A caixa-preta da educação: diretores relatam pressão, chantagem e afastamentos no Paraná
Após divulgação do áudio de Toledo, diretores e ex-diretores descrevem pressão, ameaças de processos e medo de represálias na rede estadual
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Roni Miranda e Ratinho
O áudio divulgado pela Gazeta do Paraná mostrando integrantes da direção eleita do Colégio Agrícola de Toledo sendo informados de que deveriam deixar os cargos ou enfrentar um processo administrativo abriu uma caixa-preta que, segundo profissionais da educação ouvidos pela reportagem, permaneceu fechada durante anos dentro da rede estadual de ensino.
Nos dias seguintes à publicação da reportagem, comentários de leitores vindos de diferentes regiões do Paraná passaram a relatar situações semelhantes. A partir dessas manifestações, a Gazeta ouviu diretores e ex-diretores que descreveram experiências marcadas por pressão para deixar cargos de gestão, ameaças de Processos Administrativos Disciplinares (PADs), procedimentos de insuficiência de gestão, cobranças por metas e indicadores e medo de represálias.
Os relatos não se concentram em uma única escola, um único município ou uma única chefia. Embora tenham ocorrido em contextos distintos, as histórias apresentam elementos semelhantes o suficiente para revelar um padrão identificado pelos próprios entrevistados. Mais do que relatarem experiências pessoais, eles afirmam ter visto outros colegas passarem pela mesma situação. Um dos profissionais ouvidos pela Gazeta resumiu a percepção compartilhada por diversos gestores: “No nosso núcleo foram vários diretores. Vários que deixaram a direção por essas questões de assédio e outros que ainda se mantêm, mas continuam sendo assediados”.
A repercussão da reportagem sobre o Colégio Agrícola de Toledo também encontrou eco nas redes sociais. Comentários publicados por leitores mencionam episódios semelhantes em Curitiba, Londrina, Maringá, Mamborê e outras regiões do estado. Uma leitora escreveu: “Você vai sair por conta própria ou prefere levar adiante…”. Outra afirmou que situações parecidas ocorreriam em sua região. Também surgiram relatos de ex-diretores que disseram ter deixado cargos de gestão após conflitos com chefias administrativas e abertura de procedimentos internos.
Diante da natureza das denúncias e do receio manifestado pelas fontes, a Gazeta do Paraná optou por preservar nomes, escolas, municípios e Núcleos Regionais de Educação citados pelos entrevistados. Todos afirmaram temer prejuízos profissionais, abertura de novos procedimentos administrativos ou outras formas de retaliação. As identidades são conhecidas pela reportagem.
A dificuldade para obter os depoimentos, aliás, tornou-se um elemento da própria apuração. Nos últimos dias, a Gazeta do Paraná procurou diversos diretores e ex-diretores da rede estadual. Alguns inicialmente demonstraram interesse em conversar com a reportagem, mas posteriormente deixaram de responder às mensagens. Outros preferiram indicar colegas ou afirmaram não se sentir seguros para falar. Houve ainda profissionais que relataram receio de sofrer prejuízos funcionais caso fossem identificados.
A resistência em conceder entrevistas não se limita aos personagens desta reportagem. A própria cobertura jornalística da educação estadual tem se tornado mais difícil nos últimos anos. Diferentemente do que ocorria no passado, quando era comum que diretores conversassem diretamente com a imprensa sobre o cotidiano das escolas, hoje muitos gestores afirmam que precisam de autorização prévia dos Núcleos Regionais de Educação para conceder entrevistas.
A mesma dificuldade é relatada por jornalistas que acompanham a área educacional. O acesso às escolas estaduais para realização de reportagens frequentemente depende de autorizações administrativas, enquanto os pedidos de entrevista costumam ser centralizados nos núcleos ou na própria Secretaria de Estado da Educação. Na prática, diretores raramente são indicados para falar em nome das unidades escolares, e as manifestações oficiais normalmente ocorrem por meio de notas encaminhadas pela Seed.
Nesse contexto, o fato de três diretores e ex-diretores de diferentes regiões do Paraná terem concordado em conceder entrevistas à Gazeta, ainda que sob condição de anonimato, tornou-se um dos elementos mais significativos desta investigação. O receio demonstrado pelas fontes durante a apuração ajuda a compreender por que relatos sobre pressão administrativa, ameaças de processos e conflitos internos raramente chegam ao conhecimento público.
O roteiro que se repete
Embora cada história possua particularidades, os relatos apontam para uma sequência de acontecimentos que se repete. Primeiro surgem cobranças relacionadas à frequência escolar, ao uso de plataformas digitais, às metas administrativas e aos indicadores de desempenho. Em seguida, gestores passam a ser convocados para reuniões individuais ou encontros reservados com chefias administrativas. Por fim, aparece a possibilidade de abertura de PADs ou processos de insuficiência de gestão.
Uma das entrevistadas relata ter sido chamada para uma conversa na qual ouviu que seu trabalho era reconhecido e que sua gestão não apresentava problemas. Segundo ela, a própria chefia afirmou: “Eu não tenho nada que te desabone, absolutamente nada”. Na sequência, porém, veio a orientação para que deixasse o cargo: “Eu quero que você se demita, que você peça demissão, que você saia da direção imediatamente”.
