autonomia para cuidar das suas rodovias”.
O que os documentos mostram
O núcleo da declaração corresponde ao desenho das atuais Rodovias Integradas do Paraná. Os lotes foram estruturados e contratados no âmbito federal e são regulados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT. O programa inclui inclusive rodovias estaduais. A ANTT registra que a legislação paranaense autorizou a delegação à União da administração e exploração de rodovias estaduais, permitindo que BRs e PRs fossem agrupadas nos mesmos lotes de concessão. A ressalva é que delegar a administração e exploração para compor um programa federal de concessões não significa que todas as rodovias estaduais tenham deixado de pertencer ao Paraná ou que o governo estadual não possua mais qualquer atribuição na área.
“Todo paranaense é contra o pedágio”
Na sequência, Requião declarou: “Nós seremos contra o pedágio, sim, como todo paranaense é contra o pedágio”.
O que os dados permitem afirmar
A frase transforma uma posição política em uma afirmação sobre a totalidade da população do Estado. Não existe censo, consulta oficial ou outro levantamento capaz de demonstrar que 100% dos paranaenses sejam contrários ao pedágio. Pesquisas amostrais podem medir aprovação ou rejeição a tarifas, concessões ou praças específicas, mas não permitem atribuir uma mesma opinião a todos os moradores do Paraná. A expressão deve, portanto, ser entendida como uma generalização retórica, e não como um fato demonstrável sobre a população.
Ferroeste e concessão por mais 30 anos
Ao tratar das ferrovias, Requião Filho afirmou que pretende “retomar a Ferroeste” e disse que não deseja licitar uma concessão por mais 30 anos para grupos que, em sua avaliação, não atenderiam aos interesses do Paraná.
O que os documentos mostram
Há efetivamente uma concessão ferroviária de 30 anos em discussão, mas é necessário separar dois ativos. A atual concessão da Malha Sul, operada pela Rumo, começou em março de 1997 e possui prazo de 30 anos. O contrato termina em 2027. A ANTT está estruturando uma nova concessão da Malha Sul, dividida em corredores. O modelo em discussão também prevê prazo de 30 anos, cerca de 4.250 quilômetros e investimentos bilionários.
A Ferroeste, entretanto, é uma estrutura distinta. Por isso, quando Ferroeste e a concessão federal da Malha Sul são colocadas na mesma construção, é necessário explicitar a diferença. O prazo de 30 anos mencionado coincide com o desenho da futura Malha Sul, não com uma nova concessão já formalizada da atual Ferroeste.
Ferroeste original foi construída com participação do Exército
Requião Filho propôs utilizar novamente uma parceria com o Exército em projetos ferroviários, citando como referência o modelo utilizado na construção original da Ferroeste.
O que os documentos mostram
A própria Ferroeste confirma o episódio histórico. Segundo a estatal, a construção começou em março de 1991 e foi realizada pelo Governo do Paraná em parceria com o Exército Brasileiro durante o primeiro mandato de Roberto Requião. O primeiro trecho implantado, entre Guarapuava e Cascavel, possui 248,6 quilômetros. A empresa informa custo de US$ 360 milhões, pagos com recursos estaduais. Nesse ponto, a referência histórica feita pelo candidato é respaldada pelos registros oficiais.
SERGIO MORO
“Paraná continua sendo o acionista majoritário da Copel”
Ao tratar da Copel após a transformação da companhia em corporation, Moro afirmou: “O Paraná continua sendo o acionista majoritário, embora não tenha o controle da companhia.”
O que os documentos mostram
A segunda parte da frase está de acordo com a estrutura societária atual: a Copel informa que, desde agosto de 2023, funciona como uma corporação de capital disperso, sem acionista controlador definido. Já a afirmação de que o Paraná é o “acionista majoritário” não corresponde à composição acionária divulgada pela própria companhia. O Estado possui 15,9% das ações ordinárias. A BNDESPar aparece com 19,8%, percentual superior ao do governo paranaense. O Estado também mantém uma ação especial, a chamada golden share, que lhe garante poder de veto em situações previstas no estatuto.
Portanto, o Paraná continua sendo um acionista relevante e detém prerrogativas especiais, mas não possui maioria do capital e não é o maior acionista individual listado na estrutura divulgada pela Copel.
“Nos últimos oito anos, nada foi feito em relação à Ferroeste”
Moro declarou: “Em matéria de infraestrutura, o Paraná praticamente não avançou nos últimos 20 anos. Nos últimos oito anos, nada foi feito em relação à Ferroeste.”
