Morte no Paraná expõe onda de violência que marcou as eleições de 2026 no Brasil
Homem de 38 anos morreu após ser atropelado durante comemoração eleitoral em Mangueirinha; assassinatos, agressões e ameaças atravessaram a campanha e chegaram ao segundo turno
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A morte de um homem de 38 anos durante as comemorações do segundo turno das eleições presidenciais, no município de Mangueirinha, no Sudoeste do Paraná, acrescentou mais um episódio trágico a uma disputa eleitoral marcada por assassinatos, atentados, agressões e ameaças em diferentes regiões do Brasil. O caso ocorreu na noite de domingo (25), após um motorista embriagado avançar contra um bloqueio policial e atropelar quatro pessoas. A vítima morreu nesta segunda-feira (26), enquanto outras três pessoas ficaram feridas.
O atropelamento aconteceu durante as comemorações do resultado da eleição presidencial, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A ocorrência se soma a uma série de episódios violentos registrados na reta final da disputa contra Flávio Bolsonaro (PL), embora a motivação política do motorista ainda não tenha sido comprovada. Em diferentes estados, manifestações eleitorais terminaram em confrontos, ataques e mortes, enquanto investigações buscam esclarecer as circunstâncias de cada ocorrência.
A violência, entretanto, não começou no segundo turno. Levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política durante os 50 dias da campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro. Foram dois assassinatos, 11 atentados, 19 agressões físicas, 64 ameaças e 33 episódios de ofensas, além de outros registros. O número representa uma ocorrência a cada nove horas e supera os 121 episódios identificados no período equivalente das eleições de 2022.
Atropelamento em Mangueirinha
A vítima do atropelamento no Paraná foi identificada como Eliseu Pedrozo dos Santos, de 38 anos. Segundo a Polícia Militar, o episódio ocorreu por volta das 21h30 de domingo, quando agentes realizavam um bloqueio para controlar a concentração de pessoas que comemoravam o resultado da eleição no centro de Mangueirinha.
O motorista de um Jeep Compass preto avançou em direção à barreira policial. Os agentes dispararam contra os pneus para tentar impedir a passagem, mas o condutor conseguiu ultrapassar o bloqueio e atingiu quatro homens. Eliseu sofreu traumatismo craniano grave, recebeu os primeiros atendimentos e foi transferido para um hospital de Pato Branco, onde morreu nesta segunda-feira.
O motorista fugiu após o atropelamento, mas foi perseguido e preso pela Polícia Militar. O teste do bafômetro apontou 0,67 miligrama de álcool por litro de ar expelido, índice que caracteriza crime de trânsito. Segundo a Polícia Civil, ele foi inicialmente autuado por tentativa de homicídio e embriaguez ao volante. A investigação deverá esclarecer as circunstâncias do atropelamento, incluindo eventual intenção de atingir os participantes da comemoração.
Mortes e ataques na reta final
O fim de semana decisivo também foi marcado por mortes em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Em Bonito (MS), Ewerton Rodrigues da Silva, de 34 anos, morreu após ser baleado durante uma confusão registrada nas proximidades de uma carreata de apoio a Flávio Bolsonaro, na noite de sábado (24). Outro homem ficou ferido. Um adolescente de 16 anos foi apontado como suspeito dos disparos, após uma briga envolvendo seu pai e outros participantes.
Em Porto Esperidião (MT), Anderson Pires Bolandin, de 35 anos, e Sebastião Dusso Braga Neto, de 64, morreram após uma discussão seguida de agressões e disparos de arma de fogo em um posto de combustível. Outras duas pessoas ficaram feridas. Embora um dos envolvidos tenha mencionado divergências políticas, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso informou que os elementos policiais disponíveis não apontavam motivação político-partidária para o confronto.
Em Santos, no litoral paulista, o engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, teve a morte encefálica confirmada no domingo, depois de ser encontrado desacordado e com sinais de espancamento nas proximidades de uma atividade musical de apoio à reeleição de Lula. Familiares e pessoas próximas levantaram suspeitas de motivação política e homofóbica, mas a autoria e as circunstâncias da agressão ainda estavam sob investigação.
Em Vargem Alegre, Minas Gerais, Elisabete Martins Chaves, de 54 anos, morreu após ser atropelada na noite de sábado, enquanto aguardava uma carreata em apoio ao presidente reeleito. As circunstâncias do atropelamento também passaram a ser apuradas, sem confirmação de que o motorista tenha agido por divergência política.
