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Brasil tem 94 milhões de leitores digitais, aponta pesquisa Créditos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Brasil tem 94 milhões de leitores digitais, aponta pesquisa

Levantamento da Nielsen BookData mostra que celular é o principal meio de acesso a livros, notícias e outros conteúdos; 43% dos entrevistados afirmam que passaram a ler “muito mais” com as oportunidades digitais

O Brasil tem cerca de 94 milhões de leitores digitais, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira (2) pela Nielsen BookData. O levantamento considera pessoas que, nos 12 meses anteriores, utilizaram algum dispositivo eletrônico para acessar notícias, livros, audiolivros, PDFs, textos informativos, quadrinhos ou mangás.

A pesquisa Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro buscou identificar como os brasileiros consomem esse tipo de conteúdo, quais dispositivos utilizam, com que frequência leem e quais são os principais motivos para escolher os formatos digitais.

O estudo também traça o perfil dos leitores e mostra como a tecnologia vem alterando o acesso a livros e outros conteúdos.

Um dos exemplos encontrados pelos pesquisadores é o da técnica de enfermagem e cuidadora Maria das Neves de Araújo Alves, de 60 anos.

Moradora de Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, e trabalhando em Brasília, Nevinha passa pelo menos três horas por dia dentro de ônibus durante os deslocamentos entre casa e trabalho. Parte desse tempo é dedicada à leitura de romances e livros de ação.

“Prefiro ler no telefone porque ele está sempre comigo e posso ler no ônibus, no posto de saúde, em quase todo lugar”, contou Nevinha à Agência Brasil.

A leitora afirma que mantém o hábito há pelo menos quatro anos e já perdeu a conta de quantos livros e textos leu.

“Termino um livro, começo outro. Não sou boa para guardar nomes, então, não sei citar nenhum, mas gosto de livros com romance e ação que escolho na própria plataforma. Leio o resumo e pego os que acho curiosos. Alguns eu leio até o fim, mesmo não gostando da história. Outros me emocionam, eu pareço viver a trama. Parece que conheci as personagens de verdade”, acrescentou.

Celular é principal meio de leitura digital

A pesquisa foi realizada entre 1º e 11 de junho deste ano, com 3 mil entrevistas em todas as regiões e classes sociais do país.

Entre os conteúdos digitais mais acessados nos 12 meses anteriores à pesquisa estão notícias e livros digitais. Na sequência aparecem artigos publicados em blogs ou sites especializados e audiolivros.

O celular é o principal dispositivo utilizado pelos leitores.

Segundo o levantamento, 72% das pessoas que leem livros digitais ou ouvem audiolivros usam o smartphone para esse tipo de consumo. Entre aqueles que acessam outros formatos de texto, que não sejam livros, a preferência pelo celular chega a 85%.

O perfil dos leitores digitais é formado principalmente por jovens adultos, entre 18 e 44 anos. As mulheres representam 56% desse público.

Maioria dos leitores digitais está nas classes C, D e E

Os dados também mostram que a leitura digital alcança principalmente as classes de menor renda.

Ao todo, 64% dos leitores digitais pertencem às classes C, D e E. A classe C representa 46% do público, enquanto as classes D e E somam 18%.

A classe B corresponde a 29% dos leitores digitais e a classe A representa 7%.

Em relação à raça e à cor, metade dos leitores digitais se declara branca. Pardos representam 37% e pretos, 11%. Amarelos correspondem a 2% e indígenas, a 0,2%.

Facilidade de acesso é principal motivo

A facilidade de acesso é o principal motivo apontado por quem escolhe a versão digital dos livros.

61% dos leitores afirmam que optaram pelo formato digital por causa da facilidade de acesso. Outros 48% destacam a possibilidade de carregar vários livros em um único dispositivo.

O preço mais baixo em comparação com uma obra semelhante em papel aparece como o terceiro motivo mais citado.

Para Nevinha, o formato digital também resolve um problema prático. Ela afirma que carregar livros físicos na bolsa durante os deslocamentos seria mais difícil.

