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Soberania como moeda de troca

Em artigo, Kakay analisa os impasses da conjuntura nacional e alerta para os riscos da radicalização no debate público

Por Antonio Carlos Kakay

Soberania como moeda de troca Créditos: Arquivo EBC

 “Não se meta nas eleições do Brasil.”

Lula respondendo ao Trump.

 

Com o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar humanitária temporária –cumprindo pena definitiva de 27 anos e 6 meses, transitada em julgado–, o país acompanhou o julgamento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, cassado, que resultou em condenação de 4 anos e 2 meses de prisão. Por sua vez, o filho que se apresenta como candidato à Presidência da República está cada vez mais enrolado em graves questões criminais. A tendência é que logo também esteja condenado ao cárcere. Ressalta-se que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro só não está cumprindo pena por estar foragido.

Ou seja, é literalmente uma família dedicada ao crime e que, infelizmente, corrompeu, no sentido mais literal, a política. A política brasileira tem uma longa tradição de divergências de posicionamento ideológico, como é a regra no mundo todo, mas é o que, na essência, preserva a democracia. A velha dicotomia entre UDN e PSD e, mesmo na ditadura, o embate do MDB com a Arena não chegava ao extremismo da direita de hoje.

Por isso, acostumamo-nos a conviver, em harmonia, com disputas entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, Serra e Dilma, Dilma e Aécio Neves, Lula e Alckmin, e tantos outros. Atores políticos de diferentes espectros, mas que honravam a tradição democrática e respeitavam a Constituição. Com a alternância, o Brasil só revigorava a sua base democrática. Ainda que alguns governos conservadores atrasassem as conquistas sociais, havia respeito às tradições democráticas. E o país se consolidava com esse jogo.

A família Bolsonaro veio para mudar esse padrão. A política foi renegada para um campo inferior. Entraram em jogo a milícia, o uso ostensivo de fake news, os métodos violentos de ataque à democracia –que culminaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro–, a corrupção desenfreada e a ofensiva frontal às relações democráticas e políticas. A posição de se afirmar contra a política é uma tática comum da direita mundial. Fazem política para os incautos afirmando que não são políticos. São mestres na arte de iludir e enganar. Como não têm critérios éticos, é extremamente difícil enfrentá-los em razão da falta absoluta de limites.

É preciso que nós, democratas, enfrentemos esse conflito dentro dos limites constitucionais. Neste momento, o Brasil acompanha, perplexo, um fenômeno em que o grupo bolsonarista de direita se propõe a entregar a soberania brasileira ao governo Trump em troca de um salvo-conduto para a família não ser presa. É algo abjeto, mas encontra algum respaldo em parte da podre elite nacional. É mais do que entregar as terras-raras, o petróleo e as riquezas brasileiras. É entregar a soberania. É abrir mão do Brasil. É uma ousadia nunca vista. Esse grupo, de 4 e com uma humilhante subserviência, se dispõe a aceitar que o país vire um apêndice dos EUA.

A sorte do país é ter na Presidência, neste momento, um político com estatura de estadista, como o presidente Lula. Por isso, ecoou no mundo inteiro, entre os democratas, a posição do presidente brasileiro ao fim da cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França. Lula foi claro e direto em seu recado a Trump, que, levianamente, havia dito que “o Brasil era politicamente perigoso”: “Não se meta nas eleições do Brasil.” E arrematou: “Só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania.”

A posição firme do presidente Lula merece o apoio incondicional da direita e da esquerda. Não se trata de ideologia. É uma questão de honra e de respeito aos princípios básicos da democracia. O problema é que o Lula fala em “código de ética”, e esse é um termo que não existe no mundo sórdido e sujo da direita.

Resta dar uma resposta nas urnas em outubro. Vamos varrer os fascistas da política. A parte mais ostensiva de apoio à democracia é o respeito à Constituição. A PGR e o Supremo já estão fazendo isso ao condenar e mandar para a prisão parte dessa cúpula criminosa. Porém, como são muitos e têm enorme capilaridade, o que tem que prevalecer é a velha e boa política.

Vamos derrotá-los dentro do jogo democrático. Em nome da Constituição e em respeito à soberania nacional. Em última análise: em homenagem ao povo brasileiro.

Remeto-me a Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

Créditos: Kakay Acesse nosso canal no WhatsApp