Créditos: Ricardo Stuckert
Alcolumbre tenta reaproximação com Lula para encerrar crise após derrota no STF
Presidente do Senado quer audiência pessoal com Lula para superar a rejeição de Jorge Messias; Planalto estuda substituir Randolfe Rodrigues e Jaques Wagner para destravar pauta estratégica
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), sinalizou ao governo federal que pretende conversar pessoalmente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar reconstruir a relação entre o Palácio do Planalto e a cúpula do Senado após a derrota sofrida pelo governo na última semana com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal.
Nos bastidores, interlocutores afirmam que Alcolumbre quer “passar a régua” sobre o episódio e encerrar o desgaste político provocado pela votação. O presidente do Senado sustenta que não atuou contra o nome indicado por Lula e que a rejeição foi consequência de um ambiente de insatisfação dentro da Casa, cenário que, segundo ele, já havia sido alertado previamente ao governo.
A aliados e emissários do Planalto, Alcolumbre também afirmou que não pretende criar obstáculos à pauta do Executivo no Senado e que não há intenção de travar projetos estratégicos ou colocar em votação matérias consideradas problemáticas para o governo.
Até a derrota de Jorge Messias, o senador do Amapá era visto como um dos principais fiadores da estabilidade do governo Lula no Congresso, especialmente no Senado, onde a relação vinha sendo considerada menos conflituosa do que na Câmara dos Deputados.
O discurso adotado por Alcolumbre nos bastidores é de que segue interessado em manter diálogo com o governo. A lideranças do centrão, ele teria afirmado que buscava apenas ampliar interlocução com o senador Flávio Bolsonaro, um dos principais nomes da oposição ao PT para 2026, sem aderir formalmente ao campo oposicionista.
Do lado do Planalto, o entendimento também é de evitar rompimento com o presidente do Senado. Após a rejeição de Messias, Lula teria orientado auxiliares a seguir em frente sem ampliar o desgaste político.
Nos últimos dias, ministros do governo passaram a intensificar conversas com Alcolumbre. Na terça-feira (5), o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, se reuniu com o senador para avaliar o cenário político após a derrota no STF.
Já na quarta-feira (6), o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, participou de um almoço com Alcolumbre em nova tentativa de distensionar a relação entre Senado e governo.
Alcolumbre também manteve conversas com aliados próximos de Lula no Congresso, incluindo o líder do governo no Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues, com quem esteve nesta quinta-feira (7).
Internamente, o governo já discute mudanças na articulação política no Senado como forma de melhorar o relacionamento com a Casa.
Entre as possibilidades analisadas está a substituição de Randolfe na liderança do governo no Congresso. Integrantes do Planalto avaliam que a proximidade do senador com Alcolumbre, especialmente pela aliança política no Amapá, poderia dificultar a condução das negociações em um momento de tensão política. Além disso, aliados lembram que Randolfe deverá concentrar esforços na disputa eleitoral de 2026.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, também enfrenta resistência. Segundo relatos de bastidores, Alcolumbre teria rompido relações com o petista durante o processo de indicação de Jorge Messias ao STF, o que passou a gerar questionamentos dentro do próprio governo sobre a manutenção do senador baiano no posto.
A preocupação do Planalto se intensifica porque projetos considerados prioritários dependem diretamente da articulação com Alcolumbre no Senado.
Entre as matérias que aguardam votação estão as PECs do Sistema Único de Assistência Social (Suas) e da Segurança Pública, além do projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos no Brasil, conhecidos como “terras raras”.
Outro tema sensível para o governo é a proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. A PEC tramita atualmente na Câmara dos Deputados e deve avançar ao Senado nas próximas semanas. O Planalto trabalha para aprovar a proposta ainda no primeiro semestre, antes do período de maior turbulência política provocado pela pré-campanha eleitoral e pela realização da Copa do Mundo.
Apesar das tentativas de reaproximação, integrantes do governo admitem reservadamente que a relação com Alcolumbre atravessa um momento de desgaste. Um ministro ouvido nos bastidores classificou o atual estágio da relação como “abrasivo”.
Ao mesmo tempo, o PT avalia explorar politicamente episódios recentes envolvendo lideranças do centrão e o caso do Banco Master durante a disputa presidencial de 2026.
Entre os pontos que devem ser usados politicamente está a narrativa de que setores da oposição e integrantes do STF teriam atuado para barrar o avanço de investigações ao rejeitarem o nome de Jorge Messias ao Supremo.
O caso do Banco Master também aumentou a tensão política em Brasília. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como pivô das investigações, teria se reunido com Alcolumbre em 2025 na residência oficial do Senado, segundo mensagens encontradas pela Polícia Federal em aparelhos apreendidos durante a investigação.
Outro ponto que chamou atenção foi a atuação da Amapá Previdência, que aplicou cerca de R$ 400 milhões em títulos considerados de alto risco ligados ao banco.
A instituição era presidida por Jocildo Silva Lemos, alvo de operação da Polícia Federal em fevereiro e apontado como aliado político de Alcolumbre.
