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Sem lugar para os mortos: falta de vagas em cemitérios desafia cidades do Paraná

Às vésperas do Dia de Finados, municípios enfrentam esgotamento de jazigos, discutem ampliação de cemitérios e buscam alternativas para garantir sepultamentos; em Foz do Iguaçu, crise chegou à Justiça e deixou corpos aguardando enterro

Gazeta do Paraná · · 11 min de leitura
cemiterio jardim sp
cemiterio jardim sp — Crédito: Reprodução / Pref.Foz

Enquanto milhares de famílias se preparam para visitar os túmulos de parentes no Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2), municípios paranaenses enfrentam uma questão que vai além da manutenção e da conservação dos cemitérios: a falta de espaço para novos sepultamentos. Em diferentes regiões do estado, administrações municipais discutem a ampliação de áreas existentes, a construção de novos cemitérios, a implantação de jazigos verticais e a retomada de concessões abandonadas.

O problema, que durante décadas foi tratado principalmente como uma questão de planejamento urbano, já apresenta consequências concretas. Em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, a escassez de vagas chegou a impedir sepultamentos e levou o município a apresentar um plano emergencial à Justiça. Em Londrina, no Norte do estado, a administração municipal reconhece a necessidade de ampliar a capacidade de atendimento e estuda mudanças na legislação para permitir a construção de novos jazigos. Em cidades menores, como Palotina, a solução discutida passa pela implantação de outro cemitério.

O cenário evidencia um desafio permanente para os municípios: garantir espaço para os mortos em cidades que continuam crescendo. Diferentemente de outros equipamentos públicos, os cemitérios dependem de áreas com características específicas, precisam cumprir exigências ambientais e sanitárias e, em muitos casos, estão cercados por bairros que se expandiram ao longo das décadas.

Foz do Iguaçu: corpos aguardaram sepultamento

Uma das situações mais graves registradas no Paraná em 2026 ocorreu em Foz do Iguaçu. A falta de vagas nos cemitérios municipais provocou atrasos em sepultamentos e exigiu a adoção de medidas emergenciais para evitar o agravamento da crise.

Em setembro, a situação chegou à Justiça após a permanência de corpos em câmaras frias por falta de espaço para enterramento. Entre os casos relatados estava o de um homem de 62 anos, morto em 10 de agosto, que ainda aguardava sepultamento em 18 de setembro.

Diante do problema, a Prefeitura apresentou um plano emergencial que previa a abertura de 165 vagas em 30 dias. A medida buscava restabelecer a capacidade de atendimento enquanto o município discutia alternativas estruturais para o sistema funerário.

A crise, entretanto, não começou neste ano. Em maio, a administração municipal já havia reconhecido que a baixa disponibilidade de vagas era um problema antigo, com mais de uma década de duração. Na ocasião, a concessionária responsável pelos cemitérios alertou para o risco de esgotamento da capacidade de sepultamento.

Entre as possibilidades analisadas estava a ampliação do Cemitério Jardim São Paulo, em uma área contígua à estrutura existente. O investimento poderia ser realizado pela concessionária Camis, responsável pela administração dos cemitérios municipais, mediante eventual prorrogação contratual, ou diretamente pelo poder público.

O contrato da concessionária tem validade prevista até 2028. A empresa solicitou a antecipação da renovação, argumentando que a medida permitiria a realização de investimentos e a recuperação dos recursos aplicados. A Prefeitura, por sua vez, informou que avaliaria os custos e os aspectos jurídicos antes de tomar uma decisão.

A situação também levou à adoção de procedimentos para recuperação de espaços funerários, incluindo a revisão de concessões com pendências administrativas. Essas medidas, entretanto, dependem do cumprimento das regras municipais e dos procedimentos de notificação dos responsáveis.

Até o fechamento desta reportagem, não havia confirmação documental atualizada sobre a execução integral das 165 vagas previstas no plano emergencial apresentado em setembro.

Londrina: necessidade de 500 novas vagas por ano

Em Londrina, a falta de espaço nos cemitérios municipais também se tornou um problema recorrente. A cidade possui 13 cemitérios públicos, sendo cinco urbanos e oito distritais, administrados pela Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf).

A maior dificuldade está concentrada nas unidades urbanas, onde a disponibilidade de jazigos é reduzida. A administração municipal estima a necessidade de aproximadamente 500 novas vagas por ano para atender à demanda.

Em janeiro de 2026, a Acesf informou que trabalhava em um projeto para construir 800 jazigos verticais no Cemitério Jardim da Saudade. O investimento estimado variava entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão, com estruturas que poderiam alcançar seis gavetas de altura.