De acordo com o relato, a entrevistada questionou os motivos da exigência, uma vez que havia sido eleita pela comunidade escolar e exercia regularmente suas funções. Ainda assim, afirma que a pressão para que deixasse a direção continuou e que a possibilidade de um PAD foi utilizada durante as conversas. Anos depois, segundo ela, foi informada de que o procedimento jamais havia sido efetivamente instaurado.
Outro diretor descreve uma situação semelhante. Segundo o relato, após responder a procedimentos administrativos que acabaram arquivados ou considerados inconclusivos, foi novamente chamado para uma conversa com a chefia. Na ocasião, afirma ter sido informado de que um novo processo poderia ser aberto caso permanecesse na direção. “Foi colocado que, caso nós não saíssemos da direção, seria aberto esse processo”, relatou.
O paralelo com o áudio do Colégio Agrícola de Toledo é inevitável. Na gravação divulgada pela Gazeta, o coordenador dos Colégios Agrícolas e das Casas Familiares Rurais da Seed, Renato Hey Gondin, afirma aos gestores que existiriam duas formas de resolver a situação: “Existem duas maneiras disso acontecer. Através de um declínio ou através de um processo”. Para os entrevistados ouvidos pela reportagem, a semelhança entre os relatos não passou despercebida.
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Pressão por metas e indicadores
Outro elemento comum aos depoimentos é a pressão relacionada ao cumprimento de metas. Frequência escolar, índices de aprovação, utilização de plataformas digitais e desempenho em avaliações aparecem repetidamente nos relatos.
Uma das ex-diretoras afirma que as cobranças se intensificaram à medida que a escola deixava de atingir determinados indicadores estabelecidos pela estrutura administrativa. Segundo ela, a preocupação principal não estava necessariamente ligada à aprendizagem dos estudantes, mas ao cumprimento de metas previamente definidas. “A Seed não cobra aprendizagem dos nossos alunos. Ela cobra índices”, afirmou.
Outro entrevistado relata que reuniões com chefias frequentemente giravam em torno dos números apresentados pela escola. Segundo ele, o problema não era apenas a cobrança, mas a percepção de que a realidade concreta das unidades escolares muitas vezes era ignorada.
As entrevistas também revelam uma preocupação recorrente com a utilização de plataformas digitais e sistemas de acompanhamento de desempenho. Os profissionais afirmam que gestores eram pressionados a garantir elevados níveis de utilização dessas ferramentas, independentemente das condições específicas de cada comunidade escolar.
Posicionamentos críticos e monitoramento
Dois dos entrevistados também relataram episódios em que posicionamentos críticos em relação às políticas educacionais do governo teriam sido utilizados contra eles.
Uma das fontes afirma ter ouvido diretamente de uma chefia que seu posicionamento político e suas críticas públicas às políticas educacionais incomodavam a administração. Segundo o relato, foi informada de que não poderia manter determinadas posturas e, ao mesmo tempo, continuar exercendo a função de direção.
Outro diretor relatou ter recebido orientações para ter cuidado com publicações feitas em redes sociais. Segundo ele, ficou explícito que o conteúdo compartilhado por gestores escolares era acompanhado por superiores hierárquicos.
Medo, silêncio e adoecimento
Se existe um elemento comum a todos os relatos, é o medo.
Mesmo após deixarem as funções de direção, os entrevistados demonstram receio de falar publicamente sobre o assunto. Em mais de uma entrevista, a preocupação com possíveis consequências profissionais apareceu de forma espontânea antes mesmo do início das perguntas.
Uma das fontes relatou que o período em que esteve submetida às pressões administrativas trouxe impactos duradouros para sua saúde física e emocional. Outra afirmou que ainda evita falar sobre determinados episódios por receio de novas consequências. Um terceiro entrevistado disse conhecer gestores que preferiram permanecer em silêncio para evitar conflitos com a estrutura administrativa.
A sensação descrita pelos profissionais é a de que os processos, independentemente do resultado final, funcionariam como instrumentos de desgaste capazes de produzir insegurança e isolamento entre gestores escolares.
Muito além de Toledo
O caso do Colégio Agrícola de Toledo foi o ponto de partida desta apuração. Entretanto, os relatos recebidos pela Gazeta indicam que o episódio está longe de ser um fato isolado. Comentários de leitores, entrevistas realizadas pela reportagem e as próprias declarações dos diretores apontam para situações semelhantes ocorridas em diferentes regiões do Paraná ao longo dos últimos anos.
O aspecto mais significativo da investigação não é apenas a existência de denúncias. É o fato de que profissionais sem ligação entre si, atuando em contextos distintos, descrevem mecanismos muito parecidos: cobranças por metas, monitoramento de posicionamentos críticos, ameaça de PADs ou processos de insuficiência de gestão e pressão para que gestores deixem voluntariamente cargos para os quais foram escolhidos pela comunidade escolar.
A Gazeta do Paraná encaminhará questionamentos à Secretaria de Estado da Educação sobre os relatos apresentados nesta reportagem e continuará recebendo documentos e depoimentos de professores, pedagogos, diretores e servidores da rede estadual que desejem contribuir com a apuração. O espaço permanece aberto para manifestação.
Créditos: Redação
