Infância sob ameaça: como eventos climáticos extremos colocam crianças brasileiras em risco
Relatório do Unicef revela que seis em cada dez crianças e adolescentes no Brasil estão expostos a pelo menos dois riscos climáticos; avanço do El Niño ameaça agravar problemas de saúde, alimentação, educação e acesso à água
No Brasil, milhões de crianças crescem sob ameaças que vão muito além da violência, da pobreza e da falta de acesso a serviços básicos. Enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e incêndios florestais passaram a representar riscos simultâneos à saúde, à educação e até à sobrevivência de uma parcela expressiva da população infantil. E os números revelam a dimensão do problema: mais de 30 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a pelo menos duas ameaças climáticas, enquanto 16 milhões enfrentam três ou mais riscos.
Os dados, divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), representam uma realidade preocupante: seis em cada dez meninas e meninos brasileiros vivem em áreas sujeitas a múltiplos perigos climáticos. O levantamento integra o Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, publicado em junho, e ganhou novo destaque em 8 de outubro, quando a organização alertou para os possíveis efeitos do El Niño de 2026 e 2027.
Às vésperas do Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira (12), o alerta expõe uma contradição: enquanto a infância é associada à proteção e ao desenvolvimento, milhões de brasileiros começam a vida em territórios onde eventos extremos podem comprometer direitos fundamentais.
Uma geração exposta a múltiplas ameaças

Fonte: Unicef, Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 e Análise sobre o El Niño, divulgada em 8 de outubro.
O levantamento internacional considera oito tipos de ameaças climáticas, entre elas: secas, calor extremo, ondas de calor, queimadas, enchentes e tempestades tropicais. A pesquisa também identificou que aproximadamente 47 milhões de crianças e adolescentes brasileiros (equivalentes a 95% dessa população) estão expostos à poluição atmosférica. Outros 5,6 milhões vivem em áreas expostas à malária, doença cuja transmissão pode ser influenciada por condições ambientais e climáticas. É importante distinguir exposição de dano efetivo. Os números não significam que todas essas crianças já sofreram desastres ou que enfrentarão simultaneamente todos os fenômenos. Eles indicam que vivem em territórios sujeitos a ameaças sobrepostas, o que aumenta sua vulnerabilidade, especialmente quando faltam serviços públicos adequados.
El Niño pode agravar cenário no Brasil
O alerta ganhou urgência com as previsões para o El Niño de 2026 e 2027. Segundo análise divulgada pelo Unicef em 8 de outubro, o fenômeno pode intensificar extremos de temperatura e precipitação em diferentes regiões brasileiras. Um boletim conjunto de órgãos federais, divulgado em 1º de setembro, apontou probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre de setembro a novembro. As projeções indicam tendência de chuvas acima da média especialmente na Região Sul, enquanto grandes áreas do Norte e Nordeste podem registrar precipitações abaixo do normal. Temperaturas elevadas em praticamente todo o território nacional também aumentam a preocupação com estiagens, queimadas e seus impactos sobre a população.
No Paraná, a perspectiva de chuvas mais intensas merece atenção especial. Municípios sujeitos a alagamentos, enxurradas e deslizamentos precisam considerar não apenas os danos à infraestrutura, mas também a continuidade das aulas, o funcionamento das unidades de saúde e a segurança de crianças que vivem em áreas vulneráveis. A previsão de chuva acima da média, entretanto, não significa que todos os municípios paranaenses sofrerão enchentes. A ocorrência de desastres depende também das condições locais, da intensidade dos eventos e da capacidade de prevenção e resposta.
Quando o desastre chega, a infância perde mais do que a casa
Os efeitos das mudanças climáticas sobre as crianças nem sempre aparecem imediatamente nas estatísticas de vítimas. Muitas consequências surgem depois que a água baixa, a fumaça desaparece ou a estiagem termina. Uma família que perde a moradia pode enfrentar meses de instabilidade financeira. Uma escola atingida por uma enchente pode interromper o calendário letivo. A falta de água potável aumenta riscos sanitários, enquanto a perda de renda compromete a alimentação.
O Unicef identifica cinco áreas especialmente vulneráveis:
- Saúde: calor extremo, desidratação, doenças diarreicas, problemas respiratórios e alterações nas condições de transmissão da dengue.
- Alimentação: perdas agrícolas e encarecimento dos alimentos podem ampliar a insegurança alimentar e a desnutrição.
- Água e saneamento: secas comprometem o abastecimento, enquanto enchentes podem contaminar fontes de água.
- Educação: escolas danificadas, estradas bloqueadas e comunidades isoladas dificultam o acesso às aulas e à alimentação escolar.
- Proteção social: perda de moradia, renda e meios de subsistência pode aprofundar vulnerabilidades já existentes.
Esses impactos atingem crianças de maneira particularmente intensa porque seus organismos ainda estão em desenvolvimento e elas dependem dos adultos e dos serviços públicos para garantir necessidades essenciais.
