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540 focos em 48 horas: incêndios no Amazonas levantam suspeitas de crime ambiental

Em meio à fumaça que atinge Manaus, governo reconhece emergência em 36 municípios; queimadas em áreas preservadas levantam suspeitas de degradação ambiental intencional

Julia Maraschi · · 5 min de leitura
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... — Crédito: Divulgação

Dados divulgados na segunda-feira (12) registram o enfrentamento de uma grave crise ambiental pelo estado do Amazonas, após o registro de 540 focos de incêndio em um intervalo de 48 horas. As informações têm como base o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além da declaração feita pelo ministro do Meio Ambiente. A situação levou autoridades federais a reforçar as operações de combate às chamas e provocou alertas sobre os riscos da fumaça à saúde da população.

Durante a coletiva de imprensa realizada no domingo (11), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, informou a identificação de focos de incêndio em áreas de floresta preservada e de difícil acesso, durante um sobrevoo realizado anteriormente. Segundo ele, a localização das queimadas indica a possibilidade de ação humana intencional, inclusive para degradar a vegetação e facilitar futuros desmatamentos.

A avaliação do ministro, entretanto, não indica a origem criminosa de todos os incêndios. A identificação dos responsáveis e das circunstâncias de cada ocorrência depende de investigação.

Incêndios avançam em ritmo acelerado

Os dados divulgados pelo Inpe mostram que somente no sábado (10) foram identificados 494 focos no Amazonas, o maior registro diário desde o início de outubro.

O agravamento também aparece no levantamento do Ministério Público de Contas do Amazonas. Segundo boletim publicado em 11 de outubro, o estado acumulou 7.583 focos de calor entre 1º de janeiro e 10 de outubro de 2026, contra 3.589 no mesmo intervalo de 2025. O crescimento foi de aproximadamente 111%.

O número parcial deste ano já supera o total de 4.545 focos registrado durante todo o ano passado.

Ministro suspeita de incêndios provocados deliberadamente

A presença de fogo em regiões de floresta nativa chamou a atenção das autoridades durante o sobrevoo realizado por Capobianco e pelo ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes.

De acordo com Capobianco, foram encontrados focos em locais distantes de pastagens e outras áreas normalmente associadas ao uso do fogo na atividade agropecuária.

Para o ministro, essa distribuição geográfica reforça a suspeita de que alguns incêndios tenham sido iniciados deliberadamente no interior da floresta, com possível objetivo de promover a degradação ambiental.

A Polícia Civil do Amazonas abriu investigações para apurar ocorrências relacionadas às queimadas, segundo a Exame.

Capobianco também defendeu a responsabilização dos envolvidos. "É fundamental que as pessoas que estão agindo criminosamente vejam que serão punidas", declarou.

Fumaça provoca alerta de saúde e emergência em 36 municípios

A fumaça resultante das queimadas comprometeu a qualidade do ar em Manaus e outras cidades amazonenses.

Na sexta-feira (9), a Defesa Civil da capital emitiu um alerta sobre os riscos à saúde. A poluição também provocou a suspensão de atividades presenciais em instituições de ensino e restrições a eventos ao ar livre.

Diante da gravidade da situação, o governo federal reconheceu a situação de emergência em 36 municípios do Amazonas. A medida permite mobilizar recursos extraordinários para operações de combate aos incêndios e atendimento humanitário.

A exposição prolongada à fumaça representa riscos especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.

Força-tarefa mobiliza aviões e brigadistas

O combate às chamas conta com uma operação envolvendo autoridades federais, estaduais e municipais.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mobilizou seis aeronaves, sendo quatro aviões Air Tractor e dois helicópteros, além de 290 brigadistas.

A Força Aérea Brasileira (FAB) também enviou dois aviões KC-390 para reforçar as operações. As aeronaves podem utilizar equipamentos específicos para lançamento de grandes volumes de água sobre as áreas atingidas.

Equipes da Força Nacional do SUS participam das ações de assistência à população nos municípios em situação de emergência.

Além do combate direto ao fogo, o governo federal busca ampliar a resposta humanitária para atender moradores afetados pela fumaça e pelos incêndios.

Crise também expõe divergências entre governos

A mobilização acontece em meio a divergências sobre a solicitação e o envio de apoio federal ao Amazonas.

O Ministério do Meio Ambiente informou que o governo estadual havia cancelado, no fim de setembro, um pedido anterior de apoio, após chuvas reduzirem temporariamente as queimadas.

Por outro lado, representantes do Corpo de Bombeiros do Amazonas afirmaram que dificuldades na disponibilização de aeronaves prejudicaram as operações.

As versões indicam diferenças de entendimento sobre a mobilização dos recursos de emergência. A documentação dos pedidos, cancelamentos e respostas administrativas é necessária para esclarecer a sequência dos acontecimentos.

Origem dos incêndios ainda precisa ser esclarecida

Embora os dados de satélite permitam acompanhar a distribuição e a intensidade dos focos de calor, a identificação das causas exige análise das condições locais e investigação das ocorrências.

A estiagem, as temperaturas elevadas e a baixa umidade favorecem a propagação das chamas. Já a hipótese de incêndios deliberadamente provocados para degradar áreas preservadas exige apuração específica.

A crise no Amazonas reúne, portanto, dois desafios imediatos: conter o avanço dos incêndios e proteger a população exposta à fumaça, enquanto as autoridades investigam a possível atuação criminosa por trás das queimadas.

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