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Rádios, poder e velhos laços: as conexões do presidente da AERP com o grupo de Ratinho Junior

Relações de Rodrigo Martinez com o núcleo político que governa o Paraná atravessam gerações. Pai do dirigente abriu espaço para Ratinho na televisão e comandou o partido pelo qual ele se elegeu deputado. Hoje, à frente da entidade que reúne centenas de emissoras, Martinez diz que as rádios são “bem tratadas” e defende: “Nós não podemos mudar de rumo”

Por Gazeta do Paraná

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Rádios, poder e velhos laços: as conexões do presidente da AERP com o grupo de Ratinho Junior Créditos: Reprodução redes sociais

“Nós não podemos mudar de rumo.” A frase é de Rodrigo Martinez, presidente da Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (AERP), entidade que reúne centenas de emissoras de rádio e televisão no Estado. Ao lado de personagens ligados ao núcleo político que governa o Paraná, Martinez afirmou que as rádios paranaenses estão sendo “bem tratadas” e defendeu a continuidade de quem, nas palavras dele, “cuida bem das rádios”. “Time que tá ganhando não se mexe”, completou.

A declaração ganha outra dimensão quando inserida na história das relações pessoais, empresariais e políticas que cercam o atual presidente da AERP. Levantamento da Gazeta do Paraná mostra que os laços de Martinez com integrantes do grupo de Ratinho Junior não nasceram com a chegada do governador ao Palácio Iguaçu, tampouco começaram quando Rodrigo assumiu o comando da associação, em fevereiro de 2025. Eles atravessam gerações e remontam à trajetória de José Carlos Martinez, pai de Rodrigo, empresário de comunicação e político que teve participação importante no início das carreiras televisiva e política de Carlos Massa, o Ratinho.

Na geração seguinte, as relações permaneceram. Rodrigo Martinez afirma que foi “criado junto” com Ratinho Junior. Santin Roveda, então presidente do Detran-PR, chama Martinez publicamente de amigo e recupera uma ligação política entre seus pais. Sandro Alex, candidato ao Governo apoiado por Ratinho Junior, também se refere ao presidente da AERP como “meu amigo”. São relações que hoje se encontram em posições estratégicas da política, da administração estadual e da radiodifusão paranaense.

 

Gratidão eterna

O próprio Rodrigo Martinez ajuda a reconstruir a origem dessa história. Em uma fala pública, ao se dirigir ao apresentador Ratinho, Martinez recordou a relação do comunicador com seu pai e foi enfático ao descrever o vínculo entre as famílias. “Esse cara aqui eu devo gratidão eterna a ele”, afirmou. Na sequência, lembrou que Ratinho havia sido “um dos maiores amigos” de José Carlos Martinez e repetiu: “Tenho gratidão eterna a você”.

A relação tinha componentes pessoais, empresariais e políticos. Ratinho passou pela estrutura de comunicação comandada pela família Martinez durante sua ascensão profissional. No final dos anos 1980, ingressou na televisão pelas Organizações Martinez, a OM, grupo que posteriormente daria origem à Rede CNT. Em 1989, começou a trabalhar como repórter policial do programa “Cadeia”, exibido pela emissora de José Carlos Martinez.

Os caminhos também se cruzaram na política. Em 1990, Ratinho disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PRN, partido que naquele período tinha José Carlos Martinez como uma de suas principais lideranças no Paraná. Ratinho foi eleito deputado federal e iniciou a carreira política que antecedeu sua projeção nacional como apresentador de televisão.

Décadas depois, é o filho de José Carlos Martinez quem ocupa a vice-presidência da Rede CNT e a presidência da principal entidade representativa das emissoras paranaenses. E é o filho de Ratinho quem ocupa o Palácio Iguaçu.

 

“Criados juntos”

Na mesma fala em que declarou sua gratidão ao apresentador, Rodrigo Martinez passou da geração dos pais para a dos filhos. Ao mencionar Ratinho Junior afirmou: “Nós fomos tudo criado junto. Tudo criado junto” (sic).

Hoje, os três ocupam posições de grande influência no Paraná. Ratinho Junior governa o Estado. Rodrigo Martinez comanda uma associação que articula centenas de empresas privadas de comunicação e atua como interlocutora do setor de radiodifusão perante o poder público.

