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Paraná perde metade das lavouras de cebola em oito anos, enquanto preço dispara nos supermercados

Após sucessivas safras de baixa remuneração, agricultores reduziram o cultivo da hortaliça; área plantada é a menor da década e chuvas já prejudicam a produtividade no Centro-Sul do Estado

Gazeta do Paraná · · 8 min de leitura
Paraná perdeu metade da área cultivada com cebola em oito anos, enquanto os preços da hortaliça dispararam no mercado
Paraná perdeu metade da área cultivada com cebola em oito anos, enquanto os preços da hortaliça dispararam no mercado — Crédito: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

O consumidor que encontra a cebola cada vez mais cara nas prateleiras dos supermercados dificilmente imagina que, nos últimos anos, muitos agricultores paranaenses fizeram justamente o caminho contrário: desistiram de produzi-la. Em oito anos, o Paraná perdeu metade da área destinada à cultura, resultado de sucessivos períodos de preços baixos, excesso de oferta e dificuldades para garantir remuneração suficiente no campo. Agora, quando a hortaliça registra forte valorização no comércio, o Estado inicia uma nova colheita com a menor área plantada da década.

Os números do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, mostram que a safra 2026/2027 ocupa aproximadamente 2,4 mil hectares. A extensão é 50,5% inferior à registrada em 2018. A produção estimada é de 96,5 mil toneladas, redução de 23,3% no mesmo intervalo.

A retração revela uma transformação importante na atividade. Embora a área cultivada tenha diminuído pela metade, o volume produzido caiu em proporção menor, resultado dos avanços tecnológicos que elevaram a produtividade das lavouras. O ganho de eficiência, entretanto, não foi suficiente para impedir a saída de produtores de uma cultura marcada pela instabilidade dos preços.

A contradição aparece no mercado. Em janeiro deste ano, a cebola era vendida ao consumidor paranaense por aproximadamente R$ 2,50 o quilo. Em outubro, a média chegou a R$ 6,73, uma alta de 169,2%. No atacado, a saca de 20 quilos alcançou R$ 135,37, valorização de 261,2% em relação ao início de 2026.

A diferença entre os preços praticados em momentos distintos ajuda a explicar o risco enfrentado por quem depende da atividade. Quando a oferta nacional é elevada, as cotações podem cair a níveis que desestimulam o plantio seguinte. Quando a produção diminui, os preços podem reagir, mas nem todos os agricultores que abandonaram a cultura conseguem retornar imediatamente.

Menos terra, mais produtividade

A redução da área cultivada não significa que a produção paranaense tenha permanecido estagnada tecnologicamente. Pelo contrário. O Deral aponta que a produtividade média passou de 26.092 quilos por hectare em 2018 para uma estimativa de 40.453 quilos na safra atual.

O avanço é de aproximadamente 55% e está associado à adoção de cultivares híbridas, semeadura direta e sistemas de irrigação.

Na prática, as propriedades que permaneceram na atividade passaram a produzir mais cebola por hectare. Esse ganho, porém, também evidencia uma característica do setor: a necessidade de investimentos e planejamento para manter a competitividade.

A adoção de novas tecnologias pode melhorar o rendimento e a qualidade da produção, mas não elimina os riscos associados ao clima, às oscilações do mercado e aos custos de implantação das lavouras.

Para o agricultor, a decisão sobre quanto plantar precisa ser tomada antes de saber qual será o preço recebido na colheita. Entre o investimento inicial e a comercialização, a oferta de outras regiões produtoras, as condições meteorológicas e a demanda do mercado podem modificar completamente as perspectivas de remuneração.

É nesse ambiente que o Paraná perdeu parte expressiva de sua área produtiva. Segundo a avaliação do Deral, os períodos anteriores de sobreoferta e preços baixos foram determinantes para desestimular o cultivo.

Produção concentrada

A cebolicultura paranaense está concentrada principalmente nas regiões de Guarapuava, Curitiba e Irati. Juntas, elas respondem por 80,2% da área plantada e 87,5% da produção estimada para a safra 2026/2027.

Guarapuava ocupa posição central nesse cenário. A regional reúne 740 hectares cultivados e tem previsão de colher 42,5 mil toneladas, o equivalente a aproximadamente 44% de toda a produção estadual.

Na região de Curitiba, a estimativa é de 31 mil toneladas distribuídas por 873 hectares. Já a regional de Irati possui 300 hectares e previsão de produzir 10,9 mil toneladas.

A concentração significa que o desempenho das lavouras dessas regiões terá peso decisivo no resultado final do Estado. Também torna a produção particularmente sensível a eventos climáticos que atingem o Centro-Sul paranaense.

E os primeiros números da colheita mostram que o clima já começou a interferir nas expectativas.