O que os documentos mostram
A formulação “nada foi feito” não é sustentada pelos registros oficiais quando considerada de maneira literal. Desde 2020, a Ferroeste foi qualificada no Programa de Parcerias de Investimentos da Presidência da República para apoio ao processo de desestatização e expansão. Em 2021, foram desenvolvidos estudos de viabilidade técnico-operacional, econômico-financeira, ambiental e jurídica, além do EIA/Rima. Em 2022, o Ibama convocou audiências públicas sobre o empreendimento, realizadas em municípios do Paraná e do Mato Grosso do Sul.
Relatório oficial da própria Ferroeste registra que, em 2023, os estudos de viabilidade e o EIA/Rima já estavam concluídos, permanecendo pendências ambientais e estudos complementares para avanço do processo. Isso não significa que a expansão ferroviária tenha sido construída: os novos 1.567 quilômetros de trilhos previstos pela Nova Ferroeste não foram entregues e o leilão ainda depende do licenciamento. Assim, há fundamento para afirmar que a expansão física prometida não saiu do papel, mas não para dizer literalmente que “nada foi feito”: houve estudos, estruturação, processo ambiental, audiências e preparação do modelo.
“Paraná tem ICMS de 19,5%, o mais alto da região Sul e Sudeste”
Moro afirmou: “Nossa alíquota geral de ICMS é a mais alta na região Sul e Sudeste, 19,5%. Em Santa Catarina é 17%.”
O que os documentos mostram
Os dois percentuais citados isoladamente encontram respaldo na legislação. A legislação paranaense estabelece alíquota de 19,5% nas operações com os demais bens e mercadorias e nas prestações de comunicação abrangidas pela regra geral. Em Santa Catarina, o regulamento estadual estabelece 17% como alíquota geral nas operações internas, ressalvados produtos e serviços sujeitos a regras específicas. O problema está na afirmação de que os 19,5% seriam a maior alíquota do conjunto das regiões Sul e Sudeste. No Rio de Janeiro, consulta oficial da Secretaria de Fazenda registra alíquota interna padrão de 22%, já incluídos 2% do Fundo Estadual de Combate à Pobreza (FECP). Assim, os números referentes ao Paraná e a Santa Catarina estão corretos, mas a conclusão de que o Paraná possui a maior tributação padrão de ICMS de todo o Sul e Sudeste não se mantém diante do dado fluminense.
“Paraná tem os piores indicadores da região Sul em segurança”
Moro declarou: “Hoje [...] nós temos os piores indicadores da região Sul. Perdemos para Santa Catarina e perdemos até para o Rio Grande do Sul.” Na sequência, acrescentou que isso ocorreria tanto em crimes contra a vida como em crimes patrimoniais.
O que os documentos mostram
O resultado depende do indicador utilizado. Nos dados de mortes violentas intencionais de 2025, o Paraná realmente apresenta o maior índice dos três estados do Sul. Segundo dados do Sinesp divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Paraná, o Estado registrou 11,29 mortes violentas por 100 mil habitantes, contra 10,39 no Rio Grande do Sul e 6,38 em Santa Catarina. Portanto, para esse indicador de violência letal, a comparação feita por Moro encontra respaldo.
Mas ela não pode ser generalizada para todos os indicadores de segurança. Nos roubos de veículos em 2024, por exemplo, levantamento baseado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública registra taxas de aproximadamente 12,3 por 100 mil veículos em Santa Catarina, 22,9 no Paraná e 27,5 no Rio Grande do Sul. Nesse indicador patrimonial, portanto, o Rio Grande do Sul apresentava situação pior que a do Paraná. A documentação sustenta que o Paraná estava atrás dos outros dois estados do Sul em mortes violentas intencionais, mas não permite transformar essa situação em “piores indicadores” de segurança de forma geral.
“Assassinatos caíram 19% em 2019 em relação a 2018 pelas políticas públicas que adotamos”
Ao citar sua passagem pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, Moro declarou: “Foi uma queda histórica, assassinatos caíram 19% em 2019 em relação a 2018 pelas políticas públicas que adotamos.”