Mais de um milhão de estudantes tiveram aulas interrompidas em 2024
O Brasil já experimentou, recentemente, as consequências dessa vulnerabilidade. Durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, aproximadamente 741 mil estudantes tiveram a educação afetada. No mesmo período, a seca extrema na Amazônia prejudicou outros 436 mil alunos. Somados, os dois episódios provocaram interrupções nas aulas de cerca de 1,17 milhão de crianças e adolescentes, segundo o Unicef. O impacto educacional vai além dos dias sem aula. Quando escolas deixam de funcionar, crianças também podem perder acesso à merenda, ao acompanhamento de profissionais e a uma rede cotidiana de proteção. Os episódios de 2024 não representam uma previsão de repetição das mesmas tragédias em 2026. Funcionam, porém, como evidência da dimensão que os danos podem alcançar quando os serviços essenciais não estão preparados.
Desigualdade social amplia os riscos
A ameaça climática não atinge todas as crianças da mesma maneira. Uma família com recursos financeiros pode, em determinadas circunstâncias, deixar temporariamente uma área ameaçada, buscar atendimento particular ou garantir alternativas para a continuidade dos estudos. Para famílias de baixa renda, moradores de áreas de risco e comunidades isoladas, essas possibilidades costumam ser mais limitadas. O relatório do Unicef considera justamente a combinação entre exposição aos fenômenos climáticos e vulnerabilidade social, incluindo acesso à saúde, educação, saneamento, alimentação e proteção. Assim, duas crianças expostas à mesma intensidade de chuva podem enfrentar consequências muito diferentes, dependendo das condições da moradia, da infraestrutura do município e da capacidade de resposta do poder público. Essa desigualdade transforma a crise climática também em um problema de justiça social e de garantia dos direitos da infância.
O que os governos podem fazer antes da próxima emergência?
O Unicef defende que a prevenção precisa começar antes que as escolas fechem, as unidades de saúde fiquem isoladas ou as famílias percam acesso à água. Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento dos sistemas de alerta antecipado, a preparação das redes de saúde e educação, a proteção dos sistemas de abastecimento, a disponibilidade prévia de medicamentos e a identificação das famílias que vivem em áreas de maior risco. No Brasil, uma das ferramentas apontadas pela organização é o Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, desenvolvido em 2025 com apoio do Unicef. O instrumento busca articular Defesa Civil, assistência social, saúde, educação e órgãos de proteção dos direitos de crianças e adolescentes. A existência de protocolos, entretanto, não garante por si só a proteção. Sua efetividade depende da aplicação nos estados e municípios, de recursos disponíveis, de equipes capacitadas e de planejamento contínuo.
Para o Paraná, o desafio envolve verificar se os municípios possuem planos de contingência que contemplem especificamente crianças, se escolas e unidades de saúde estão preparadas para eventos extremos e como as famílias vulneráveis serão atendidas durante emergências. O Unicef também publicou, em outubro, orientações para que governos estaduais e municipais incluam as necessidades da infância nos planos de adaptação às mudanças climáticas.
Crise global ameaça mais de um bilhão de crianças
A situação brasileira integra uma emergência de alcance mundial. Segundo o Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, aproximadamente 1,1 bilhão de crianças e adolescentes, quase metade da população infantil do planeta, estão expostos a pelo menos três ameaças climáticas. Em comunicado divulgado em 6 de outubro, o Unicef também alertou que mais de 347 milhões de crianças, distribuídas por quase 100 países e territórios, vivem em áreas onde o El Niño poderá provocar condições de chuva ou seca fora do padrão entre outubro e dezembro. A organização ressalta que esses números são estimativas de exposição, não de pessoas que necessariamente sofrerão danos.
Proteger a infância exige agir antes da tragédia
O avanço dos eventos climáticos extremos coloca uma responsabilidade crescente sobre governos, instituições e sociedade. Mais do que reconstruir escolas destruídas, distribuir água depois de uma seca ou atender famílias desabrigadas, o desafio está em evitar que fenômenos previsíveis se transformem em violações de direitos. Os dados do Unicef revelam que a crise climática deixou de ser uma ameaça distante para milhões de crianças brasileiras. Ela já faz parte das condições em que crescem, estudam e se desenvolvem.
Neste Dia das Crianças, os mais de 30 milhões de brasileiros expostos a riscos climáticos simultâneos deixam uma pergunta que vai além das comemorações: o país está preparado para proteger sua infância antes que aconteça o próximo desastre?
Fontes e documentos usados na publicação:
Unicef — Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 (16/06/2026)
Unicef — Alerta sobre os impactos do El Niño no Brasil (08/10/2026)
Unicef — Projeções globais do El Niño (06/10/2026)
Unicef — Adaptação climática sensível a crianças e adolescentes (outubro/2026)
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