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Engrenagem financeira sofisticada sustentou fraude bilionária no país

De forma simplificada, investigadores comparam o funcionamento do esquema a um “parque de diversões”

Por Da Redação

Engrenagem financeira sofisticada sustentou fraude bilionária no país Créditos: Estadão Conteúdo

As investigações sobre o caso envolvendo o Banco Master começam a revelar, com mais clareza, a estrutura considerada pelas autoridades como a maior fraude financeira já registrada no Brasil. O avanço das apurações indica não apenas a complexidade do esquema, mas também a possibilidade de ampliação no número de envolvidos, incluindo operadores que teriam atuado na construção das estruturas financeiras utilizadas.

Segundo os órgãos de controle, o modelo funcionava como uma engrenagem articulada para simular crescimento e solidez financeira. A defesa de Daniel Vorcaro, controlador do banco, não se manifestou sobre as informações já reveladas.

De forma simplificada, investigadores comparam o funcionamento do esquema a um “parque de diversões”. Investidores aplicavam recursos por meio de produtos como CDBs e fundos, atraídos por promessas de segurança e rentabilidade, muitas vezes associadas à cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). No entanto, os ativos que sustentavam essas aplicações, em diversos casos, tinham valor questionável ou eram artificialmente inflados.

O mecanismo central consistia na aquisição de ativos de baixo valor — como precatórios, empresas de fachada e imóveis — que eram transferidos entre diferentes fundos e estruturas financeiras. Esse trânsito gerava uma valorização artificial, registrada nos balanços como crescimento patrimonial. Na prática, o dinheiro circulava dentro do próprio sistema, sem geração real de riqueza.

Um dos exemplos apontados nas investigações envolve fundos com patrimônio declarado muito superior ao valor de mercado efetivo. Em alguns casos, ativos foram reavaliados em cifras milionárias com base em laudos posteriormente contestados por órgãos reguladores. Apesar dos números elevados, esses fundos não geravam retorno financeiro consistente aos investidores.

Outro ponto identificado é o chamado “carrossel financeiro”, no qual recursos eram emprestados a empresas ligadas ao próprio grupo e, em seguida, retornavam ao banco como novas aplicações. Esse processo criava a aparência de expansão das operações e reforçava indicadores como o índice de Basileia, essencial para a captação de novos recursos no mercado.

As investigações também apontam a existência de dezenas de empresas utilizadas para dar suporte à engrenagem. Em um dos casos, um fundo teve seu patrimônio multiplicado em milhões por cento em poucos dias, após operações sucessivas com ativos sem valor real. Esse tipo de movimentação permitia registrar lucros expressivos apenas no papel.

Paralelamente, parte dos recursos captados era direcionada ao exterior. De acordo com a Polícia Federal, valores eram enviados a paraísos fiscais sob justificativas como distribuição de dividendos ou investimentos internacionais. Em alguns casos, o dinheiro retornava ao Brasil como investimento estrangeiro direto, contribuindo para reforçar a aparência de solidez do grupo.

O esquema começou a ruir a partir do aumento da fiscalização do Banco Central e, principalmente, após a deflagração da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025. A ação, que investigava a atuação do crime organizado no mercado financeiro, levou ao bloqueio de fundos e expôs parte das estruturas utilizadas.

Especialistas apontam que o caso evidencia fragilidades no sistema de fiscalização, especialmente na comunicação entre diferentes órgãos, como Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo análises, cada instituição teria sido impactada por estratégias distintas de ocultação e manipulação de informações.

As apurações ainda estão em andamento e não há estimativa oficial do volume total de recursos desviados. No entanto, autoridades indicam que o caso pode ter repercussões amplas, com potencial de atingir não apenas investidores privados, mas também fundos públicos, como regimes próprios de previdência de municípios.

A continuidade das investigações deve aprofundar o entendimento sobre a estrutura e identificar novos responsáveis pela criação e manutenção do esquema.

 

*Com informações do Estadão.

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