O que os documentos mostram
O percentual de 19% encontra respaldo no próprio Ministério da Justiça. Página oficial do MJSP, baseada em dados do Sinesp, registra redução de 19% nos homicídios entre 2018 e 2019. Há, porém, uma diferença entre confirmar a variação estatística e atribuir sua causa a uma administração específica. A mesma série oficial mostra que os homicídios já haviam caído 13% entre 2017 e 2018, antes de Moro assumir o Ministério da Justiça em janeiro de 2019. Depois, entre 2019 e 2020, houve aumento de 7%. O Sinesp consolida dados enviados pelos estados e serve para acompanhar os indicadores criminais nacionais, mas essa série estatística não estabelece causalidade entre a queda observada e uma determinada política do Ministério da Justiça. Assim, os dados oficiais confirmam a queda de aproximadamente 19%, mas não permitem concluir, apenas com essa estatística, que ela ocorreu “pelas políticas públicas” adotadas durante a gestão de Moro.
“Apenas 7% dos alunos do ensino médio estão no ensino integral. Piauí tem 100%”
Ao falar de educação, Moro declarou: “Apenas 7% dos alunos do ensino médio estão no ensino integral. Piauí tem 100%.”
O que os documentos mostram
A comparação, da forma como foi apresentada, mistura indicadores diferentes. No Censo Escolar 2024, último quadro comparativo oficial do Inep localizado com percentuais estaduais de matrículas públicas no ensino médio em tempo integral, o Paraná aparecia com 10%, e não 7%. O Piauí registrava 54,1%, e não 100%. O Piauí avançou fortemente depois disso. A Secretaria Estadual de Educação informa que, em 2025, 100% das escolas estaduais de ensino médio passaram a funcionar em tempo integral. Entretanto, isso se refere ao percentual de escolas, não à totalidade dos alunos do ensino médio.
A própria Seduc do Piauí, ao divulgar dados do Censo Escolar 2025, informou que 81,46% das matrículas do ensino médio da rede estadual estavam em tempo integral. Há, portanto, diferença entre dizer que todas as escolas estaduais oferecem o modelo e afirmar que 100% dos alunos estão matriculados nele. No Paraná, o programa também cresceu. O governo estadual informou que havia 412 escolas com ensino integral em 2025, atendendo cerca de 80 mil estudantes do ensino fundamental e médio. Dessa forma, os dados oficiais não sustentam a comparação “7% contra 100%” quando o critério é percentual de alunos do ensino médio em tempo integral. O número de 100% usado para o Piauí corresponde à universalização do modelo entre as escolas estaduais, e não à proporção de matrículas.
O que as checagens mostram
As declarações selecionadas nas três entrevistas mostram por que números eleitorais precisam ser analisados juntamente com sua definição e contexto.
Sandro Alex tem respaldo documental ao afirmar que existe um projeto para a nova ligação ferroviária pela Serra da Esperança, que o Paraná apresenta situação fiscal favorável e que a conexão rural à rede trifásica envolve custos na casa dos R$ 30 mil. Os documentos, entretanto, mostram que o projeto executivo da ferrovia ainda não está pronto, que capacidade fiscal não equivale a recurso reservado para uma obra específica e que o custo médio oficial da conexão elétrica é de aproximadamente R$ 32 mil.
Nas falas de Requião Filho, os contratos rodoviários atuais realmente estão sob estruturação e regulação federal, inclusive com rodovias estaduais delegadas à União. A construção histórica da Ferroeste com participação do Exército também é confirmada. Já a afirmação de que “todo paranaense” seria contrário ao pedágio não pode ser demonstrada como fato, enquanto Ferroeste e Malha Sul precisam ser distinguidas quando se discute o prazo de 30 anos de concessão.
No caso de Sergio Moro, documentos oficiais confirmam partes importantes de algumas declarações, como a alíquota de 19,5% do ICMS paranaense, a taxa de violência letal superior às de Santa Catarina e Rio Grande do Sul em 2025 e a redução nacional de 19% dos homicídios entre 2018 e 2019. Outros elementos modificam o quadro apresentado: o Estado possui 15,9% da Copel e não é seu acionista majoritário; houve diversas ações relacionadas à Nova Ferroeste nos últimos anos; o Rio de Janeiro possui tributação interna padrão superior aos 19,5% citados; a posição do Paraná na segurança varia conforme o crime analisado; e os percentuais de ensino integral apresentados para Paraná e Piauí utilizam referências diferentes.
A proximidade das eleições aumenta a importância dessa distinção. Propostas de governo pertencem ao julgamento político dos eleitores. Já afirmações sobre números, obras, impostos, indicadores e resultados administrativos podem — e devem — ser confrontadas com documentos públicos para que o debate eleitoral seja realizado sobre informações verificáveis.
Créditos: Ana Zimermann
