Créditos: Fellipe Sampaio/STF.
STF determina reforço na CVM contra fraudes bilionárias e lavagem de dinheiro
Ministro do Supremo aponta "zonas cinzentas" no mercado de capitais e exige que a União destine a arrecadação de taxas integralmente para a fiscalização da autarquia
A estrutura de fiscalização do mercado financeiro brasileiro entrou na mira do Supremo Tribunal Federal após decisão do ministro Flávio Dino que cobra uma reformulação emergencial da Comissão de Valores Mobiliários, órgão responsável por supervisionar o mercado de capitais no país.
A decisão foi assinada nesta terça-feira (5) e determina que o governo federal apresente, em até 20 dias, um plano operacional para fortalecer a atuação da autarquia, especialmente no combate a fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo fundos de investimento.
O que o STF determinou
Segundo a decisão, a União deverá elaborar um plano emergencial com medidas práticas para reestruturar a fiscalização da CVM. Entre as ações exigidas estão mutirões para acelerar investigações, reforço na análise de processos e melhorias nos mecanismos de supervisão do mercado financeiro.
Flávio Dino definiu quatro áreas prioritárias que deverão ser contempladas no plano:
- atuação repressiva e maior rapidez no julgamento de processos
recomposição de servidores e modernização tecnológica
fortalecimento da inteligência financeira e da cooperação entre órgãos
ampliação da supervisão preventiva sobre fundos de investimento e operações consideradas de risco
O ministro citou preocupação com o que chamou de “zonas cinzentas” no mercado financeiro, que poderiam facilitar fraudes e ocultação de patrimônio.
Críticas à situação da CVM
Na decisão, Dino afirmou que a CVM enfrenta um cenário de “atrofia institucional”, marcado por redução orçamentária e déficit de servidores.
Segundo o ministro, essa fragilidade teria favorecido o surgimento de irregularidades de grande impacto financeiro, incluindo suspeitas ligadas ao caso do Banco Master.
“A confirmação desse cenário evidencia-se na proliferação de fraudes e ilícitos de vulto bilionário, com potencial desestabilizador de todo o sistema”, escreveu o magistrado.
Ele também apontou que a suposta falta de fiscalização adequada poderia ter contribuído para facilitar operações irregulares e ocultação de informações obrigatórias.
Disputa sobre recursos da taxa de fiscalização
Outro ponto abordado na decisão envolve o destino da chamada taxa de fiscalização paga por instituições financeiras supervisionadas pela CVM.
Flávio Dino determinou que os valores arrecadados sejam integralmente destinados ao funcionamento da comissão. Atualmente, parte significativa da arrecadação vai para o caixa geral da União.
A taxa varia conforme o porte e o patrimônio das instituições financeiras. Os valores podem ir de cerca de R$ 500 até aproximadamente R$ 600 mil.
Como o caso chegou ao STF
A discussão começou após uma ação apresentada pelo Partido Novo em março de 2025. A legenda questionou justamente o modelo de distribuição dos recursos arrecadados pela CVM.
Segundo os dados apresentados no processo, o órgão arrecadou cerca de R$ 2,4 bilhões entre 2022 e 2024, sendo R$ 2,1 bilhões provenientes das taxas de fiscalização. No mesmo período, o orçamento efetivamente destinado à CVM foi de aproximadamente R$ 670 milhões.
O partido argumenta que cerca de 70% da arrecadação fica com o governo federal, enquanto apenas 30% retorna para as atividades de fiscalização do mercado.
O que pode mudar
A decisão do STF pode abrir caminho para uma ampliação da estrutura operacional da CVM, com mais recursos, pessoal e tecnologia voltados ao monitoramento do mercado financeiro.
O caso também amplia o debate sobre a capacidade do Estado de fiscalizar fundos de investimento, operações financeiras complexas e possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro no sistema de capitais brasileiro.
