Mesmo com bilhões em concessões, internet nas estradas ficará por conta do usuário
Ampliação da cobertura móvel nas rodovias será feita por empresa privada, transferindo aos motoristas o custo do acesso à internet
Por Gazeta do Paraná
Créditos: EPR Iguaçu
A decisão do Governo do Paraná de firmar uma parceria com a operadora Vivo para ampliar a cobertura de telefonia móvel e internet em rodovias, áreas rurais e localidades isoladas acaba expondo uma lacuna importante nos contratos de concessão rodoviária firmados pelo Estado e pela União nos últimos anos.
Embora os novos pedágios tenham sido apresentados como um modelo moderno de infraestrutura, com investimentos bilionários previstos ao longo de décadas, a conectividade ao longo das estradas ficou praticamente de fora das obrigações das concessionárias.
O anúncio foi feito nesta terça-feira (16) pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior. Pelo acordo, a Vivo investirá R$ 192 milhões na instalação de 411 novas antenas em 74 municípios até o final de 2027. Destas, 155 serão implantadas ao longo de rodovias estaduais e federais, incluindo toda a extensão da BR-277, principal corredor logístico do Paraná.
A iniciativa surge em um momento em que a conectividade deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade básica. Aplicativos de navegação, sistemas de monitoramento de cargas, comunicação em emergências, pagamentos digitais e até mesmo o acionamento de socorro dependem de sinal de telefonia e internet. Apesar disso, os contratos das concessões rodoviárias que abrangem a BR-277 não preveem cobertura móvel ao longo das pistas.
A situação chama atenção especialmente porque a BR-277 está dividida em três concessões distintas dentro do novo modelo de pedágios. Os contratos envolvem investimentos que somam dezenas de bilhões de reais ao longo da vigência das concessões, mas não estabeleceram como obrigação das empresas a implantação de infraestrutura de telecomunicações para garantir sinal contínuo aos usuários.
Na prática, as concessionárias ficaram responsáveis por oferecer acesso à internet apenas em pontos específicos, como os Serviços de Atendimento ao Usuário (SAUs) e bases operacionais. Fora dessas estruturas, o motorista continua dependendo da cobertura das operadoras privadas, que em muitos trechos é inexistente ou apresenta falhas frequentes.
Agora, para preencher essa lacuna, o governo estadual recorre a uma parceria com uma empresa privada de telecomunicações. O resultado é que a ampliação da cobertura ocorrerá por meio da rede comercial da Vivo. Ou seja, não se trata de uma rede pública ou gratuita disponível aos usuários das rodovias.
Embora o discurso oficial destaque ganhos para a logística, o agronegócio, a segurança e o turismo, o modelo escolhido transfere para os usuários o custo do acesso. Quem trafegar pelas rodovias contempladas precisará ter um plano ativo da operadora ou adquirir créditos para utilizar a internet móvel disponibilizada pelas novas antenas.
Em outras palavras, o sinal poderá estar disponível, mas o acesso continuará condicionado ao pagamento de um serviço privado. A expansão da cobertura beneficia a infraestrutura da operadora, amplia sua área de atuação e potencializa a captação de clientes em regiões onde antes não havia cobertura adequada.
Segundo o governo, as novas estruturas terão alcance aproximado de seis quilômetros e permitirão acrescentar mais de 580 quilômetros de cobertura móvel em importantes corredores logísticos e turísticos do Paraná. Além da BR-277, o projeto contempla rodovias de acesso ao litoral, como a Estrada da Graciosa (PR-410), a Alexandra-Matinhos (PR-508) e os acessos a Guaratuba e Pontal do Paraná.
O governo sustenta que a iniciativa faz parte do Programa de Conectividade Rural e que a expansão da cobertura beneficiará produtores rurais, comunidades isoladas e regiões vulneráveis a desastres naturais. Também argumenta que a ampliação permitirá maior eficiência no envio de alertas da Defesa Civil em áreas atualmente sem sinal.
A Vivo afirma que o investimento representa um aumento superior a 16% em sua infraestrutura no Paraná. Atualmente, a operadora já possui cobertura móvel em 392 municípios paranaenses e pretende ampliar sua presença com a instalação das novas torres.
O anúncio, contudo, levanta um debate sobre o planejamento da infraestrutura rodoviária no Estado. Em uma época em que a conectividade é considerada essencial para a mobilidade, segurança e desenvolvimento econômico, a ausência dessa exigência nos contratos de concessão faz com que a solução dependa agora de acordos paralelos com empresas privadas.
Enquanto isso, os usuários das rodovias continuam diante de uma realidade contraditória: trafegam por estradas concedidas por valores bilionários, mas, para acessar a internet ao longo do percurso, precisarão recorrer a um serviço pago, contratado diretamente de uma operadora de telefonia. A cobertura chega, mas a conta permanece no bolso do motorista.
