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O que o Museu de Marechal Cândido Rondon não conta? Pesquisa da Unioeste revela silêncios da história

Entre retratos de pioneiros, ferramentas agrícolas e vestígios indígenas, dissertação mostra como o Museu Padre José Gaertner construiu uma narrativa sobre a colonização e deixou outras experiências em segundo plano. Estudo também identifica problemas na conservação do patrimônio

Gazeta do Paraná · · 12 min de leitura
Fachada do Museu Histórico Padre José Gaertner, em Porto Mendes, Marechal Cândido Rondon
Fachada do Museu Histórico Padre José Gaertner, em Porto Mendes, Marechal Cândido Rondon — Crédito: Divulgação

Do lado de fora, uma antiga caldeira industrial a vapor enfrenta o tempo. Exposta a céu aberto, sobre pedriscos, a peça de ferro apresenta ferrugem, desgaste e sinais de oxidação. Dentro do prédio, fotografias em preto e branco de prefeitos e pioneiros dividem espaço com utensílios domésticos, ferramentas agrícolas e objetos que sobreviveram às transformações do Oeste paranaense. Nas vitrines, fragmentos de cerâmica e instrumentos de pedra testemunham uma presença humana anterior à formação do município.

Tudo isso está no Museu Histórico Padre José Gaertner, no distrito de Porto Mendes, a cerca de 35 quilômetros do centro de Marechal Cândido Rondon. Mas, para a historiadora Ariane Costa Hollmann, há algo tão importante quanto os objetos preservados: as histórias que eles contam e aquelas que permanecem sem explicação.

Em uma dissertação defendida em 2026 no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), a pesquisadora examinou como o museu participou da construção da memória oficial de Marechal Cândido Rondon. Sua investigação encontrou uma instituição marcada pela valorização da colonização, do trabalho e do progresso, mas também por diferenças na maneira como homens, mulheres, indígenas e outros grupos aparecem na narrativa histórica.

O trabalho, orientado pelo professor Marcos Nestor Stein, recebeu um título que resume sua principal inquietação: “Lugares de memória, espelhos de poder: o Museu Padre José Gaertner e a institucionalização de narrativas identitárias em Marechal Cândido Rondon (PR)”.

A questão não é saber se os objetos são verdadeiros ou se os pioneiros merecem ser lembrados. É compreender por que determinadas experiências ganharam lugar de destaque na história pública da cidade, enquanto outras foram reduzidas a poucas peças, categorias genéricas ou referências secundárias.

Uma história em três setores

Fundado em 1981 e inaugurado oficialmente em 10 de junho de 1984, o Museu Padre José Gaertner reúne aproximadamente 1.800 peças. Segundo a classificação institucional examinada pela pesquisadora, o acervo está organizado em três grandes setores: Indígena, Porto Mendes Gonçalves e Colonização.

A divisão parece apenas uma maneira prática de organizar objetos. Na interpretação de Hollmann, porém, ela também estabelece uma forma de apresentar o passado. Ao separar os materiais em conjuntos e conduzir o visitante por determinados ambientes, o museu sugere relações entre diferentes períodos, atividades e personagens da história local.

Na entrada, pequenas peças do cotidiano dividem espaço com fotografias de homens associados à administração pública e à colonização. Em outro ambiente, aparecem arados, enxadas, foices, cangas, selas e arreios. Há ainda salas com equipamentos de comunicação e administração, incluindo máquinas de calcular, registradoras e computadores antigos.

A pesquisadora observa que a disposição desses conjuntos pode sugerir uma sequência histórica: dos vestígios indígenas à colonização, do trabalho rural às tecnologias consideradas mais modernas. O problema, segundo a análise, está na falta de contextualização suficiente para explicar as relações entre esses momentos.

Os objetos estão presentes, mas nem sempre acompanhados das informações necessárias para que o visitante compreenda quem os utilizou, em quais circunstâncias e como se relacionam com a história da região.

O indígena na vitrine, o pioneiro na parede

Uma das passagens mais reveladoras da dissertação está na descrição do setor indígena.

Ali, fragmentos de vasilhames, lâminas de machado, pilões e outros vestígios arqueológicos aparecem em vitrines de vidro, acompanhados por pequenas etiquetas brancas. Segundo a pesquisadora, não havia naquele espaço painéis maiores que oferecessem contextualização histórica, cronológica ou etnográfica.

A localização das peças também chamou sua atenção. As vitrines com materiais indígenas ficam próximas de retratos de prefeitos e pioneiros afixados nas paredes.

Essa disposição, argumenta Hollmann, produz uma diferença na maneira como os personagens são apresentados. Enquanto os homens associados à administração municipal e à colonização aparecem individualizados em fotografias, a presença indígena é reunida sob uma classificação ampla, sem o mesmo nível de identificação histórica.

O estudo não afirma que os indígenas estejam ausentes do museu. Ao contrário, existe um setor dedicado a seus vestígios materiais. A crítica está na maneira como essa presença é apresentada, com poucas informações sobre as populações representadas, suas trajetórias e sua participação na história regional.