Foi nesse contexto que Martinez fez uma das declarações mais significativas encontradas pela reportagem. Ao falar sobre a situação das emissoras, invocou expressamente a dimensão da associação que preside. “Eu sei porque eu tô na associação com 340 rádios. O Paraná nunca teve tão bem tratado pela Assembleia e pelo Governo de Estado”, afirmou.

Na sequência, o presidente da AERP avançou da avaliação sobre o tratamento dispensado às emissoras para uma defesa explícita de continuidade. “Nós também não podemos mudar de rumo não. Nós não podemos mudar de rumo. O Paraná, as rádios do Paraná estão sendo bem tratadas, e nós temos que continuar com os caras que cuidam bem das rádios, e com o cara que é do nosso meio também. Então não vamos mudar nada, vamos continuar no que tá certo, porque time que tá ganhando não se mexe.”

A fala coloca em palavras aquilo que os registros de encontros e agendas institucionais já demonstravam: existe uma relação próxima entre o atual comando da AERP e figuras centrais do grupo político que governa o Paraná.

 

Ratinho na posse

A chegada de Rodrigo Martinez à presidência da AERP, em fevereiro de 2025, também foi cercada por algumas das principais figuras do poder estadual. Martinez havia encabeçado a única chapa inscrita para comandar a associação e assumiu a entidade para um novo mandato à frente dos radiodifusores.

Ratinho Junior participou pessoalmente da cerimônia de posse. O evento contou ainda com autoridades como o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, e Alexandre Curi. O governador discursou sobre a importância da radiodifusão e destacou o papel desempenhado pela associação no Paraná.

Ratinho Junior também saiu da solenidade homenageado. Recebeu a medalha Guardião da AERP, distinção concedida pela entidade a personalidades reconhecidas por sua atuação em favor da radiodifusão. O episódio repetia uma relação já existente com a geração anterior da família Massa: Carlos Massa, o Ratinho, também havia recebido a homenagem da associação.

Pouco mais de um ano depois, em abril de 2026, o governador esteve na sede da AERP, em Curitiba, para uma reunião conduzida por Rodrigo Martinez. O encontro reuniu dirigentes e representantes do setor e contou também com a presença do secretário estadual da Comunicação, Cleber Mata. A própria associação apresentou a agenda como um reforço da parceria entre o Governo do Estado e a radiodifusão paranaense.


Família Massa

Os vínculos entre as duas famílias não se resumem às relações pessoais entre Ratinho, José Carlos Martinez, Rodrigo e Ratinho Junior. A família do governador também está diretamente inserida no mercado representado pela associação.

O Grupo Massa, responsável pela Rede Massa e ligado à família de Carlos Massa, participa do ambiente institucional da AERP. Na atual composição da entidade, Luiz Antônio Benzoni Benite, da Rede Massa, integra a Diretoria de Comunicação da associação. Ao mesmo tempo, a direção reúne representantes de diferentes empresas e grupos do setor, e Rodrigo Martinez está ligado à Rede CNT.

Não há registro encontrado pela reportagem que estabeleça parentesco entre a família de Rodrigo Martinez e Solange Martinez Massa, mãe do governador, apesar da coincidência dos sobrenomes. Os registros genealógicos consultados apontam linhagens distintas. A ligação documentada entre as famílias é outra e mais antiga: passa pela amizade entre José Carlos Martinez e Ratinho, pela televisão, pela política e chega agora à geração dos filhos.

 

Velhos laços

A rede de relações alcança também Santin Roveda, atual presidente do Detran-PR. Em uma publicação feita durante visita à sede da CNT, Roveda chamou Rodrigo Martinez de “meu amigo Rodrigo” e mostrou um antigo calendário que registrava seu pai, Airton Roveda, ao lado de José Carlos Martinez e Ratinho.

Santin explicou no próprio vídeo a origem política da relação. Segundo ele, José Carlos Martinez levou seu pai para o partido pelo qual Airton Roveda se elegeu no final dos anos 1990. Após a morte de Martinez em um acidente, Airton, então suplente, assumiu a cadeira na Câmara dos Deputados. “Então tem essa ligação histórica”, resumiu Santin.

A fotografia antiga recuperada pelos filhos ajuda a revelar uma relação que atravessou gerações. José Carlos Martinez, Airton Roveda e Ratinho aparecem no passado. Hoje, Rodrigo Martinez preside a AERP, Santin Roveda comandava o Detran e Ratinho Junior governa o Paraná.

