Créditos: Reprodução / CNN
Presidente da Sanepar diz à CNN que privatizar a empresa não é melhor modelo
Em entrevista à CNN, Wilson Bley afirmou que a estatal apresenta resultados consistentes e que a venda do controle não traria vantagens estruturais permanentes para o Estado
Em meio às discussões sobre privatização, o presidente da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Wilson Bley, afirmou que a venda do controle da empresa não seria a melhor alternativa para o Estado neste momento. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Conexão Infra, da CNN, e ocorre em um contexto de crescente debate sobre o papel das estatais na prestação de serviços essenciais à população.
A fala ganha destaque especialmente porque acontece pouco mais de um ano após a privatização da Copel, uma das maiores empresas públicas do Paraná. Desde a mudança no controle da companhia de energia, o tema das privatizações voltou ao centro das discussões políticas e econômicas do Estado, despertando preocupações entre entidades da sociedade civil, sindicatos, especialistas e parte da população sobre o futuro de outras empresas estratégicas, como a própria Sanepar.
Segundo Bley, a companhia de saneamento vive uma realidade diferente daquela observada em empresas que enfrentam dificuldades financeiras ou operacionais e acabam recorrendo à privatização como alternativa para ampliar investimentos ou reduzir déficits. Para ele, a Sanepar apresenta resultados consistentes, capacidade de investimento e indicadores que demonstram a eficiência do modelo atual.
"Não acho que esse seja o melhor modelo atualmente", afirmou o presidente da estatal ao comentar a possibilidade de privatização.
De acordo com Bley, uma eventual venda do controle da companhia precisaria ser analisada sob diversos aspectos, especialmente em relação aos impactos para a população e para os municípios atendidos. Na avaliação dele, a simples transferência da gestão para a iniciativa privada não garante automaticamente melhorias nos serviços prestados nem representa necessariamente uma vantagem financeira para o Estado.
O dirigente argumentou que a venda de ações ou do controle acionário da empresa poderia gerar uma arrecadação pontual, mas não resolveria questões estruturais nem asseguraria ganhos permanentes para os cofres públicos. Além disso, ressaltou que a Sanepar já possui capacidade própria para captar recursos e realizar investimentos necessários para a expansão dos serviços.
A discussão sobre a privatização da companhia ocorre em um momento em que o saneamento básico é considerado uma das áreas mais estratégicas para o desenvolvimento econômico e social do país. O acesso à água tratada e à coleta de esgoto está diretamente relacionado à saúde pública, à preservação ambiental e à qualidade de vida da população.
Nos últimos anos, diversos estados brasileiros avançaram em processos de privatização ou abertura de capital de empresas de saneamento. Casos como os de São Paulo e Minas Gerais passaram a ser frequentemente utilizados como referência por defensores e críticos da desestatização. Enquanto alguns setores argumentam que a participação da iniciativa privada pode acelerar investimentos e ampliar a cobertura dos serviços, outros alertam para possíveis impactos tarifários e para a perda de controle público sobre um serviço considerado essencial.
Ao defender a manutenção da Sanepar sob controle estatal, Wilson Bley destacou que cada estado possui características próprias e que modelos adotados em outras regiões não podem ser simplesmente replicados no Paraná.
"A cada doença, um remédio. O remédio aplicado em outros lugares não é necessariamente o mais eficiente para o Paraná", declarou.
A comparação feita pelo presidente da companhia busca reforçar a ideia de que decisões sobre privatização devem levar em consideração fatores locais, como a situação financeira da empresa, os índices de atendimento à população, a capacidade de investimento e os objetivos de longo prazo para o setor.
A posição de Bley também se apoia nos indicadores apresentados pela própria Sanepar. Segundo dados da companhia, o Paraná alcançou 99% de cobertura de abastecimento de água ainda em 2008, índice considerado um dos mais elevados do país. Atualmente, cerca de 83% da população atendida possui acesso à coleta de esgoto, percentual superior à média nacional.
Além disso, a empresa afirma que todo o esgoto coletado em sua área de atuação recebe tratamento adequado antes de ser devolvido ao meio ambiente. O dado é frequentemente utilizado pela companhia para demonstrar a eficiência do sistema implantado no Estado e os avanços obtidos ao longo das últimas décadas.
Os números ganham ainda mais relevância quando comparados ao cenário nacional. Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos na área de saneamento básico. Dados do setor apontam que mais de 43% da população brasileira não possui acesso à coleta de esgoto, enquanto milhões de pessoas ainda convivem com problemas relacionados ao abastecimento de água e à falta de infraestrutura sanitária.
Nesse contexto, a Sanepar afirma estar trabalhando para antecipar as metas estabelecidas pelo novo marco legal do saneamento. A legislação federal prevê a universalização dos serviços até 2033, mas a companhia paranaense projeta atingir esse objetivo até 2029, quatro anos antes do prazo nacional.
Para alcançar essa meta, a empresa vem realizando investimentos em ampliação de redes de distribuição de água, sistemas de coleta e tratamento de esgoto, além da modernização de estruturas operacionais em diversas regiões do Estado. A expectativa é ampliar o atendimento principalmente em municípios menores e áreas que ainda apresentam déficits de cobertura.
Outro argumento utilizado por defensores da manutenção da empresa sob controle público é o papel estratégico desempenhado pela Sanepar no planejamento de longo prazo do saneamento paranaense. Como estatal, a companhia pode direcionar investimentos para regiões menos rentáveis economicamente, mas que possuem importância social e ambiental para o desenvolvimento do Estado.
A discussão também ocorre em meio às repercussões da privatização da Copel. Desde a conclusão do processo, consumidores, produtores rurais e representantes de setores produtivos têm manifestado críticas relacionadas ao fornecimento de energia, ao atendimento e aos reajustes tarifários. Embora os contextos dos setores de energia e saneamento sejam distintos, o debate sobre os efeitos da privatização de serviços essenciais passou a influenciar as análises sobre o futuro de outras empresas públicas.
Por enquanto, entretanto, a direção da companhia mantém posição contrária à venda do controle acionário. As declarações de Wilson Bley reforçam o entendimento de que a Sanepar possui condições de continuar expandindo suas operações e cumprindo as metas de universalização do saneamento mantendo sua estrutura atual.
