Paraná perde metade das lavouras de cebola em oito anos, enquanto preço dispara nos supermercados
Após sucessivas safras de baixa remuneração, agricultores reduziram o cultivo da hortaliça; área plantada é a menor da década e chuvas já prejudicam a produtividade no Centro-Sul do Estado
O consumidor que encontra a cebola cada vez mais cara nas prateleiras dos supermercados dificilmente imagina que, nos últimos anos, muitos agricultores paranaenses fizeram justamente o caminho contrário: desistiram de produzi-la. Em oito anos, o Paraná perdeu metade da área destinada à cultura, resultado de sucessivos períodos de preços baixos, excesso de oferta e dificuldades para garantir remuneração suficiente no campo. Agora, quando a hortaliça registra forte valorização no comércio, o Estado inicia uma nova colheita com a menor área plantada da década.
Os números do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, mostram que a safra 2026/2027 ocupa aproximadamente 2,4 mil hectares. A extensão é 50,5% inferior à registrada em 2018. A produção estimada é de 96,5 mil toneladas, redução de 23,3% no mesmo intervalo.
A retração revela uma transformação importante na atividade. Embora a área cultivada tenha diminuído pela metade, o volume produzido caiu em proporção menor, resultado dos avanços tecnológicos que elevaram a produtividade das lavouras. O ganho de eficiência, entretanto, não foi suficiente para impedir a saída de produtores de uma cultura marcada pela instabilidade dos preços.
A contradição aparece no mercado. Em janeiro deste ano, a cebola era vendida ao consumidor paranaense por aproximadamente R$ 2,50 o quilo. Em outubro, a média chegou a R$ 6,73, uma alta de 169,2%. No atacado, a saca de 20 quilos alcançou R$ 135,37, valorização de 261,2% em relação ao início de 2026.
A diferença entre os preços praticados em momentos distintos ajuda a explicar o risco enfrentado por quem depende da atividade. Quando a oferta nacional é elevada, as cotações podem cair a níveis que desestimulam o plantio seguinte. Quando a produção diminui, os preços podem reagir, mas nem todos os agricultores que abandonaram a cultura conseguem retornar imediatamente.
Menos terra, mais produtividade
A redução da área cultivada não significa que a produção paranaense tenha permanecido estagnada tecnologicamente. Pelo contrário. O Deral aponta que a produtividade média passou de 26.092 quilos por hectare em 2018 para uma estimativa de 40.453 quilos na safra atual.
O avanço é de aproximadamente 55% e está associado à adoção de cultivares híbridas, semeadura direta e sistemas de irrigação.
Na prática, as propriedades que permaneceram na atividade passaram a produzir mais cebola por hectare. Esse ganho, porém, também evidencia uma característica do setor: a necessidade de investimentos e planejamento para manter a competitividade.
A adoção de novas tecnologias pode melhorar o rendimento e a qualidade da produção, mas não elimina os riscos associados ao clima, às oscilações do mercado e aos custos de implantação das lavouras.
Para o agricultor, a decisão sobre quanto plantar precisa ser tomada antes de saber qual será o preço recebido na colheita. Entre o investimento inicial e a comercialização, a oferta de outras regiões produtoras, as condições meteorológicas e a demanda do mercado podem modificar completamente as perspectivas de remuneração.
É nesse ambiente que o Paraná perdeu parte expressiva de sua área produtiva. Segundo a avaliação do Deral, os períodos anteriores de sobreoferta e preços baixos foram determinantes para desestimular o cultivo.
Produção concentrada
A cebolicultura paranaense está concentrada principalmente nas regiões de Guarapuava, Curitiba e Irati. Juntas, elas respondem por 80,2% da área plantada e 87,5% da produção estimada para a safra 2026/2027.
Guarapuava ocupa posição central nesse cenário. A regional reúne 740 hectares cultivados e tem previsão de colher 42,5 mil toneladas, o equivalente a aproximadamente 44% de toda a produção estadual.
Na região de Curitiba, a estimativa é de 31 mil toneladas distribuídas por 873 hectares. Já a regional de Irati possui 300 hectares e previsão de produzir 10,9 mil toneladas.
A concentração significa que o desempenho das lavouras dessas regiões terá peso decisivo no resultado final do Estado. Também torna a produção particularmente sensível a eventos climáticos que atingem o Centro-Sul paranaense.
E os primeiros números da colheita mostram que o clima já começou a interferir nas expectativas.
Chuva reduz rendimento
Na região de Guarapuava, o excesso de chuvas comprometeu a produtividade das primeiras áreas colhidas. Segundo o Deral, o rendimento observado foi de 47 toneladas por hectare, diante de uma expectativa inicial de 57,5 toneladas.
