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Fake news pós-eleições: Gazeta checa 11 boatos sobre fraude nas urnas, prisões e comemorações de presos

Levantamento reúne acusações contra o TSE, vídeos antigos apresentados como atuais e notícias falsas envolvendo Jair Bolsonaro e seu filho Jair Renan; documentos mostram que o próprio PL pediu prorrogação da votação em Curitiba

Ana Zimermann · · 12 min de leitura
Informações falsas, vídeos antigos e acusações sem comprovação circularam nas redes sociais durante e após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Informações falsas, vídeos antigos e acusações sem comprovação circularam nas redes sociais durante e após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. — Crédito: GDJ/Wikimedia Commons

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A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25), foi acompanhada por uma onda de desinformação nas redes sociais. Entre os conteúdos estão: acusações de fraude eleitoral, vídeos de presidiários supostamente comemorando a vitória petista, denúncias de compra de votos e rumores de prisão envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Jair Renan. A Gazeta do Paraná reuniu 11 alegações verificadas por outras agências de checagem e pela Justiça Eleitoral, confrontando as publicações com documentos oficiais, reportagens originais e informações de órgãos públicos.

O levantamento separa três situações: boatos surgidos após a divulgação do resultado de 25 de outubro, conteúdos antigos que ganharam novas legendas depois da eleição e informações enganosas que já circulavam antes do encerramento da votação. A apuração também buscou identificar a origem das mensagens, seus responsáveis, o alcance documentado e possíveis conexões com perfis políticos e influenciadores do Paraná.

Boatos que surgiram após o resultado eleitoral

Fiscais do PL foram expulsos da sala-cofre do TSE?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Após a derrota, Flávio Bolsonaro afirmou que representantes do PL haviam sido retirados da sala-cofre do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sugerindo que a decisão teria impedido a fiscalização da apuração.

O que foi comprovado: o TSE negou a expulsão e informou que dois fiscais da legenda acompanharam os procedimentos oficiais. O tribunal explicou que a sala-cofre, onde ficam equipamentos e informações sensíveis, não é aberta ao público. Os fiscais acompanharam os trabalhos na Sala de Totalização e na Sala dos Partidos Políticos. Segundo a Justiça Eleitoral, existem registros de acesso e imagens que comprovam a presença dos representantes partidários. 

Origem: declaração de Flávio Bolsonaro na noite de 25 de outubro.

Circulação: o pronunciamento foi reproduzido por apoiadores e influenciadores, não sendo possível estabelecer a sequência completa dos compartilhamentos.

Correção ou exclusão: não foi identificada retratação pública comprovada.

Evidências: TSE — Esclarecimento oficial | Aos Fatos — Análise do pronunciamento

A prorrogação da votação foi uma manobra para favorecer Lula?

CLASSIFICAÇÃO: ENGANOSO

Declarações de Flávio Bolsonaro sugeriram que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria prorrogado a votação por duas horas para beneficiar Lula, a pedido exclusivo da campanha petista.

O que foi comprovado: a prorrogação foi determinada diante de problemas de mobilidade e transporte de eleitores. A própria campanha de Flávio Bolsonaro também apresentou pedidos para ampliar o horário. Documentos judiciais analisados mostram que, às 15h27 de domingo, o PL solicitou a prorrogação em municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, incluindo Curitiba. Às 15h42, apresentou outro requerimento envolvendo municípios de Minas Gerais. A primeira decisão de Zanin foi proferida às 17h03. Posteriormente, o ministro esclareceu que as duas candidaturas haviam relatado dificuldades de transporte. A existência de pedidos de ambas as campanhas não demonstra irregularidade. Também não há evidência de que a ampliação tenha alterado o resultado presidencial.

Origem: declarações de Flávio Bolsonaro após o resultado.

Circulação: a narrativa foi reproduzida por parlamentares e apoiadores. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque, citado pelo Aos Fatos, identificou sua disseminação por mais de dez parlamentares, sem individualizar todos os conteúdos compartilhados.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Aos Fatos — Documentos das solicitações e decisões judiciais

Jair Bolsonaro foi preso por desacato e levado novamente à Papuda?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Publicações anunciavam que o ex-presidente Jair Bolsonaro havia sido preso por desacato à autoridade depois do resultado das eleições e seria enviado novamente ao Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.

