Frangogate avança e levanta suspeitas sobre obra financiada com dinheiro público em área ligada à cúpula do governo
Vídeo de Homero Marchese aponta pavimentação até imóveis de autoridades; reportagem localiza contrato de terraplenagem, mas portal omite documentos essenciais
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução
A nova investida do ex-deputado Homero Marchese no chamado “Frangogate” leva as suspeitas para São Jorge do Patrocínio, no noroeste do Paraná — município que já vinha sendo citado em reportagens anteriores como ponto de convergência entre imóveis rurais, incentivos fiscais e investimentos públicos.
Gravado às margens de uma estrada rural em obras, o vídeo traz um elemento central: a coincidência entre recursos públicos aplicados em infraestrutura e a localização de propriedades adquiridas por integrantes da alta cúpula do governo estadual.
“Desde o ano passado, um trecho de cerca de quatro quilômetros nessa estrada está sendo pavimentado pela prefeitura, numa obra de cerca de R$5 milhões, custeada pelo governo do estado do Paraná”, afirma Marchese.
Segundo ele, a via leva diretamente a imóveis adquiridos no fim de 2024 por nomes ligados ao governo. “E sabe quem comprou imóveis bem à margem dessa estrada, aqui do lado, no final de 2024? Sim, a República de Jandaia”, diz.
Entre os citados estão Darlan Scalco, chefe de gabinete do governador; Cláudio Stabile, presidente da Fomento Paraná; Giancarlo Rocco, diretor da Investe Paraná; além de familiares de José Eduardo Bekin.
“Nos últimos anos, o governo do estado e a Sanepar investiram em São Jorge do Patrocínio cerca de R$35 milhões”, afirma o ex-deputado, ao citar o programa Rota do Progresso.
Contrato de R$ 2,28 milhões
A equipe da Gazeta do Paraná foi além da denúncia e buscou confirmação documental no Portal da Transparência do município.
A apuração identificou o Contrato nº 2/2026, firmado com a empresa mencionada Lucas Serviços de Terraplanagem, classificado como prestação de serviços, com valor de R$ 2.280.000,00, vinculado à Licitação nº 4/2025, na modalidade concorrência.
O objeto do contrato prevê a execução de serviços de terraplenagem, incluindo limpeza de área, escavação, cortes, aterros, transporte e compactação do solo, dentro de ações voltadas à infraestrutura rural.
Os dados também indicam que o contrato está vigente e foi formalizado no âmbito da Prefeitura de São Jorge do Patrocínio, com recursos oriundos de transferências destinadas ao desenvolvimento rural.
O responsável como assinante do contrato aparece como Lucas Roberto Jambers da Silva, nome que coincide com a referência feita por Marchese no vídeo.
Transparência parcial
Apesar da existência formal do contrato, a reportagem encontrou um obstáculo relevante: a ausência de documentos essenciais no portal da transparência. Não estão disponíveis: o contrato na íntegra; as atas da licitação, anexos técnicos ou mapas de execução.
O objeto da licitação, segundo o portal, prevê a contratação de uma empresa especializada para a execução de obra de engenharia voltada à terraplenagem no parque rural do município de São Jorge do Patrocínio. Trata-se de um conjunto amplo de serviços técnicos que envolve a preparação completa do terreno, incluindo limpeza da área, escavação, realização de cortes e aterros, transporte e espalhamento de materiais, além de nivelamento, conformação e compactação do solo.
A execução desses serviços deve seguir as especificações estabelecidas em Termo de Referência, bem como atender aos Planos de Ação nº 09032025-080501/2025 e nº 09032025-080262/2025, vinculados a recursos oriundos de transferências especiais. O documento indica que esses investimentos estão direcionados ao aprimoramento da infraestrutura rural, com foco no apoio à produção agropecuária e no fortalecimento da agricultura familiar.
Ainda conforme o detalhamento, o objeto abrange todas as atividades necessárias para garantir a adequada preparação das áreas, com o objetivo de promover melhores condições de acesso e circulação, facilitar o escoamento da produção e impulsionar o desenvolvimento rural sustentável no município. A execução deve observar integralmente as especificações constantes no Termo de Referência, incluindo memoriais descritivos, planilhas e demais anexos técnicos que compõem o edital.
No entanto, o próprio sistema indica que não há arquivos anexados ao processo, nem registros das atas da sessão licitatória. Na prática, isso impede a verificação de pontos fundamentais, como: a localização exata dos serviços executados; os critérios técnicos da contratação; eventual vinculação com áreas privadas específicas. Também não localizamos aditivos para chegar ao valor de R$5 milhões mencionados por Marchese.
A ausência dessas informações ocorre justamente em um contexto em que o objeto do contrato — terraplenagem em área rural — coincide com o tipo de intervenção citado no vídeo.
Obras dentro de propriedade
No material divulgado, Marchese afirma ter identificado movimentação de máquinas em área privada. “Acabamos descobrindo outro fato muito curioso: as obras de terraplenagem de um dos imóveis […] estão sendo feitas pela prefeitura de São Jorge do Patrocínio”, diz.
Durante a gravação, ele questiona trabalhadores no local: “E quem que está contratando?”, levantando a suspeita de possível interface entre contrato público e intervenção em área privada.
Novo capítulo do caso
A hipótese de instalação de aviários nos imóveis reforça a conexão com o eixo central do “Frangogate”, que envolve incentivos fiscais e a estruturação de empreendimentos no setor avícola. “E você, paranaense da zona rural, tem dinheiro do Estado em obras de infraestrutura na sua região também?”, questiona Marchese no vídeo.
Ao final, ele sinaliza novos desdobramentos: “As descobertas de hoje abrem mais um capítulo importantíssimo nas investigações sobre o Frangogate. Nós vamos apurar esse caso até o fim”.
Com a identificação do contrato e a constatação de lacunas na transparência, o caso avança de uma denúncia política para um terreno mais sensível: o da rastreabilidade do uso de recursos públicos — e de seus possíveis efeitos sobre interesses privados. A investigação segue em curso.
Créditos: Redação
