Três focos da doença de Newcastle em Santa Catarina colocam avicultura do Paraná em alerta
Adapar reforça fiscalização nas divisas e monitoramento de granjas após novos casos no Oeste catarinense; maior produtor de frangos do Brasil, Paraná ainda não registra a doença nos levantamentos oficiais
A confirmação de três focos da doença de Newcastle no Oeste de Santa Catarina levou o Paraná a intensificar a fiscalização do transporte de aves e o monitoramento sanitário das granjas para evitar a entrada do vírus no Estado. A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) reforçou as ações nas divisas e mobilizou equipes para acompanhar a situação dos plantéis, especialmente diante da proximidade geográfica entre as áreas atingidas e importantes polos da produção avícola paranaense. Até a atualização oficial consultada, os resultados laboratoriais dos programas de vigilância não indicavam a presença da doença no Paraná.
O alerta ganhou força depois que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou, em 27 de outubro, o terceiro foco da enfermidade em Santa Catarina, desta vez no município de Nova Erechim. A ocorrência foi identificada dentro da área de emergência sanitária estabelecida após os primeiros casos, registrados em Nova Itaberaba e Coronel Freitas. Os três municípios estão localizados no Oeste catarinense, região próxima ao Sudoeste do Paraná e integrada a uma das principais cadeias de produção de proteína animal do país.
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres. Dependendo da variante do vírus e das condições sanitárias dos plantéis, pode provocar problemas respiratórios, alterações neurológicas, queda na produção e mortalidade elevada. Por esse motivo, sua identificação em estabelecimentos comerciais exige medidas de controle previstas nos protocolos nacionais e internacionais de defesa agropecuária.
O Paraná tem participação estratégica nesse mercado. Segundo a Adapar, o Estado responde por aproximadamente 35% da produção brasileira de carne de frango. Em 2025, foram produzidas cerca de 5 milhões de toneladas, das quais 2,05 milhões foram exportadas, movimentando US$ 3,53 bilhões. A produção paranaense chegou a 150 mercados internacionais, incluindo China, Japão, México, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Três focos em dez dias
O primeiro foco da doença em Santa Catarina foi confirmado em 18 de outubro, em uma propriedade comercial de criação de perus para corte no município de Nova Itaberaba. A confirmação ocorreu após investigação epidemiológica realizada pelo Serviço Veterinário Oficial catarinense e análise de amostras pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo.
O estabelecimento, que abrigava aproximadamente 6 mil perus, foi interditado, e a movimentação das aves foi suspensa. O Ministério da Agricultura determinou a adoção dos procedimentos previstos para a eliminação do foco, incluindo o despovoamento sanitário, a limpeza e a desinfecção das instalações.
No dia seguinte à confirmação, o governo federal publicou a Portaria Mapa nº 962/2026, declarando estado de emergência zoossanitária por 60 dias nos municípios de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim.
A medida estabeleceu uma área de vigilância reforçada, com acompanhamento de propriedades, investigação de suspeitas e controle da circulação de animais e materiais sujeitos às exigências sanitárias.
Em 24 de outubro, um segundo foco foi confirmado em Coronel Freitas. A ocorrência foi identificada durante as ações de vigilância intensificada dentro da área de restrição já estabelecida. Como a propriedade estava próxima ao primeiro estabelecimento atingido, houve apenas um pequeno ajuste no perímetro de monitoramento.
Três dias depois, em 27 de outubro, o Ministério da Agricultura confirmou um terceiro foco, em Nova Erechim. A identificação também ocorreu dentro da área de emergência sanitária, durante os trabalhos de fiscalização e acompanhamento epidemiológico.
Segundo o Mapa, as medidas sanitárias já haviam sido concluídas na propriedade inicialmente atingida, em Nova Itaberaba, que entrou em período de vazio sanitário. Em Coronel Freitas, o despovoamento das aves também havia sido concluído, enquanto os procedimentos de limpeza e desinfecção permaneciam em andamento.