A diferença representa uma redução de 18,3% em relação ao rendimento projetado para essa etapa.
Até o levantamento divulgado em 29 de outubro, haviam sido colhidos 111 hectares, aproximadamente 15% da área cultivada na regional. A produção obtida era de cerca de 5,2 mil toneladas.
O resultado exige cautela na interpretação. A perda de produtividade foi constatada nas áreas inicialmente colhidas e ainda não pode ser aplicada à totalidade da safra. O desempenho das lavouras restantes dependerá das condições climáticas e do avanço dos trabalhos nas próximas semanas.
Mesmo assim, o episódio acrescenta uma dificuldade a uma atividade que já enfrenta redução estrutural de área.
O excesso de umidade pode prejudicar as operações de campo e afetar a qualidade comercial das hortaliças. No caso da cebola, a conservação após a colheita também é importante, pois influencia o período de armazenamento e as condições de comercialização.
O problema ocorre em um ano de chuvas intensas no Paraná. O Deral também revisou para baixo as estimativas de outras culturas, especialmente os grãos de inverno, cuja produção total deve cair 28% em relação a 2025.
Preço alto não significa lucro maior
A valorização registrada nos supermercados poderia sugerir um cenário favorável para quem produz cebola. Mas a relação entre o preço pago pelo consumidor e a remuneração do agricultor não é direta.
Entre a propriedade rural e o comércio varejista existem etapas de classificação, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização. Cada uma delas possui custos e condições próprias de negociação.
Além disso, o agricultor não necessariamente vende sua produção no momento de maior valorização. O preço recebido depende da época da colheita, da qualidade do produto, da oferta disponível e dos contratos ou negociações realizados.
No início da safra paranaense, os próprios dados oficiais ainda não permitiam estabelecer uma referência consistente para os preços pagos aos produtores. Até o levantamento de 29 de outubro, apenas 3,6% do volume estadual previsto havia sido comercializado.
Isso significa que a alta de 261,2% registrada no atacado não pode ser interpretada como aumento equivalente na renda dos agricultores paranaenses.
A distinção é especialmente importante em uma cultura que perdeu espaço justamente por causa de períodos anteriores de baixa remuneração.
O comportamento dos preços também afeta o planejamento das próximas safras. Valores elevados podem estimular o retorno de produtores e a ampliação do plantio. Se esse movimento ocorrer simultaneamente em diferentes regiões, a oferta futura poderá crescer e pressionar novamente as cotações.
Trata-se de uma possibilidade de mercado, não de uma previsão confirmada para o próximo ciclo.
O desafio de permanecer na atividade
A trajetória da cebolicultura paranaense mostra que produzir mais por hectare não resolve, sozinho, o problema da rentabilidade agrícola.
Os ganhos tecnológicos foram expressivos, mas ocorreram ao mesmo tempo em que a área plantada encolheu. O resultado é um setor mais produtivo, porém instalado em uma superfície muito menor do que a ocupada oito anos atrás.
A redução também levanta questões sobre a permanência de pequenos e médios agricultores na atividade, a capacidade de investir em tecnologia e as alternativas de renda encontradas por quem deixou de plantar cebola.
Os dados disponíveis não permitem identificar quantas famílias abandonaram a cultura nem quantas propriedades passaram a produzir outros alimentos. Também não mostram se a retração foi mais intensa entre produtores de menor porte.
Essas informações são necessárias para compreender a dimensão social da mudança, para além dos indicadores de área e produtividade.
O fato é que a cebola continua sendo um produto de consumo cotidiano, mas sua produção depende de decisões tomadas meses antes da chegada aos supermercados. Quando os preços não remuneram adequadamente o investimento, a redução do plantio pode se tornar uma resposta econômica dos agricultores.
O efeito dessa decisão só aparece posteriormente, quando a oferta muda e os preços passam a refletir um novo equilíbrio de mercado.
Safra será decisiva
A colheita da cebola paranaense começou em outubro e a comercialização deverá se estender até o início do outono de 2027.
Nesse período, o desempenho das lavouras do Centro-Sul será determinante para confirmar ou revisar a previsão de 96,5 mil toneladas.
Também será possível avaliar se a valorização recente chegará efetivamente aos produtores e em que medida compensará os custos de produção e as perdas provocadas pelo clima.
O cenário reúne dois movimentos que parecem contraditórios, mas fazem parte da mesma dinâmica: o consumidor paga mais caro por um alimento básico enquanto o Estado cultiva menos da metade da área que destinava à hortaliça oito anos atrás.
Para o Paraná, o desafio não está apenas em recuperar a produção. Está em criar condições econômicas para que o agricultor encontre razões para continuar plantando, inclusive quando o mercado voltar a registrar preços menos favoráveis.
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