Anvisa alerta para riscos de manipular canetas emagrecedoras em casa
Agência identificou ofertas de tirzepatida em pó e tutoriais para diluição e aplicação doméstica; órgão alerta para risco de contaminação, infecções graves e até sepse
Créditos: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou para os riscos da manipulação caseira de substâncias usadas nas chamadas canetas emagrecedoras. Segundo a agência, produtos injetáveis preparados fora de ambientes com controle adequado de esterilidade podem causar contaminações e infecções graves.
O alerta foi divulgado nesta quarta-feira (23), depois que a Anvisa identificou publicações na internet oferecendo versões em pó de substâncias como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. Algumas dessas ofertas são acompanhadas de tutoriais que ensinam os próprios usuários a diluir e aplicar o produto em casa.
A agência afirma que, nesses casos, não é possível garantir que a substância realmente contenha o princípio ativo informado. Também não há como assegurar a concentração, a ausência de impurezas ou a esterilidade do produto.
A preocupação aumenta porque a aplicação é feita diretamente no organismo. Segundo a Anvisa, um produto contaminado pode provocar infecção no local da aplicação, com sintomas como dor, vermelhidão, inchaço e formação de abscessos.
Em situações mais graves, a infecção pode chegar à corrente sanguínea e causar sepse, uma emergência médica que pode levar à internação, falência de órgãos e até à morte.
Risco começa no preparo do produto
A Anvisa explica que um medicamento injetável precisa ser produzido e preparado sob condições que garantam a esterilidade. Em casa, o processo pode sofrer contaminação pelo ar, superfícies, recipientes, água ou materiais utilizados na aplicação.
Mesmo que um produto em pó pareça limpo ou esteja em uma embalagem lacrada, isso não significa que esteja livre de microrganismos ou de outras partículas que possam causar problemas quando injetadas no organismo.
Além das bactérias, fungos e outros agentes contaminantes, partículas presentes no produto também podem provocar inflamações e lesões nos tecidos.
“A gente não consegue garantir a esterilidade do produto, que é um dos aspectos que a Anvisa avalia quando aprova o registro de um medicamento. As pessoas precisam buscar medicamentos que estejam registrados no país”, afirmou Daniela Marreco, diretora da Anvisa responsável pela área de medicamentos.
Anvisa também alerta sobre substância em estudo
A agência identificou ainda publicações que divulgam o CBL-514, um peptídeo sintético que está em fase 2 de estudos clínicos.
O produto ainda não tem registro nem autorização para venda no Brasil. Nessa etapa, a substância continua sendo avaliada para verificar sua segurança, eficácia e qualidade.
A Anvisa alerta que utilizar um medicamento que ainda está em fase de testes envolve riscos, principalmente porque ainda não existem evidências suficientes que permitam avaliar completamente seus benefícios e possíveis danos.
“Tomar um medicamento sem registro e ainda em fase de testes envolve riscos significativos, principalmente pela falta de evidências sólidas sobre sua segurança, eficácia e qualidade”, afirmou a agência.
Quais canetas emagrecedoras são regularizadas?
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos que atuam sobre mecanismos relacionados ao controle da glicose e da saciedade. Entre os princípios ativos estão a semaglutida e a tirzepatida.
No Brasil, existem medicamentos registrados pela Anvisa à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, além de produtos nacionais, e de tirzepatida, como o Mounjaro.
Esses medicamentos passaram por avaliação da Anvisa para registro, incluindo aspectos relacionados à segurança, eficácia e qualidade.
A tirzepatida também pode ser encontrada em farmácias de manipulação, desde que sejam cumpridas as exigências sanitárias e exista indicação e prescrição médica. A Anvisa reforça que a manipulação deve seguir regras específicas e não se confunde com a venda clandestina de produtos em pó pela internet.
A agência vem intensificando a fiscalização sobre medicamentos agonistas de GLP-1. Em 2026, foram realizadas inspeções em farmácias de manipulação e empresas importadoras, com interdições e apreensões de produtos irregulares.
A venda e a produção irregular de medicamentos à base de tirzepatida já foram alvo de medidas da Anvisa. Em junho, por exemplo, a agência determinou a apreensão de produtos sem registro e suspendeu a produção irregular de tirzepatida em uma empresa.
A orientação da Anvisa é que pacientes utilizem medicamentos regularizados e procurem orientação de profissionais de saúde antes de iniciar ou modificar um tratamento.