Agressões contra eleitores e parlamentares
Além dos episódios fatais, manifestações políticas foram acompanhadas por denúncias de agressões em diferentes cidades. Em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, a vereadora Iara Pimentel (PT) foi atingida na cabeça por um objeto arremessado durante uma carreata de apoio a Lula. Ela precisou de atendimento médico, e uma criança também ficou ferida. A Polícia Federal passou a investigar o ataque.
Na capital paulista, uma mulher foi esfaqueada na mão no Terminal Rodoviário do Tietê, no domingo, após um homem proferir manifestações de apoio a Bolsonaro e ofensas contra um casal de mulheres lésbicas. Testemunhas apontaram possível motivação política e homofóbica.
Em Balneário Camboriú, Santa Catarina, vídeos divulgados nas redes sociais registraram agressões físicas e ofensas xenofóbicas contra apoiadores de Lula durante as comemorações do resultado eleitoral. Já em Curitiba, houve relato de destruição do veículo de uma apoiadora do PT durante uma manifestação bolsonarista na reta final da campanha.
No Rio de Janeiro, uma eleitora foi registrada fazendo uma saudação nazista e dirigindo ofensas a um homem judeu após sair de um local de votação. A ocorrência foi registrada como injúria por preconceito.
Os episódios apresentam circunstâncias distintas e não podem ser classificados indistintamente como crimes de motivação eleitoral. Em parte deles, a relação com a disputa política é investigada pelas autoridades; em outros, os ataques ocorreram diretamente durante manifestações e atos de campanha.
Campanha já acumulava assassinatos e ameaças
A sucessão de ocorrências no segundo turno ampliou a preocupação com um cenário de violência que já havia sido identificado durante toda a campanha. Segundo a pesquisa da Terra de Direitos e da Justiça Global, 134 episódios foram registrados entre 16 de agosto e 4 de outubro, incluindo dois assassinatos e 11 atentados.
As mulheres representaram 52,2% das vítimas, com 70 ocorrências. Entre os ataques direcionados a candidaturas, 60 atingiram mulheres, embora elas representassem aproximadamente um terço das pessoas que disputavam as eleições. O levantamento também identificou situações de misoginia, racismo e transfobia, indicando que a violência política atingiu de maneira desigual diferentes grupos sociais.
O histórico anterior à campanha já apontava uma tendência preocupante. Entre outubro de 2024 e agosto de 2026, as duas organizações haviam contabilizado 354 episódios de violência política, incluindo 11 assassinatos e 17 atentados. O Paraná aparecia entre os estados com maior número de ocorrências nesse período, com 31 registros, atrás apenas de São Paulo, que contabilizou 67.
Os dados revelam que a violência política ultrapassa os períodos de votação e também atinge o exercício de mandatos e cargos públicos, especialmente na esfera municipal.
Polícia Federal registra 86 ocorrências no segundo turno
O balanço divulgado pela Polícia Federal nesta segunda-feira aponta 86 registros relacionados a possíveis crimes eleitorais durante o segundo turno, com 74 pessoas conduzidas. Até a manhã de segunda-feira, haviam sido instaurados 13 inquéritos policiais e lavrados 64 termos circunstanciados, além de seis situações flagranciais ainda em análise.
Entre as ocorrências estão 38 registros de possível violação ou tentativa de violação do sigilo do voto, 24 de propaganda irregular, oito de desordem nos trabalhos eleitorais e seis de desobediência eleitoral. Os registros abrangem 21 unidades da Federação, incluindo o Paraná, com três ocorrências no levantamento da instituição.
Os números da Polícia Federal não correspondem exclusivamente a episódios de violência política e, portanto, não devem ser somados aos casos identificados pelas organizações de direitos humanos. Os levantamentos utilizam critérios e períodos diferentes.
A dimensão dos episódios registrados ao longo da campanha e no encerramento das eleições coloca em evidência um desafio que permanece mesmo depois da definição do resultado das urnas: assegurar que divergências políticas possam ser manifestadas sem ameaças, agressões ou intimidação. Enquanto as investigações buscam esclarecer responsabilidades, os casos mostram que o enfrentamento à violência política não se encerra com o calendário eleitoral.
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