A proposta de verticalização busca ampliar a capacidade de sepultamento sem exigir a aquisição de grandes extensões de terreno. Em vez de ocupar uma área horizontal para cada sepultura, os jazigos são organizados em estruturas sobrepostas, permitindo maior aproveitamento do espaço disponível.

O município também discute mudanças nas regras de expansão dos cemitérios. O Projeto de Lei nº 312/2025, encaminhado à Câmara Municipal, propõe permitir a implantação de estruturas funerárias em áreas limítrofes aos cemitérios existentes, desde que sejam respeitadas as exigências urbanísticas e ambientais.

Segundo informações apresentadas durante a tramitação, os cemitérios São Paulo e João XXIII possuem áreas com potencial de ampliação. A estimativa divulgada pela Acesf é de que essas expansões possam resultar na construção de aproximadamente três mil a quatro mil jazigos verticais, ampliando a capacidade de atendimento por vários anos.

O planejamento plurianual de Londrina para o período de 2026 a 2029 também reconhece a carência de opções de jazigos e a necessidade de reorganizar os espaços funerários. O documento prevê o desenvolvimento de novos modelos e estruturas para garantir a continuidade do serviço.

A situação revela uma diferença importante entre a disponibilidade total de vagas e a localização dos cemitérios. Embora existam espaços nos distritos rurais, a procura se concentra nas unidades urbanas, próximas aos bairros onde vivem as famílias.

Palotina estuda construção de novo cemitério

Em Palotina, no Oeste do Paraná, a administração municipal iniciou estudos para a implantação de um novo cemitério diante da falta de espaço na unidade existente.

Em julho de 2026, a Prefeitura informou que realizava análises de solo para avaliar a viabilidade de uma nova área destinada a sepultamentos. O procedimento é uma das etapas necessárias para definir se o terreno apresenta condições adequadas à implantação do empreendimento.

A construção de cemitérios exige cuidados específicos relacionados ao solo, à profundidade do lençol freático, à drenagem e à proteção das águas subterrâneas. Por isso, a escolha de uma área não depende apenas de sua dimensão ou localização.

Além dos estudos ambientais, a implantação de um novo cemitério envolve planejamento urbanístico, licenciamento, infraestrutura de acesso e previsão orçamentária.

O caso de Palotina mostra que a escassez de vagas não se restringe aos maiores municípios paranaenses. Cidades de menor porte também precisam prever a expansão dos serviços funerários à medida que a população cresce e os espaços existentes atingem seus limites.

Cascavel discute cemitérios verticais e novas áreas

Em Cascavel, no Oeste do Paraná, a capacidade futura dos cemitérios municipais entrou na pauta da Câmara de Vereadores em 2026.

Duas indicações apresentadas pelo vereador Cidão da Telepar solicitaram ao Executivo estudos relacionados à ampliação da oferta de espaços para sepultamento.

A Indicação nº 1222/2026, protocolada em julho, propôs a realização de estudos para implantação de gavetas funerárias verticais nos cemitérios municipais. A proposta busca avaliar a possibilidade de aumentar a capacidade das estruturas existentes por meio de sepulturas sobrepostas.

Em setembro, o parlamentar apresentou a Indicação nº 1722/2026, solicitando estudos sobre a viabilidade de implantação de novos cemitérios no município.

As proposições não representam autorização para obras nem demonstram, isoladamente, que as vagas disponíveis tenham se esgotado. Elas indicam, entretanto, que a necessidade de planejamento para o futuro dos serviços funerários passou a integrar o debate legislativo municipal.

Outro aspecto da gestão dos cemitérios envolve a situação das concessões. Em 2025, a administração municipal retomou aproximadamente 50 jazigos cujas concessões não haviam sido renovadas e identificou cerca de 1.600 espaços sem manutenção ou identificação adequada.

A regularização dessas áreas pode contribuir para melhorar o aproveitamento da estrutura existente, mas depende dos procedimentos administrativos previstos na legislação e da preservação dos direitos dos responsáveis pelas sepulturas.

Maringá cobra informações sobre capacidade

Em Maringá, no Noroeste do Paraná, a capacidade do sistema funerário também foi objeto de questionamentos na Câmara Municipal.

Por meio do Requerimento nº 2010/2025, vereadores solicitaram informações sobre a quantidade de vagas disponíveis no Cemitério Municipal, o tempo estimado de funcionamento da estrutura com a capacidade atual e as medidas previstas pela Prefeitura para atender à demanda futura.

O pedido demonstra a preocupação com o planejamento do serviço, embora não permita concluir, por si só, que o município esteja enfrentando falta imediata de vagas.