Para a pesquisadora, a categoria genérica “Indígena” pode reforçar a impressão de que essas populações pertencem apenas a um passado distante, anterior à história dos colonizadores, dificultando a compreensão de continuidades e conflitos históricos.

A diferença é significativa. Preservar um objeto indígena não equivale, necessariamente, a contar a história dos povos que o produziram.

Um objeto por família

A escolha do que deveria ser lembrado começou muito antes de as peças ocuparem as vitrines.

Em 27 de abril de 1972, a Prefeitura criou, pela Lei Municipal nº 805, a Comissão da História do Município. Sua finalidade inicial era organizar uma monografia histórica sobre Marechal Cândido Rondon. Com o tempo, as atividades passaram a incluir entrevistas, fotografias, gravações e recolhimento de objetos e documentos.

A dissertação recupera uma campanha de 1976 na qual a comissão solicitava a colaboração das famílias para formar o acervo histórico. O apelo propunha a doação de “um objeto por família”.

Havia, entretanto, critérios sobre o que merecia ser recolhido. A comissão advertia que não pretendia formar “um acervo de sucatas e ferro velho” e defendia a seleção de peças que tivessem “condição de ser exposta para outros a admirarem”.

O documento também indicava a intenção de demonstrar que os primeiros habitantes reconhecidos naquela narrativa eram pessoas “relativamente cultas”.

Essas expressões, recuperadas por Hollmann, revelam como a formação do acervo estava associada a uma determinada imagem que se desejava transmitir sobre a cidade.

Não se tratava apenas de recolher vestígios do passado, mas de selecionar objetos capazes de representar uma comunidade trabalhadora, respeitável e vinculada a ideais de progresso.

Na análise da historiadora, esse tipo de seleção favorecia determinadas experiências e tornava mais difícil a representação de trajetórias marcadas por pobreza, conflitos, desigualdades ou violência.

A história oficial, nesse sentido, começava a ser construída antes mesmo da abertura do museu.

As mulheres que aparecem sem nome

Entre os objetos preservados pelo Museu Padre José Gaertner estão ferros de passar roupa, máquinas de costura, uma máquina de lavar, chaleiras, xícaras e outros utensílios relacionados à vida doméstica.

Essas peças testemunham atividades essenciais para a manutenção das famílias e das comunidades. Mas, segundo a pesquisa, sua presença não significa que a história das mulheres esteja devidamente contada.

Ariane Hollmann observa que os objetos associados ao trabalho doméstico aparecem frequentemente reunidos por sua função, sem informações suficientes sobre as pessoas que os utilizaram ou sobre as relações sociais envolvidas nessas atividades.

Enquanto ferramentas agrícolas e maquinários ajudam a construir a narrativa do trabalho produtivo e da colonização, os utensílios da casa tendem a permanecer vinculados a uma ideia naturalizada do cotidiano feminino.

A diferença não está na importância dos objetos, mas na maneira como são interpretados.

Uma máquina de costura pode contar uma história sobre trabalho, renda, aprendizagem e participação econômica. Um ferro de passar pode ajudar a compreender a divisão das tarefas domésticas e as condições de vida de determinada época. Sem contextualização, entretanto, essas possibilidades ficam reduzidas à identificação do objeto.

A dissertação identifica ainda outra contradição: mulheres desempenharam funções importantes na própria preservação da memória municipal, mas esse trabalho nem sempre se converteu em reconhecimento histórico equivalente.

É nesse ponto que a investigação apresenta uma personagem fundamental.

A mulher que encontrou as peças amontoadas

Venilda Saatkamp participou de iniciativas relacionadas à organização do acervo histórico de Marechal Cândido Rondon. Em entrevista concedida à pesquisadora em 2024, recordou o trabalho necessário para transformar materiais já recolhidos em peças organizadas e disponíveis à visitação.

Segundo seu relato, os objetos estavam guardados, sujos e sem o tratamento necessário para exposição. Foi preciso recuperar, catalogar, registrar e organizar o material.

“Então, nós catalogamos tudo, nós registramos e construímos uma estrutura básica”, contou Saatkamp na entrevista reproduzida pela dissertação.

A narrativa revela uma dimensão pouco visível do funcionamento dos museus. Entre a chegada de um objeto antigo e sua exposição ao público existe uma sequência de tarefas: limpeza, identificação, registro, conservação e organização.

Saatkamp relatou também a preocupação em disponibilizar o material à população e às escolas. O trabalho não consistia apenas em guardar peças, mas em criar condições para que elas fossem conhecidas e utilizadas em atividades educativas.

Hollmann analisa esse depoimento em conjunto com documentos administrativos, distinguindo a memória pessoal da entrevistada das informações que podem ser confirmadas por outras fontes.

A pesquisa também recupera escritos atribuídos a Neina Celli Soder, encontrados entre os documentos do museu na Secretaria Municipal de Cultura. O material, sem data ou assinatura, registra dificuldades na preservação dos objetos e menciona a perda de informações sobre sua procedência.