O que foi comprovado: a ocorrência policial envolveu outro homem, que discutiu com agentes responsáveis pela segurança da residência do ex-presidente na noite de domingo. Segundo as informações divulgadas sobre o registro policial, o homem foi conduzido à delegacia e liberado após assinar um termo circunstanciado.

Jair Bolsonaro não estava envolvido na ocorrência e continuou cumprindo prisão domiciliar. Não houve decisão do STF determinando seu retorno à Papuda naquele episódio.

Origem: publicações surgidas após a ocorrência policial de 25 de outubro. O primeiro autor da narrativa falsa não foi identificado.

Circulação: segundo o Aos Fatos, as postagens somavam pelo menos 2 milhões de visualizações no X e mais de 5,4 mil interações no Facebook e Instagram até a tarde de 26 de outubro.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Aos Fatos — Jair Bolsonaro não foi preso por desacato

Vídeos antigos reaproveitados depois da eleição

Presidiários comemoraram a vitória de Lula?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Um vídeo de presos comemorando dentro de um presídio foi divulgado com a legenda de que estariam festejando a reeleição de Lula.

O que foi comprovado: a gravação é de 19 de fevereiro de 2022, no Complexo Prisional do Curado, em Recife. Os presos comemoravam um gol do Santa Cruz contra o Sport, em partida do Campeonato Pernambucano. O vídeo original foi exibido pela imprensa pernambucana mais de quatro anos antes do segundo turno presidencial.

Origem: gravação de fevereiro de 2022, reapresentada com uma legenda eleitoral depois do resultado de 25 de outubro.

Circulação: uma publicação identificada pela Agência Lupa acumulava 16,2 milhões de visualizações até 26 de outubro.

Autoria da manipulação: não identificada.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Agência Lupa — Origem do vídeo de 2022

Homens armados comemoraram a vitória de Lula?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Imagens de homens exibindo armas foram compartilhadas com a alegação de que criminosos estariam celebrando a reeleição do presidente.

O que foi comprovado: a gravação já circulava em 21 de outubro, quatro dias antes do segundo turno. O vídeo estava relacionado a um confronto entre grupos criminosos no Rio de Janeiro e não tinha ligação com o resultado das eleições.

Origem: uma das primeiras publicações encontradas foi feita pelo perfil @zona_de_guerrarj, no Instagram, em 21 de outubro. O perfil divulgou o material antes da eleição, o que não significa que tenha criado a legenda falsa.

Circulação: uma publicação com a associação eleitoral enganosa registrava aproximadamente 188 mil visualizações até 26 de outubro.

Autoria da manipulação: não identificada.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Agência Lupa — Vídeo anterior à eleição

Boatos que já circulavam antes ou durante o segundo turno

Polícia apreendeu R$ 8,5 milhões destinados à compra de votos para Lula?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Um vídeo mostrava policiais recolhendo uma mala de dinheiro e afirmava que R$ 8,5 milhões haviam sido apreendidos em uma operação contra compra de votos.

O que foi comprovado: as imagens eram de janeiro de 2026, durante uma operação em Cristalina, Goiás. O valor apreendido foi de aproximadamente R$ 1,7 milhão. Não foi comprovada qualquer ligação do dinheiro com a campanha presidencial de Lula.

Origem: vídeo de uma operação policial anterior, reutilizado durante a eleição.

Circulação: uma publicação no X tinha cerca de 3 mil compartilhamentos na tarde de 25 de outubro, antes da divulgação do resultado.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Agência Lupa — Origem da apreensão

Brasileiros foram impedidos de votar em Londres no segundo turno?

CLASSIFICAÇÃO: FORA DE CONTEXTO

Uma reportagem da CNN Brasil foi compartilhada como se mostrasse eleitores impedidos de votar em Londres no dia 25 de outubro.

O que foi comprovado: a reportagem era verdadeira, mas foi publicada em 4 de outubro, durante o primeiro turno. Na ocasião, dezenas de eleitores brasileiros descobriram que estavam registrados para votar em Edimburgo, na Escócia, e não na capital britânica. O conteúdo não comprovava uma nova ocorrência no segundo turno.

Origem: reportagem de 4 de outubro, reapresentada como atual no dia 25.

Circulação: uma publicação monitorada ultrapassou 322 mil visualizações.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Agência Lupa — Reportagem é do primeiro turno

Assinar o caderno de votação permitiria comprovar fraude nas urnas?

CLASSIFICAÇÃO: ENGANOSO

Um vídeo orientava os eleitores a assinarem o caderno de votação e sugeria que isso permitiria comprovar irregularidades na apuração.

O que foi comprovado: o TSE esclareceu que a assinatura não é obrigatória quando a identificação biométrica ocorre com sucesso. Além disso, o caderno não registra em quem cada eleitor votou. Portanto, a assinatura não permite verificar se votos foram alterados.

Origem: vídeo divulgado antes do encerramento da votação de 25 de outubro.

Autoria: a identidade da mulher responsável pela gravação não foi confirmada na checagem.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: TSE — Assinatura não comprova fraude

Apoiadora de Flávio rasgou uma bandeira de Nossa Senhora Aparecida?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Uma imagem apresentada como notícia do g1 mostrava uma suposta apoiadora de Flávio Bolsonaro rasgando uma bandeira religiosa durante um ato em Belo Horizonte.

O que foi comprovado: a Agência Lupa identificou indícios de que a fotografia foi produzida com inteligência artificial. O g1 não publicou a reportagem atribuída ao veículo. Não foram encontradas evidências de que o episódio tenha acontecido.

Origem: imagem manipulada que já circulava na manhã de 25 de outubro.

Circulação: uma postagem acumulava cerca de 10 mil curtidas no Facebook até as 13h daquele dia.

Autoria da montagem: não identificada.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: Agência Lupa — Imagem produzida por IA

O TSE contou votos antes de as urnas chegarem ao cartório eleitoral?

CLASSIFICAÇÃO: ENGANOSO

Um motorista filmou urnas sendo descarregadas às 21h15 de 25 de outubro e questionou como a totalização poderia estar avançada antes da chegada dos equipamentos.

O que foi comprovado: a Justiça Eleitoral explicou que os resultados são transmitidos separadamente do transporte físico das urnas. Na 408ª Zona Eleitoral, a transmissão começou por volta das 17h20 e terminou aproximadamente às 21h. O descarregamento dos equipamentos continuou até cerca de 21h30. A diferença entre os horários faz parte dos procedimentos regulares e não demonstra fraude.

Origem: gravação feita na noite de 25 de outubro, após o encerramento regular da votação.

Autoria: motorista contratado para o transporte dos equipamentos. A identidade do responsável pela interpretação enganosa não foi estabelecida.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Evidência: TSE — Explicação sobre a transmissão dos resultados

Jair Renan Bolsonaro foi preso em uma operação policial recente?

CLASSIFICAÇÃO: FALSO

Uma reportagem policial sobre Jair Renan Bolsonaro, filho do ex-presidente e vereador de Balneário Camboriú (SC), foi compartilhada com uma data de abril de 2026, sugerindo que uma operação havia ocorrido recentemente. A circulação alimentou interpretações de que ele teria sido preso.

O que foi comprovado: a reportagem original era de agosto de 2023 e tratava de uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal. Jair Renan foi alvo de investigação e de medidas de busca, mas o vídeo não comprova sua prisão.

O principal investigado na operação era Maciel Carvalho, amigo e instrutor de tiro do vereador. Jair Renan foi indiciado em fevereiro de 2024, mas as acusações da investigação foram posteriormente arquivadas.

Origem: reportagem de 2023 reapresentada com a data de 27 de abril de 2026.

Circulação: a AFP Checamos identificou publicações com mais de 340 mil visualizações e publicou a verificação em 6 de maio de 2026.

Correção ou exclusão: não confirmada.

Relação com o pós-eleição: não foi localizada evidência suficiente de que essa versão específica tenha voltado a circular depois de 25 de outubro. O caso é incluído por sua relevância para a desinformação envolvendo a família Bolsonaro, mas não deve ser apresentado como uma fake news comprovadamente surgida após a reeleição de Lula.

Evidência: AFP Checamos — Operação contra Jair Renan ocorreu em 2023

Como as fake news foram propagadas

A análise dos 11 casos revela diferentes técnicas utilizadas para dar aparência de credibilidade às informações falsas.

1. Vídeos verdadeiros com legendas falsas: é o caso dos presos comemorando um gol em 2022 e dos homens armados filmados antes do segundo turno. As gravações são autênticas, mas foram apresentadas como se registrassem a vitória de Lula.

2. Reportagens antigas apresentadas como recentes: a notícia sobre Jair Renan e o vídeo de eleitores em Londres mostram como uma mudança na data ou na contextualização pode transformar uma reportagem verdadeira em desinformação.

3. Falsificação de notícias e identidade visual: a montagem sobre a apoiadora rasgando uma bandeira religiosa utilizou elementos visuais de um veículo conhecido para atribuir credibilidade a um conteúdo inexistente.

4. Interpretação enganosa de procedimentos oficiais: as acusações sobre a sala-cofre, a prorrogação da votação e o transporte das urnas exploraram dúvidas sobre o funcionamento da Justiça Eleitoral para sustentar suspeitas de irregularidades sem comprovação.

5. Amplificação por figuras públicas: declarações de lideranças políticas foram reproduzidas por outros perfis, aumentando sua visibilidade. O pronunciamento de Flávio Bolsonaro após a derrota é um exemplo com autoria identificada.

6. Exploração de temas que provocam indignação: mensagens envolvendo criminosos, religião, prisão de políticos e compra de votos apelaram a assuntos emocionalmente sensíveis para estimular reações e compartilhamentos. Embora esses mecanismos estejam presentes nos conteúdos analisados, não existem evidências suficientes para afirmar que os 11 boatos fizeram parte de uma única operação coordenada.

O Paraná na circulação da desinformação

A investigação encontrou uma ligação documental direta entre o Paraná e a controvérsia sobre a prorrogação do horário eleitoral. Em 25 de outubro, às 15h27, a campanha de Flávio Bolsonaro solicitou ao TSE a ampliação do horário de votação em municípios afetados por problemas climáticos, incluindo Curitiba. O documento demonstra que o PL também pediu providências para ampliar o prazo, apesar de declarações posteriores que sugeriram favorecimento exclusivo à campanha de Lula. A busca também procurou identificar perfis políticos, influenciadores e grupos públicos do Paraná que tivessem produzido ou reproduzido os boatos analisados. Entretanto, os registros consultados não permitiram confirmar, com segurança, a autoria ou a participação individual de políticos e influenciadores paranaenses nesses compartilhamentos.

Não foi possível identificar quais contas fizeram as primeiras publicações no estado nem comprovar exclusões ou retratações posteriores. A ausência dessas evidências não significa que os conteúdos não tenham circulado no Paraná, mas impede atribuições individuais sem documentação verificável.

Quais conteúdos alcançaram mais pessoas?

Entre as publicações identificadas pelas agências de checagem, os maiores números documentados foram:

  1. Presidiários comemorando Lula: 16,2 milhões de visualizações em uma publicação.
  2. Falsa prisão de Jair Bolsonaro: pelo menos 2 milhões de visualizações no X, consideradas as postagens monitoradas.
  3. Operação antiga envolvendo Jair Renan: mais de 340 mil visualizações em publicações verificadas em maio.
  4. Eleitores impedidos de votar em Londres: mais de 322 mil visualizações em uma postagem.
  5. Homens armados comemorando Lula: aproximadamente 188 mil visualizações em uma publicação.

Os valores não representam o alcance total dos boatos, nem permitem construir um ranking definitivo nacional. Eles correspondem a publicações ou grupos de postagens monitoradas em plataformas e períodos diferentes. Também é necessário distinguir visualizações de curtidas, compartilhamentos e outras interações.



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