De R$ 0,45 a R$ 35 por voto: campanhas de deputados no Paraná têm diferenças milionárias
Levantamento próprio da Gazeta do Paraná cruza mais de mil candidaturas com dados oficiais do TSE e mostra diferenças expressivas entre gastos declarados e votação obtida nas urnas
O dinheiro gasto nas campanhas eleitorais não acompanha necessariamente a quantidade de votos conquistados. Um levantamento realizado pela Gazeta do Paraná, a partir dos arquivos oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela diferenças expressivas entre as despesas declaradas pelos candidatos a deputado federal e estadual nas eleições de 2026. Entre as campanhas examinadas, há parlamentares eleitos que registraram menos de R$ 1 em despesas para cada voto recebido, enquanto outros ultrapassaram R$ 30.
A análise cruzou os registros de despesas contratadas das candidaturas paranaenses com a votação nominal por seção eleitoral. Os arquivos foram gerados pelo TSE em outubro, após o primeiro turno das eleições, realizado no dia 4.
Os valores correspondem às despesas declaradas à Justiça Eleitoral até 11 de outubro e ainda poderão sofrer alterações com a apresentação e o exame das prestações de contas finais. O indicador não representa dinheiro entregue aos eleitores, mas uma relação matemática entre o total gasto e os votos recebidos.
Diferenças na disputa federal
Entre os deputados federais eleitos pelo Paraná, Jeffrey Chiquini (Novo), que recebeu 425.399 votos e foi o candidato mais votado ao cargo no estado, declarou aproximadamente R$ 2 milhões em despesas contratadas. O resultado equivale a R$ 4,70 por voto.
Guilherme Kilter (Novo), segundo mais votado, com 269.832 votos, apresentou R$ 2,04 milhões em despesas, o equivalente a R$ 7,55 por voto.
Sargento Fahur (PL), com 242.643 votos, registrou aproximadamente R$ 2,15 milhões em gastos, ou R$ 8,87 por voto. Já Ana Júlia (PT), que recebeu 184.691 votos, declarou R$ 1,68 milhão, equivalente a R$ 9,08 por voto.
O levantamento mostra que campanhas com votações semelhantes podem apresentar despesas bastante diferentes.
Renato Freitas (PT), por exemplo, recebeu 115.227 votos e registrou R$ 749,6 mil em despesas contratadas, alcançando um indicador de R$ 6,51 por voto.
Aliel Machado (PV), com 118.691 votos, declarou aproximadamente R$ 3,22 milhões. Nesse caso, o valor chegou a R$ 27,16 por voto.
A diferença entre os dois indicadores não significa, isoladamente, que uma campanha tenha utilizado recursos de maneira mais eficiente. As estruturas de campanha, os territórios de atuação, os serviços contratados e as estratégias eleitorais podem variar significativamente.
Outros parlamentares apresentaram valores superiores a R$ 30 por voto. Leandre (PSD) declarou R$ 2,93 milhões para 90.185 votos, equivalentes a R$ 32,47 por voto. Paulo Litro (União Brasil), com 88.601 votos e R$ 3,12 milhões em despesas, registrou R$ 35,27 por voto.
Na Assembleia, campanhas abaixo de R$ 1 por voto
A diferença é ainda mais evidente em algumas candidaturas à Assembleia Legislativa do Paraná.
Bruno Secco (Novo) recebeu 82.898 votos e declarou R$ 37 mil em despesas contratadas. O indicador foi de R$ 0,45 por voto.
Paulo Melo (PL), o deputado estadual mais votado do Paraná, obteve 192.409 votos e registrou R$ 112,5 mil em gastos, equivalentes a R$ 0,58 por voto.
Professor Lemos (PT), com 123.338 votos, apresentou aproximadamente R$ 179,5 mil em despesas, ou R$ 1,46 por voto.
Já Márcio Nunes (PSD), que recebeu 119.707 votos, declarou R$ 1,22 milhão, alcançando R$ 10,17 por voto.
Hussein Bakri (PSD), com 99.700 votos, registrou R$ 1,01 milhão em despesas, também superando R$ 10 por voto.
Luiz Fernando Guerra (Novo), com 64.788 votos, declarou aproximadamente R$ 1,05 milhão, o equivalente a R$ 16,27 por voto.
As diferenças mostram que o resultado eleitoral não depende exclusivamente do volume de despesas contratadas. A votação também pode ser influenciada pela trajetória política, pela presença nas redes sociais, pela organização partidária e pelo reconhecimento público dos candidatos.
Dinheiro público exige análise separada
O levantamento considera o total de despesas contratadas declaradas ao TSE. Esse montante não deve ser confundido com o valor de recursos públicos utilizados pelas campanhas.
Os gastos eleitorais podem ser financiados pelo Fundo Especial de Financiamento de Campanha, pelo Fundo Partidário, por doações de pessoas físicas e por recursos próprios, conforme as regras da legislação eleitoral.
Por isso, o custo total por voto não permite concluir quanto dinheiro público foi utilizado para obter cada resultado.
A identificação dessa parcela exige uma segunda análise, cruzando a origem das receitas das candidaturas com os registros de despesas e a utilização dos recursos recebidos.
Também é necessário considerar que as candidaturas podem registrar doações estimáveis em dinheiro, como cessão de bens e serviços, que integram a contabilidade eleitoral sem representar necessariamente desembolso financeiro.
Como a Gazeta fez o levantamento
A reportagem utilizou dois conjuntos de dados disponibilizados pelo TSE: os registros de despesas contratadas dos candidatos do Paraná e a votação nominal por seção eleitoral.
Os votos foram consolidados por candidatura e cargo. Em seguida, os totais foram relacionados às despesas declaradas, utilizando a identificação individual de cada candidato na base da Justiça Eleitoral.
Para obter o indicador, o valor total das despesas contratadas foi dividido pelo número de votos recebidos no primeiro turno.
Uma campanha que declarou R$ 1 milhão e recebeu 100 mil votos, por exemplo, apresenta gasto equivalente a R$ 10 por voto.
O levantamento não mede compra de votos, não indica irregularidade eleitoral e não estabelece, por si só, se uma campanha foi bem ou mal administrada.
Os dados representam uma fotografia da prestação de contas disponível em 11 de outubro de 2026. Como as informações ainda são preliminares, os indicadores poderão mudar após novas declarações e eventuais retificações.
A Justiça Eleitoral também poderá solicitar esclarecimentos e examinar a regularidade das despesas quando analisar as contas finais.
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