Em Nova Erechim, o Serviço Veterinário Oficial iniciou os protocolos de investigação, vigilância e contenção previstos para esse tipo de ocorrência.
A confirmação sucessiva dos focos demonstra a importância do monitoramento das propriedades localizadas na área de emergência, mas não significa, necessariamente, que o vírus esteja se disseminando para fora do perímetro estabelecido pelas autoridades sanitárias.
Fiscalização nas divisas do Paraná
Diante das ocorrências em Santa Catarina, a Adapar intensificou a fiscalização do trânsito de aves vivas, especialmente frangos e perus, nos postos fixos das divisas estaduais e em operações volantes realizadas no interior do Paraná.
Os fiscais verificam a documentação sanitária das cargas, a origem e o destino dos animais transportados e o cumprimento das exigências previstas para o deslocamento de aves entre propriedades e estabelecimentos comerciais.
Também são observadas as condições de limpeza e desinfecção dos veículos, uma vez que o transporte de animais, equipamentos e materiais pode representar uma via de disseminação de agentes infecciosos quando não são respeitados os procedimentos de biosseguridade.
Equipes do Serviço Veterinário Oficial permanecem mobilizadas para realizar inspeções em propriedades, acompanhar as condições sanitárias dos plantéis e investigar imediatamente qualquer suspeita de enfermidade.
No Sudoeste do Paraná, região próxima aos municípios catarinenses atingidos, as medidas incluem barreiras sanitárias e operações de fiscalização nas estradas. Em Francisco Beltrão, a chefia regional da Adapar informou que os trabalhos contam também com apoio da Polícia Militar.
A preocupação é evitar que o vírus alcance propriedades comerciais ou criações de subsistência, especialmente em regiões onde há intensa movimentação de animais, veículos e trabalhadores ligados à atividade avícola.
O reforço da vigilância não significa que tenha sido identificado um foco da doença em território paranaense. Trata-se de uma ação preventiva diante das ocorrências confirmadas no estado vizinho.
Monitoramento alcança centenas de propriedades
O Paraná mantém um programa permanente de vigilância epidemiológica voltado à doença de Newcastle e à influenza aviária de alta patogenicidade, com inspeções, coletas de amostras e investigações de suspeitas.
Segundo os dados divulgados pela Adapar, no ciclo de monitoramento de 2024/2025 foram acompanhadas 434 propriedades em 195 municípios, com participação de 120 fiscais de defesa agropecuária.
No ciclo seguinte, de 2025/2026, o número de propriedades monitoradas aumentou para 487, distribuídas em 186 municípios. As atividades envolveram 141 fiscais vinculados a 105 escritórios locais da agência.
Para o ciclo 2026/2027, a previsão é monitorar 476 propriedades em 172 municípios, com participação estimada de 143 fiscais.
Todos os resultados laboratoriais dos dois ciclos concluídos foram negativos para doença de Newcastle e influenza aviária de alta patogenicidade.
Além da vigilância programada, a agência mantém investigações a partir de notificações de produtores e responsáveis técnicos. Em 2025, foram conduzidas 112 investigações de suspeitas, todas com resultados negativos para as duas enfermidades.
Em 2026, até a data de referência do levantamento divulgado pela Adapar, haviam sido realizadas nove investigações, também sem resultados positivos.
O chefe do Departamento de Saúde Animal da agência, Rafael Gonçalves Dias, destacou que a fiscalização permanente é necessária tanto para proteger a produção quanto para preservar a confiança dos mercados compradores.
“Tendo em vista que o Paraná é o maior produtor e exportador de carne de frango do Brasil, sendo responsável por aproximadamente 35% da produção nacional, faz-se necessária a atuação contínua da Adapar na proteção dos nossos plantéis”, afirmou.
O médico veterinário também ressaltou que o trabalho de orientação aos produtores e fiscalização das propriedades e divisas contribui para atender às exigências sanitárias dos mercados internacionais.