Os caminhos não se encontram apenas socialmente. O Detran presidido por Roveda mantém atualmente uma relação institucional com a AERP comandada por Martinez. Os detalhes financeiros dessa operação, entretanto, fazem parte da segunda reportagem desta série.


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“Meu amigo Rodrigo”

Sandro Alex também aparece nessa rede de relações. Em fevereiro de 2025, ao participar da posse do presidente da AERP, publicou fotografias da solenidade e registrou a proximidade entre os dois: “Posse do meu amigo Rodrigo Martinez como presidente da AERP Associação Emissoras de Radiodifusão do Paraná! Desejo sucesso a toda diretoria!”.

A amizade declarada se soma a uma interlocução institucional anterior. Em julho de 2024, quando comandava a Secretaria de Infraestrutura e Logística, Sandro concedeu entrevista exclusiva à Rede AERP para apresentar obras e investimentos do governo Ratinho Junior. O material produzido pela associação destacou R$ 10 bilhões em obras em andamento no Estado.

Em 2026, Sandro voltou à sede da entidade, desta vez inserido diretamente na sucessão estadual. A AERP promoveu encontros com pré-candidatos ao Governo e recebeu também outros nomes colocados na disputa pelo Palácio Iguaçu, entre eles Sergio Moro, Requião Filho e Rafael Greca. A agenda com diferentes candidaturas demonstra o peso conquistado pela associação como interlocutora do setor. No caso de Sandro, porém, os registros mostram uma relação que antecede a atual campanha e inclui amizade declarada com o presidente da entidade.

 

O peso das rádios

A posição ocupada pela AERP ajuda a explicar por que seus espaços são frequentados por governadores, secretários, parlamentares e candidatos. A associação reúne centenas de emissoras capazes de alcançar praticamente todas as regiões do Paraná, inclusive municípios onde o rádio permanece como um dos principais meios de comunicação local.

Esse alcance dá à entidade uma capacidade de articulação que ultrapassa a defesa corporativa dos radiodifusores. Ao reunir proprietários e executivos de centenas de veículos, a AERP se transforma em um ponto estratégico de interlocução entre comunicação e política.

É nesse contexto que ganha ainda mais peso a fala de Rodrigo Martinez sobre a continuidade do atual rumo político. Não se tratava apenas de um empresário do setor elogiando o Governo. Martinez fez questão de invocar sua posição à frente de uma associação com “340 rádios” para afirmar que as emissoras estão sendo bem tratadas pelo Governo e pela Assembleia.

Na mesma manifestação, ele relacionou diretamente recursos destinados à comunicação e o papel fiscalizador das emissoras. Ao defender que o rádio tem o dever de fiscalizar o poder público, Martinez falou em “um governo que é sério, uma Assembleia que é séria, que põe dinheiro na comunicação para a comunicação fiscalizar”.

 

Poder e dinheiro

É justamente o dinheiro mencionado pelo próprio presidente da AERP que abre a segunda dimensão desta investigação. A entidade comandada por Martinez não se limita a representar politicamente as emissoras, organizar encontros com autoridades ou distribuir conteúdo entre suas associadas. Seu estatuto também permite que a AERP participe da administração e do repasse de verbas publicitárias destinadas às rádios.

É nesse ponto que as relações reconstruídas nesta reportagem ganham uma nova camada. De um lado estão amizades declaradas, vínculos históricos entre famílias, homenagens, reuniões e interlocução direta com integrantes do Governo. Do outro está uma entidade que ocupa posição estratégica na engrenagem econômica da radiodifusão paranaense.

A proximidade documentada não é, isoladamente, prova de favorecimento. Mas torna ainda mais relevante abrir uma conta que até agora permanece pouco visível ao público: quanto dinheiro do Estado passa por operações envolvendo a AERP, o que a associação recebe para administrar esses recursos e quanto efetivamente chega às emissoras.

É justamente essa conta que a Gazeta do Paraná abre na segunda reportagem desta série. O próximo capítulo mostra os contratos, convênios e pagamentos envolvendo estruturas do Governo e a AERP e investiga o que a entidade ganha ao ocupar uma posição intermediária no caminho do dinheiro destinado às rádios.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp