Créditos: Divulgação/Porto de Santos
Tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros devem ser mantidas, avalia CNI
Confederação Nacional da Indústria avalia que os Estados Unidos devem manter as novas tarifas sobre produtos brasileiros, apesar da maioria das manifestações ser contrária à medida
A maior parte das manifestações previstas para a audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) deve se posicionar contra a adoção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Apesar disso, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a tendência é de manutenção das medidas anunciadas pelo governo norte-americano, com possibilidade apenas de ajustes pontuais.
O levantamento da entidade, elaborado com base em dados públicos do USTR, mostra que, dos 80 inscritos para participar da audiência, 66 devem defender a rejeição das tarifas. Os demais representam segmentos da economia dos Estados Unidos, como etanol, siderurgia, pecuária e madeira, e apoiam a aplicação das sobretaxas.
A audiência integra a investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento utilizado pelo governo norte-americano para apurar práticas comerciais consideradas prejudiciais às empresas e aos exportadores do país.
No início deste mês, o órgão concluiu que o Brasil adota medidas que, na avaliação dos Estados Unidos, restringem ou oneram o comércio bilateral e recomendou o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros.
A investigação foi aberta em julho de 2025, por determinação do presidente Donald Trump, poucos dias depois do anúncio de uma tarifa de 50% sobre importações provenientes do Brasil.
CNI prevê manutenção das tarifas
Para a gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, Constanza Negri, o estágio atual da investigação indica que dificilmente haverá uma mudança de rumo por parte do governo norte-americano.
Segundo ela, eventuais alterações tendem a ser limitadas e não devem modificar a essência da política comercial adotada pelos Estados Unidos.
"A nossa leitura é que esse ajuste pode ser marginal, mas não de direção em relação às tarifas. Nossa estratégia continua sendo demonstrar os efeitos negativos que essas medidas provocam não apenas para o Brasil, mas também para empresas e consumidores norte-americanos", afirmou.
A entidade defende que diversos setores da economia dos Estados Unidos também serão prejudicados pela elevação das tarifas, motivo pelo qual segue apostando no diálogo entre os dois países.
Na avaliação da CNI, as medidas não encontram justificativa econômica, já que os Estados Unidos registram superávit comercial na relação com o Brasil e as economias são consideradas complementares em diversos setores.
Exportações brasileiras podem ser afetadas
Estudo da CNI aponta que, caso a proposta seja implementada, 31,6% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos passarão a ser tributadas em 37,5%, ante os atuais 10%, o que representa um aumento de 27,5 pontos percentuais.
A perspectiva reforça a preocupação da indústria brasileira com possíveis impactos sobre empresas exportadoras e cadeias produtivas que mantêm forte relação comercial com o mercado norte-americano.
Planalto vê pouca chance de recuo
Nos bastidores, integrantes do governo federal avaliam que uma reversão completa das tarifas é improvável.
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, a estratégia será manter as negociações diplomáticas e apresentar dados que evidenciam o equilíbrio da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, além de argumentos técnicos sobre os pontos questionados pelo governo norte-americano.
Ainda assim, a avaliação interna é de que a decisão do USTR possui motivação predominantemente política, o que reduz as chances de mudanças significativas. A expectativa do governo é de que possam ocorrer exceções para alguns produtos ou pequenas reduções nas tarifas, mas não a retirada integral das medidas.
Diplomacia brasileira critica investigação
No Ministério das Relações Exteriores, diplomatas também avaliam que a investigação conduzida pelos Estados Unidos teve caráter político.
Segundo integrantes do Itamaraty, os documentos apresentados pelo USTR ao longo do processo praticamente não sofreram alterações entre a abertura da investigação, em julho de 2025, e a recomendação final divulgada neste ano.
Na avaliação da diplomacia brasileira, isso demonstra que os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil durante as negociações não foram considerados pelas autoridades norte-americanas.
Uma missão formada por representantes das áreas econômica e ambiental do Itamaraty chegou a viajar para Washington para apresentar dados sobre comércio bilateral e questões ambientais, incluindo indicadores que apontam redução do desmatamento no Brasil. Segundo o governo brasileiro, todas as informações solicitadas foram fornecidas, mas acabaram desconsideradas durante a conclusão da investigação.