A historiadora trata esse documento com cautela justamente por suas limitações de identificação. Ainda assim, sua análise permite compreender a importância do trabalho realizado nos bastidores para preservar os vestígios da história local.

A contradição identificada no estudo é que mulheres participaram da organização e da manutenção da memória pública, enquanto a narrativa sobre a formação do município continuou atribuindo maior protagonismo a personagens masculinos.

O passado ameaçado pelos cupins

A investigação não se limitou ao conteúdo das exposições. Também examinou as condições materiais do Museu Padre José Gaertner.

Em uma das salas, dedicada a equipamentos de tecnologia e administração, a pesquisadora identificou uma diferença entre as imagens divulgadas na visita virtual e as condições encontradas durante o período de observação.

Embora o ambiente aparecesse na apresentação virtual como um espaço preservado e visitável, estava interditado em razão de danos provocados por cupins.

Segundo a descrição da dissertação, o piso de madeira apresentava buracos e estava em processo de deterioração. As paredes também exibiam sinais da infestação.

A constatação é especialmente relevante porque a conservação do edifício está diretamente relacionada à proteção dos objetos históricos. Quando um ambiente sofre danos estruturais, não é apenas o espaço físico que fica comprometido: a preservação e o acesso ao patrimônio também podem ser afetados.

O estudo aponta dificuldades de organização, documentação e conservação em diferentes momentos da trajetória do museu. Registros administrativos antigos já mencionavam a necessidade de catalogação, identificação e cuidados técnicos com o acervo.

Um dos problemas destacados é a perda da própria história dos objetos. Quando não há informações sobre procedência, data, doação ou utilização, uma peça pode continuar fisicamente preservada, mas perder parte de sua capacidade de servir como documento histórico.

A dissertação não atribui essas dificuldades às pessoas encarregadas da manutenção cotidiana. Ao contrário, reconhece os esforços de trabalhadores e agentes culturais que participaram da preservação do patrimônio, muitas vezes em condições limitadas.

A crítica está na ausência de continuidade e estruturação suficientes para transformar o reconhecimento simbólico do museu em uma política pública permanente.

As condições descritas correspondem ao período investigado por Hollmann e não permitem afirmar, sem uma verificação atualizada, que os mesmos problemas permaneçam inalterados em novembro de 2026.

O museu e o poder de escolher

Há um detalhe na história do Museu Padre José Gaertner que também despertou a atenção da pesquisadora.

A Lei Municipal nº 1.439, de 17 de março de 1983, estabeleceu que o museu histórico de Porto Mendes passaria a receber o nome do padre José Gaertner. O documento, entretanto, não apresentou uma justificativa formal para a escolha.

Para Hollmann, essa ausência é relevante porque demonstra como determinadas figuras podem ser incorporadas à memória pública sem que os critérios de homenagem estejam plenamente explicitados nos registros oficiais.

A mesma questão atravessa toda a dissertação. Quem recebe uma homenagem? Quem aparece em uma fotografia? Quais objetos ganham espaço nas vitrines? Que experiências são explicadas e quais permanecem sem contexto?

As respostas, argumenta a pesquisadora, não dependem apenas dos acontecimentos do passado. Elas também refletem decisões tomadas pelas instituições responsáveis por preservá-lo.

Ao examinar a trajetória do museu, Hollmann conclui que a memória municipal foi organizada em torno de referências como colonização, modernização agrícola, progresso e pertencimento cultural, com destaque para a germanidade.

Isso não significa negar a importância dessas experiências na formação de Marechal Cândido Rondon. A pesquisa propõe ampliar a compreensão histórica para reconhecer também sujeitos e acontecimentos que receberam menor visibilidade.

O que ainda pode ser contado

Nas considerações finais, Ariane Hollmann reconhece a importância das iniciativas que permitiram reunir e preservar o acervo do Museu Padre José Gaertner. Sua análise não propõe abandonar as histórias já representadas, mas examinar criticamente como elas foram selecionadas, organizadas e transformadas em referências públicas.

A pesquisadora também aponta a necessidade de condições institucionais que garantam a continuidade da conservação, da documentação e da mediação educativa.

O desafio não está apenas em proteger objetos antigos da deterioração. Está em preservar as informações que permitem compreender a vida das pessoas relacionadas a eles.

Os vestígios indígenas, as fotografias dos pioneiros, os instrumentos agrícolas, as máquinas de costura e os documentos administrativos fazem parte do patrimônio reunido em Porto Mendes. Mas cada conjunto oferece possibilidades diferentes de interpretação, dependendo das perguntas feitas e das informações disponíveis.

A dissertação demonstra que um museu pode conservar peças de diferentes grupos sociais e, ainda assim, apresentar uma narrativa histórica marcada por desigualdades de reconhecimento.

No Museu Padre José Gaertner, os objetos preservados ajudam a contar a formação de Marechal Cândido Rondon. A pesquisa da Unioeste mostra que também é possível investigar a história daquilo que não recebeu a mesma atenção.

Porque, às vezes, o silêncio de um museu não está na ausência de objetos. Está nas histórias que permanecem sem ser contadas.

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