Exportações sob atenção
A confirmação da doença de Newcastle em estabelecimentos comerciais de Santa Catarina também colocou o comércio internacional de carne de aves sob acompanhamento das autoridades sanitárias.
O Ministério da Agricultura notificou oficialmente as ocorrências à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e comunicou os fatos aos países parceiros comerciais, conforme os compromissos internacionais de transparência sanitária.
Eventuais restrições às exportações dependem das regras e dos acordos sanitários estabelecidos com cada mercado importador.
A ocorrência de focos em uma região não significa, automaticamente, a suspensão de todas as exportações brasileiras. As decisões podem considerar a localização das propriedades atingidas, as medidas de controle adotadas e os critérios de regionalização previstos nos acordos comerciais.
Para o Paraná, a preservação da condição sanitária dos plantéis é especialmente importante devido ao volume de produção e à dependência de mercados internacionais.
Em 2025, as exportações paranaenses de carne de frango movimentaram US$ 3,53 bilhões, segundo a Adapar. Uma eventual alteração nas condições de acesso aos mercados compradores pode produzir efeitos sobre frigoríficos, cooperativas, produtores integrados e trabalhadores da cadeia avícola.
Até o momento, os levantamentos oficiais consultados não apontam a presença da doença de Newcastle no Paraná.
Cuidados dentro dos aviários
A Adapar orienta produtores, responsáveis técnicos e empresas avícolas a reforçarem imediatamente os procedimentos de biosseguridade, mesmo em propriedades onde não existem suspeitas da doença.
Entre as principais recomendações estão a manutenção das instalações em boas condições, com telas íntegras, ausência de frestas e portões fechados, inclusive durante os intervalos sanitários entre os lotes.
O acesso de pessoas e veículos deve ser restrito às atividades essenciais, com controle de entrada e saída. Trabalhadores e visitantes autorizados precisam cumprir os procedimentos de higienização, incluindo troca de roupas e utilização de calçados e uniformes exclusivos para as instalações.
A agência também recomenda atenção aos sistemas de limpeza e desinfecção, controle de roedores e qualidade da água fornecida às aves.
Outro cuidado importante é impedir o contato dos plantéis comerciais com aves silvestres e animais que circulam livremente nas proximidades das propriedades, especialmente pombos.
A orientação está relacionada à possibilidade de circulação de agentes infecciosos entre diferentes populações de aves.
Durante as investigações em Santa Catarina, o Serviço Veterinário Oficial também confirmou a presença do paramixovírus aviário tipo 1 em pombos encontrados fora da área de emergência sanitária.
Segundo o Ministério da Agricultura, a detecção não possui relação epidemiológica com os focos registrados em aves comerciais e, conforme os critérios da Organização Mundial de Saúde Animal, não configura um foco de doença de Newcastle.
Os produtores devem observar diariamente o comportamento dos animais, o consumo de água e ração e a ocorrência de sinais respiratórios, neurológicos ou aumento inesperado da mortalidade.
Qualquer suspeita deve ser comunicada imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial, para que sejam realizadas as investigações e adotadas as medidas sanitárias necessárias.
Consumo de carne permanece seguro
Apesar das ocorrências confirmadas em Santa Catarina, o Ministério da Agricultura reforça que não há contraindicação ao consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial.
As medidas adotadas nas propriedades atingidas têm como objetivo interromper a circulação do vírus e impedir sua disseminação para outros estabelecimentos.
A doença de Newcastle representa principalmente um risco sanitário e econômico para a avicultura, devido à possibilidade de mortalidade das aves, interrupção das atividades produtivas e adoção de medidas obrigatórias de controle.
Para o Paraná, o cenário exige atenção especial à circulação de animais e às condições de biosseguridade das granjas, sobretudo nas regiões que mantêm relações comerciais e logísticas com o Oeste catarinense.
A Adapar informou que continuará realizando ações de fiscalização e monitoramento, em articulação com o Ministério da Agricultura, para prevenir a entrada da doença e preservar a condição sanitária da produção estadual.
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