“O livro se torna mais difícil para mim, porque é mais um peso para eu carregar na bolsa, no ônibus. E eu teria que ou comprá-lo ou ir a uma biblioteca – e não há nenhuma perto de onde eu moro”, refletiu.

A leitora também escolheu uma plataforma gratuita porque ela não exige o download dos arquivos. Segundo Nevinha, isso ajuda a economizar dados móveis e espaço de armazenamento no celular.

Leitura gratuita também levanta dúvidas

O levantamento mostra ainda que uma parcela significativa dos leitores teve contato com conteúdos obtidos gratuitamente pela internet.

48,8% disseram ter consumido livros e audiolivros obtidos gratuitamente em sites, aplicativos ou links não oficiais.

Outros 46,4% afirmaram ter utilizado sites institucionais, como a plataforma MEC Livros, do Ministério da Educação, ou obras que estão em domínio público.

A legalidade desses conteúdos ainda gera dúvidas. 46% dos entrevistados afirmaram que nem sempre conseguem saber se um livro digital gratuito é legal ou autorizado.

Ao mesmo tempo, 43% disseram que passaram a ler “muito mais” graças às oportunidades oferecidas pelos meios digitais.

Plataformas digitais ajudam a ampliar acesso

Para Rodrigo Meinberg, CEO da plataforma de leitura digital Skeelo, que ajudou a viabilizar a pesquisa, os dispositivos eletrônicos não necessariamente concorrem com os livros físicos.

Segundo ele, as telas podem ajudar a formar novos leitores e reduzir dificuldades históricas de acesso e distribuição.

“Talvez nunca antes na História tantas pessoas tenham falado sobre livros como agora, com as redes sociais, que são fontes geradoras de descoberta de novos autores”, comentou Meinberg.

O executivo afirma que pesquisas tradicionais do mercado editorial não conseguiam captar completamente os efeitos das mudanças tecnológicas sobre os hábitos de leitura.

“Hoje, o livro está presente [nos telefones celulares de] quase todos os brasileiros”, acrescentou.

Meinberg também destaca as parcerias entre operadoras de telefonia e aplicativos ou plataformas de leitura digital, que permitem que clientes tenham acesso a livros gratuitos.

Segundo ele, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2018, apenas 18% dos 5.570 municípios brasileiros tinham uma livraria.

“Segundo o IBGE, em 2018, apenas 18% dos [5.570] municípios brasileiros possuíam uma livraria. O que restringe o acesso da população a novos livros, à cultura, informação e desenvolvimento social. Já a rede móvel [de telefonia] chega onde as livrarias não chegam. Ou seja, estamos diante de uma grande oportunidade”, disse Meinberg.

De acordo com o executivo, somente nos 12 meses anteriores à pesquisa, 47 milhões de brasileiros tiveram contato com um livro digital, PDF ou audiolivro.

Tecnologia pode ajudar a superar barreiras

O presidente do Instituto para a Democratização da Leitura Digital, Rafael Lunes, considera que a tecnologia pode ampliar o acesso à cultura e à educação.

Para ele, o Brasil ainda enfrenta uma dificuldade de oferta de livros, mesmo com o avanço da alfabetização.

“O cenário da leitura em um país continental, gigantesco, como o Brasil, apresenta um paradoxo persistente: avançamos significativamente na alfabetização, mas temos ainda milhares de municípios brasileiros sem uma única livraria ou biblioteca operacional. Ensinamos a ler, mas há uma flagrante escassez de oferta de leitura”, comentou Lunes.

Lunes defende que o país precisa avançar da alfabetização funcional para a formação de leitores habituais, com maior acesso a livros.

“A tecnologia nos permite transformar as telas digitais de inimigas em aliadas deste processo”, concluiu.

O presidente do instituto também citou a plataforma MEC Livros como exemplo de ampliação do acesso. Segundo ele, a ferramenta superou, em menos de seis meses, a marca de 1,1 milhão de usuários e 750 mil downloads.

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