A administração dos espaços funerários também envolve o acompanhamento das concessões e a identificação de sepulturas sem manutenção. Em outubro, informações divulgadas na imprensa local apontaram a intenção da Prefeitura de retomar mais de 500 sepulturas consideradas abandonadas após o Dia de Finados.

A medida exige procedimentos de identificação e notificação dos responsáveis, além do cumprimento das normas aplicáveis à destinação dos espaços e dos restos mortais.

Curitiba também discute destinação de restos mortais

Na capital paranaense, o debate sobre a capacidade dos cemitérios públicos envolve não apenas a disponibilidade de jazigos, mas também a organização dos ossuários e a destinação de restos mortais.

Em 2026, propostas de alteração das regras municipais buscaram enfrentar limitações relacionadas à capacidade de armazenamento e à utilização dos espaços existentes.

A discussão envolve procedimentos de exumação, transferência de restos mortais e utilização de ossuários, medidas que podem contribuir para a reorganização dos cemitérios, desde que observadas as exigências legais e sanitárias.

A capital apresenta ainda desafios relacionados à preservação de sepulturas históricas e monumentos funerários, especialmente em cemitérios antigos que também integram o patrimônio cultural da cidade.

Por que não basta construir novos cemitérios?

A ampliação dos espaços funerários envolve questões ambientais, urbanísticas e econômicas. A implantação de um cemitério precisa observar critérios relacionados à localização, às características do solo, à drenagem e à proteção dos recursos hídricos.

A Resolução nº 335/2003 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), com alterações posteriores, estabelece diretrizes para o licenciamento ambiental de cemitérios. Entre as preocupações estão os possíveis impactos sobre o solo e as águas subterrâneas.

O crescimento urbano também dificulta a escolha de novas áreas. Cemitérios construídos originalmente em regiões afastadas podem acabar cercados por bairros residenciais, estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos, limitando suas possibilidades de expansão.

A aquisição de terrenos, a instalação de infraestrutura e a manutenção permanente dos espaços representam custos adicionais para os municípios.

Por outro lado, a verticalização, a reorganização de jazigos e a utilização de ossuários também exigem investimentos, fiscalização e adequação às normas sanitárias e ambientais.

Não existe uma solução única para todos os municípios. A escolha depende da demanda por sepultamentos, da disponibilidade de terrenos, das características da cidade e das condições financeiras da administração pública.

O direito ao sepultamento

A escassez de vagas também apresenta uma dimensão social. Para famílias de baixa renda, a disponibilidade de sepultamentos públicos e de assistência funerária pode determinar as condições em que será realizada a despedida de um familiar.

Em Londrina, por exemplo, a administração municipal já informou que utiliza alternativas de atendimento nos cemitérios distritais e mantém mecanismos para garantir sepultamentos de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

A legislação municipal define as condições de concessão dos jazigos, que podem ser temporárias ou perpétuas, conforme as regras aplicáveis. Em muitos casos, o espaço funerário não é vendido como propriedade privada, mas concedido para utilização mediante determinadas condições.

Quando uma concessão chega ao fim ou deixa de cumprir os requisitos legais, a administração pode adotar procedimentos de regularização e eventual retomada, observando a necessidade de notificação e os direitos dos familiares.

A questão ultrapassa, portanto, o simples cálculo de quantos túmulos cabem em determinado terreno. Envolve acesso a serviços públicos, planejamento de longo prazo e respeito aos rituais de despedida.

Um problema que continuará depois de Finados

Nesta segunda-feira, milhares de paranaenses devem visitar os cemitérios para prestar homenagens a familiares e amigos. Em Londrina, a expectativa é de aproximadamente 150 mil visitantes nos 13 cemitérios municipais. Em Foz do Iguaçu, mais de 40 mil pessoas são esperadas nas cinco unidades da cidade.

O movimento do feriado evidencia a importância desses espaços na vida das comunidades. Mas, quando as visitas terminarem, permanecerá um desafio que não se restringe ao Dia de Finados: garantir que os municípios tenham condições de receber novos sepultamentos nos próximos anos.

Os casos de Foz do Iguaçu, Londrina, Palotina, Cascavel, Maringá e Curitiba mostram diferentes estágios de uma mesma discussão. Enquanto algumas cidades enfrentam situações emergenciais, outras buscam antecipar soluções para evitar o esgotamento de suas estruturas.

Entre novos terrenos, jazigos verticais, reorganização de concessões e ampliação de cemitérios existentes, o planejamento funerário passa a integrar as decisões sobre o crescimento urbano.

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