Copel amplia geração após privatização, mas segue alvo de críticas por falhas no atendimento rural
Empresa anuncia aumento de 33% na capacidade energética após leilão federal, enquanto produtores relatam prejuízos e instabilidade no fornecimento
Créditos: Copel
A Copel venceu o leilão federal de reserva de capacidade e anunciou a ampliação de 33% na sua capacidade de geração de energia, com investimentos bilionários nas usinas hidrelétricas de Foz do Areia e Segredo, no Paraná. O projeto prevê a instalação de novas turbinas e deve elevar a potência instalada da companhia de 6,2 gigawatts para 8,3 gigawatts até 2030.
Apesar do avanço na geração e do discurso de modernização, a expansão ocorre em meio a críticas crescentes, especialmente após a privatização da companhia. Produtores rurais de diversas regiões do estado têm relatado falhas frequentes no fornecimento de energia, quedas constantes e demora no atendimento, o que tem provocado prejuízos diretos no campo.
As novas obras, consideradas as maiores da Copel na área de geração desde os anos 1990, envolvem investimentos de aproximadamente R$ 3,6 bilhões na usina de Segredo e R$ 1,3 bilhão em Foz do Areia. Juntas, as unidades já somam 2,9 gigawatts de potência instalada e, com a ampliação, ganharão mais 2,1 gigawatts, o suficiente para abastecer cerca de 6 milhões de pessoas adicionais.
A conquista ocorreu no Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência, promovido pelo governo federal, que tem como objetivo garantir segurança energética ao país em momentos de maior demanda ou escassez hídrica. A Copel esteve entre os projetos selecionados por apresentar propostas consideradas competitivas.
Internamente, a empresa atribui o resultado à reestruturação ocorrida após a privatização, que permitiu a renovação das concessões das principais usinas do rio Iguaçu por mais 30 anos e viabilizou novos investimentos. A direção da companhia destaca que a ampliação consolida o Paraná como um dos principais polos de geração de energia limpa do Brasil.
No entanto, fora do ambiente institucional, o cenário é de insatisfação. No campo, produtores relatam perdas na produção devido à instabilidade no fornecimento de energia, afetando atividades como ordenha mecanizada, armazenagem e irrigação. As reclamações também apontam dificuldade de contato com a concessionária e demora na solução de problemas técnicos.
A contradição entre os investimentos em geração e as falhas na distribuição tem gerado questionamentos sobre as prioridades da companhia após a privatização. Enquanto amplia a capacidade de produção e busca protagonismo no setor elétrico nacional, a Copel enfrenta pressão para melhorar a qualidade do serviço prestado, principalmente nas áreas rurais.
As obras nas usinas devem começar ainda neste ano e têm previsão de gerar cerca de 2 mil empregos diretos no pico das atividades. A expectativa é que as novas unidades entrem em operação até 2030.
Mesmo com o discurso de eficiência e crescimento, o desafio da Copel segue sendo equilibrar expansão com qualidade no atendimento. Para produtores e consumidores, o aumento da capacidade só fará sentido se vier acompanhado de um fornecimento estável e confiável no dia a dia.
Privatização
A Copel foi privatizada em agosto de 2023 após a aprovação de um modelo de capitalização pelo governo do Paraná. A operação movimentou cerca de R$ 5,2 bilhões com a venda de novas ações na bolsa, reduzindo a participação do Estado de aproximadamente 60% para cerca de 31%. Com isso, a empresa deixou de ser controlada pelo poder público e passou a ter gestão privada, mantendo apenas uma participação relevante do governo como acionista minoritário.
A proposta foi defendida como forma de ampliar a capacidade de investimento da companhia, atrair recursos do mercado e aumentar a competitividade no setor elétrico. Parte dos recursos obtidos foi destinada ao caixa do Estado, enquanto outra parcela reforçou o capital da empresa.
Por outro lado, a privatização ainda vem gerando críticas de entidades e consumidores, que apontam risco de aumento de tarifas e piora na qualidade dos serviços. Desde então, também cresceram as reclamações sobre falhas no fornecimento de energia, especialmente na área rural, reacendendo o debate sobre os impactos da mudança no controle da companhia.
Movimento para recomprar a Copel
Um movimento político em defesa da reestatização da Copel foi lançado em Ponta Grossa, com articulação do vereador Guilherme Mazer e apoio dos deputados estaduais Arilson Chiorato (PT) e Requião Filho (PDT). A iniciativa foi apresentada durante audiência pública na Câmara Municipal e integra a proposta “É Nossa Energia, Copel é dos Paranaenses!”.
O grupo iniciou a coleta de assinaturas para viabilizar um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que autorize o Governo do Paraná a recomprar ações da companhia e retomar o controle estatal. Para que a proposta avance, será necessário reunir cerca de 90 mil assinaturas, distribuídas em pelo menos 50 municípios do Estado.
Os organizadores defendem que a reestatização é necessária para garantir tarifas mais justas, melhorar a qualidade do serviço e priorizar o interesse da população. A mobilização deve ocorrer por meio de campanhas de rua, com coleta de assinaturas em diferentes cidades e participação de parlamentares, movimentos sociais e entidades.
Foto: Divulgação
