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Fé em disputa: Lula e Flávio levam religião ao segundo turno enquanto intolerância cresce no Brasil

No Dia de Nossa Senhora Aparecida, presidenciáveis participam de missas e retomam controvérsia sobre a padroeira; CNBB nega envolvimento em fake news, e dados oficiais revelam aumento de denúncias de intolerância religiosa

Ana Zimermann · · 10 min de leitura
Lula participou de missa na capela do Palácio da Alvorada, enquanto Flávio Bolsonaro acompanhou celebração na Catedral Metropolitana de Brasília, no Dia de Nossa Senhora Aparecida.
Lula participou de missa na capela do Palácio da Alvorada, enquanto Flávio Bolsonaro acompanhou celebração na Catedral Metropolitana de Brasília, no Dia de Nossa Senhora Aparecida. — Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil; Charles Vieira/Campanha de Flávio Bolsonaro

A religião ganhou protagonismo na campanha presidencial de 2026 e chegou ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira (12), como um dos temas de confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto os dois candidatos participaram de celebrações católicas em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) esteve no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, em meio à repercussão de informações falsas, acusações envolvendo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e discussões sobre os limites da utilização da fé na política.

Os acontecimentos se somam a um cenário mais amplo de violações à liberdade religiosa. Somente no primeiro semestre deste ano, o Disque Direitos Humanos registrou 1.252 denúncias relacionadas à liberdade de crença ou intolerância religiosa. Os números incluem diferentes formas de discriminação e não podem ser atribuídos, em sua totalidade, à disputa eleitoral. A combinação entre símbolos religiosos, propaganda política e desinformação levanta uma questão que vai além da escolha presidencial: quando a manifestação legítima de fé passa a ser utilizada como instrumento de confronto político e quais são os limites impostos pela legislação brasileira?

Lula celebra missa no Alvorada e fala em respeito entre religiões

O presidente Lula participou, nesta segunda-feira (12), de uma missa na Capela Nossa Senhora da Alvorada, localizada no complexo da residência oficial da Presidência da República, em Brasília. A celebração foi conduzida pelo padre jesuíta Álvaro Pimentel e contou com a presença de crianças e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Após a cerimônia, Lula declarou que Nossa Senhora Aparecida estaria sendo desrespeitada por determinados religiosos e defendeu a convivência entre diferentes crenças. "Ninguém é obrigado a ser da mesma religião", afirmou o presidente, ao defender que cada cidadão tenha liberdade para exercer sua fé.

O petista também associou a celebração ao tema da moradia, presente nas reflexões da Igreja Católica neste ano, e abordou ações de seu governo na área habitacional, incluindo o programa Minha Casa, Minha Vida. A participação em uma cerimônia religiosa na residência oficial e as declarações posteriores ocorreram durante a campanha presidencial. Isso, por si só, não caracteriza uma irregularidade eleitoral, cuja eventual configuração depende das circunstâncias e do conteúdo dos atos.

Flávio Bolsonaro participa de missa na Catedral de Brasília após controvérsia

Também nesta segunda-feira, o candidato Flávio Bolsonaro participou de uma missa em homenagem à padroeira do Brasil na Catedral Metropolitana de Brasília. O senador, que é evangélico, esteve acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, do candidato a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL-AL), da conselheira econômica Daniella Marques e de parlamentares aliados. A deputada Simone Marquetto (PP-SP) participou da entrada da imagem de Nossa Senhora Aparecida durante a cerimônia. Flávio e seus acompanhantes ficaram em uma área reservada próxima ao altar, e integrantes do grupo foram saudados pelo celebrante.

A presença do candidato ocorreu após semanas de controvérsia envolvendo a afirmação de que ele pretenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito. A campanha negou a existência de qualquer proposta nesse sentido. O próprio senador classificou a informação como uma das principais notícias falsas divulgadas contra sua candidatura. A discussão teve origem na repercussão de uma declaração anterior de Flávio, na qual prometeu decretar, caso eleito, que o Brasil pertence a Jesus Cristo. Sua campanha afirmou, posteriormente, que a medida teria caráter simbólico.

Não foi identificada proposta atual de Flávio Bolsonaro para retirar o título da santa. A alegação que circulou nas redes sociais recuperou uma iniciativa legislativa apresentada em 2007 por outro parlamentar e arquivada no ano seguinte. Durante a visita à Catedral, Flávio também comentou a autorização para visitar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, anunciando que pretendia encontrá-lo nesta terça-feira (13).

CNBB rejeita acusação de participação em fake news

A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida atingiu diretamente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. No fim de setembro, Flávio Bolsonaro afirmou que pessoas ligadas à CNBB teriam colaborado para disseminar a informação de que ele pretendia retirar o título da padroeira. A acusação não foi acompanhada de provas públicas que demonstrassem a participação da instituição. Em resposta, a CNBB divulgou, em 27 de setembro, uma nota oficial de esclarecimento negando qualquer envolvimento na elaboração ou circulação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. No documento, a entidade afirmou: "A CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral."

A Conferência também declarou que não integra estruturas partidárias nem participa institucionalmente de campanhas eleitorais. Segundo a nota, seus posicionamentos públicos sobre eleições decorrem de princípios relacionados à dignidade humana, à democracia, ao bem comum e à liberdade de consciência. A entidade ainda considerou injusta a atribuição de participação em redes de desinformação sem a apresentação de fatos e provas. A manifestação terminou reafirmando o compromisso da CNBB com a verdade, o diálogo e a paz. A nota constitui um desmentido institucional à acusação feita pelo candidato. Não representa, entretanto, uma decisão judicial sobre a responsabilidade de indivíduos eventualmente envolvidos na circulação de publicações.

Leia a íntegra da nota oficial da CNBB, publicada pelo Vatican News.

TSE determina providências sobre publicações envolvendo a padroeira

A disputa ultrapassou as redes sociais e chegou à Justiça Eleitoral. Em 2 de outubro, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, encaminhou determinações às plataformas digitais relacionadas à remoção de publicações que atribuíssem a Flávio Bolsonaro a intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. A atuação judicial ocorreu diante da circulação de conteúdos que vinculavam o candidato a uma proposta não demonstrada por documentos ou declarações de sua campanha. 

O caso evidencia uma distinção importante: é legítimo questionar publicamente as declarações religiosas de candidatos e suas implicações para o Estado laico, mas atribuir a eles uma proposta específica sem comprovação documental pode configurar desinformação eleitoral. A existência de medidas de remoção não significa, por si só, que todas as pessoas que compartilharam conteúdos sobre o assunto tenham cometido crimes. A eventual responsabilização depende da conduta individual, da legislação aplicável e de decisões judiciais.

Em Aparecida, arcebispo defende convivência e rejeita discurso de ódio

Enquanto os candidatos participaram de celebrações em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin acompanhou a missa solene no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo. Também estiveram presentes: o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a deputada Tabata Amaral e outros representantes políticos. Durante a celebração, o arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, destacou que a mensagem cristã não deve ser utilizada para justificar hostilidade contra pessoas com opiniões diferentes. A homilia enfatizou a importância do diálogo, da escuta e da convivência pacífica, além da atenção aos mais pobres. O arcebispo também afirmou que o santuário acolhe as pessoas com respeito, sem estabelecer restrições à presença de candidatos por suas posições políticas. A manifestação ocorreu em um momento no qual a devoção à padroeira se tornou assunto recorrente da campanha presidencial, mas não constituiu um pedido explícito de voto em favor de qualquer candidatura.

Intolerância religiosa cresce e chega ao Paraná

Enquanto as campanhas presidenciais discutem o significado político da devoção católica, episódios de violência contra símbolos religiosos vêm sendo registrados em diferentes regiões do país. Em setembro, estabelecimentos de artigos religiosos católicos e um ligado à umbanda tiveram suas fachadas incendiadas em Fortaleza, no Ceará. Em um dos locais, os responsáveis encontraram uma ameaça de morte. No Paraná, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida instalada diante de uma loja de artigos religiosos em Londrina foi danificada no dia 8 de setembro. A cabeça da imagem foi arrancada. Também foram registrados ataques a imagens religiosas em Salvador, incluindo representações de Nossa Senhora das Graças e Santa Dulce dos Pobres.

Os episódios ocorreram antes de a controvérsia sobre o título de padroeira ganhar repercussão nacional na campanha presidencial. Não há elementos suficientes para estabelecer uma ligação direta entre esses ataques e as candidaturas de Lula ou Flávio Bolsonaro. Dados do Disque 100 mostram que o Brasil registrou 1.252 denúncias relacionadas à liberdade de crença ou intolerância religiosa entre janeiro e junho de 2026. Entre praticantes de umbanda e candomblé, os registros passaram de 192 no primeiro semestre de 2025 para 270 no mesmo período deste ano, crescimento de 40,6%. Entre católicos, passaram de 15 para 34 denúncias. Os números demonstram aumento dos registros, mas não permitem afirmar que a campanha eleitoral tenha provocado esse crescimento.

Pesquisa mostra que propaganda eleitoral explícita é minoritária nas igrejas

Apesar da presença de símbolos religiosos na campanha presidencial, uma pesquisa divulgada neste mês indica que o apoio eleitoral explícito durante celebrações religiosas é menos frequente do que sugerem algumas discussões nas redes sociais. Um levantamento da More in Common Brasil, em parceria com o grupo Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisou 7.456 cultos e missas realizados em 25 estados e no Distrito Federal nos dois domingos anteriores ao primeiro turno. A pesquisa identificou manifestações de apoio ou oposição a candidaturas em 3,2% das celebrações analisadas. Já mensagens de caráter cívico, incluindo incentivos ao voto consciente e críticas à polarização, apareceram em 15,3%. A incidência de propaganda eleitoral variou conforme a denominação religiosa: 8,3% nas celebrações da Assembleia de Deus, 1,4% nas igrejas batistas e 0,7% nas missas católicas. O estudo, entretanto, não abrange conversas privadas, grupos de WhatsApp ou outras formas de comunicação política fora das celebrações monitoradas. Os resultados mostram que não é possível tratar todas as igrejas, lideranças ou comunidades religiosas como integrantes de um mesmo projeto eleitoral.

Fé, propaganda eleitoral e Estado laico: o que diz a legislação

A Constituição brasileira assegura a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a participação política de cidadãos de todas as crenças. Isso significa que candidatos podem declarar publicamente sua religião, participar de cerimônias e manifestar posições inspiradas em suas convicções pessoais. O mesmo direito se aplica aos eleitores, inclusive àqueles que não professam nenhuma religião.

A legislação eleitoral, porém, estabelece restrições à propaganda em templos religiosos, classificados como bens de uso comum para essa finalidade. A análise de eventual irregularidade depende do conteúdo da manifestação, do contexto e das circunstâncias concretas. O Estado laico também não impede a presença da religião na vida pública. Seu princípio fundamental é a ausência de uma religião oficial e a garantia de que o poder público respeite a liberdade de consciência e de crença de todos os cidadãos. Nesse contexto, é necessário distinguir manifestações religiosas, discursos eleitorais, informações falsas e episódios efetivos de discriminação.

O desafio de preservar a liberdade religiosa durante o segundo turno

A presença de Lula e Flávio Bolsonaro em celebrações católicas no Dia de Nossa Senhora Aparecida mostra como a religião permanece inserida na disputa presidencial de 2026. De um lado, os candidatos procuram apresentar suas posições sobre a fé e responder a controvérsias que ganharam repercussão nacional. De outro, instituições religiosas, como a CNBB, reafirmam sua independência partidária e defendem a responsabilidade na circulação de informações.

A realidade documentada pelas denúncias de intolerância, entretanto, vai além da disputa presidencial. Os ataques a símbolos católicos, a violência contra religiões de matriz africana e as ameaças a comunidades religiosas mostram que a proteção da liberdade de crença exige atenção permanente. O segundo turno coloca em evidência duas dimensões distintas da mesma discussão: o direito de expressar convicções religiosas na política e a obrigação de respeitar a diversidade de crenças em uma sociedade democrática. A distinção é fundamental para que a disputa pelo voto não transforme diferenças religiosas em justificativas para discriminação, ameaças ou violência.

 

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