Chuva reduz rendimento

Na região de Guarapuava, o excesso de chuvas comprometeu a produtividade das primeiras áreas colhidas. Segundo o Deral, o rendimento observado foi de 47 toneladas por hectare, diante de uma expectativa inicial de 57,5 toneladas.

A diferença representa uma redução de 18,3% em relação ao rendimento projetado para essa etapa.

Até o levantamento divulgado em 29 de outubro, haviam sido colhidos 111 hectares, aproximadamente 15% da área cultivada na regional. A produção obtida era de cerca de 5,2 mil toneladas.

O resultado exige cautela na interpretação. A perda de produtividade foi constatada nas áreas inicialmente colhidas e ainda não pode ser aplicada à totalidade da safra. O desempenho das lavouras restantes dependerá das condições climáticas e do avanço dos trabalhos nas próximas semanas.

Mesmo assim, o episódio acrescenta uma dificuldade a uma atividade que já enfrenta redução estrutural de área.

O excesso de umidade pode prejudicar as operações de campo e afetar a qualidade comercial das hortaliças. No caso da cebola, a conservação após a colheita também é importante, pois influencia o período de armazenamento e as condições de comercialização.

O problema ocorre em um ano de chuvas intensas no Paraná. O Deral também revisou para baixo as estimativas de outras culturas, especialmente os grãos de inverno, cuja produção total deve cair 28% em relação a 2025.

Preço alto não significa lucro maior

A valorização registrada nos supermercados poderia sugerir um cenário favorável para quem produz cebola. Mas a relação entre o preço pago pelo consumidor e a remuneração do agricultor não é direta.

Entre a propriedade rural e o comércio varejista existem etapas de classificação, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização. Cada uma delas possui custos e condições próprias de negociação.

Além disso, o agricultor não necessariamente vende sua produção no momento de maior valorização. O preço recebido depende da época da colheita, da qualidade do produto, da oferta disponível e dos contratos ou negociações realizados.

No início da safra paranaense, os próprios dados oficiais ainda não permitiam estabelecer uma referência consistente para os preços pagos aos produtores. Até o levantamento de 29 de outubro, apenas 3,6% do volume estadual previsto havia sido comercializado.

Isso significa que a alta de 261,2% registrada no atacado não pode ser interpretada como aumento equivalente na renda dos agricultores paranaenses.

A distinção é especialmente importante em uma cultura que perdeu espaço justamente por causa de períodos anteriores de baixa remuneração.

O comportamento dos preços também afeta o planejamento das próximas safras. Valores elevados podem estimular o retorno de produtores e a ampliação do plantio. Se esse movimento ocorrer simultaneamente em diferentes regiões, a oferta futura poderá crescer e pressionar novamente as cotações.

Trata-se de uma possibilidade de mercado, não de uma previsão confirmada para o próximo ciclo.

O desafio de permanecer na atividade

A trajetória da cebolicultura paranaense mostra que produzir mais por hectare não resolve, sozinho, o problema da rentabilidade agrícola.

Os ganhos tecnológicos foram expressivos, mas ocorreram ao mesmo tempo em que a área plantada encolheu. O resultado é um setor mais produtivo, porém instalado em uma superfície muito menor do que a ocupada oito anos atrás.

A redução também levanta questões sobre a permanência de pequenos e médios agricultores na atividade, a capacidade de investir em tecnologia e as alternativas de renda encontradas por quem deixou de plantar cebola.

Os dados disponíveis não permitem identificar quantas famílias abandonaram a cultura nem quantas propriedades passaram a produzir outros alimentos. Também não mostram se a retração foi mais intensa entre produtores de menor porte.

Essas informações são necessárias para compreender a dimensão social da mudança, para além dos indicadores de área e produtividade.

O fato é que a cebola continua sendo um produto de consumo cotidiano, mas sua produção depende de decisões tomadas meses antes da chegada aos supermercados. Quando os preços não remuneram adequadamente o investimento, a redução do plantio pode se tornar uma resposta econômica dos agricultores.

O efeito dessa decisão só aparece posteriormente, quando a oferta muda e os preços passam a refletir um novo equilíbrio de mercado.

Safra será decisiva

A colheita da cebola paranaense começou em outubro e a comercialização deverá se estender até o início do outono de 2027.

Nesse período, o desempenho das lavouras do Centro-Sul será determinante para confirmar ou revisar a previsão de 96,5 mil toneladas.

Também será possível avaliar se a valorização recente chegará efetivamente aos produtores e em que medida compensará os custos de produção e as perdas provocadas pelo clima.

O cenário reúne dois movimentos que parecem contraditórios, mas fazem parte da mesma dinâmica: o consumidor paga mais caro por um alimento básico enquanto o Estado cultiva menos da metade da área que destinava à hortaliça oito anos atrás.

Para o Paraná, o desafio não está apenas em recuperar a produção. Está em criar condições econômicas para que o agricultor encontre razões para continuar plantando, inclusive quando o mercado voltar a registrar preços menos favoráveis.

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