Prévia do PIB confirma retração do agro enquanto setor enfrenta entraves na renegociação de dívidas
Com queda de 1,2% no IBC-Br de julho, agronegócio acumula recuo no trimestre; FPA aponta burocracia na MP 1.376/26 e alerta para inadimplência recorde e incertezas no Seguro Rural
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O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de julho, divulgado na última quarta-feira (16), apontou uma retração de 0,2% na economia brasileira. Considerado a prévia do Produto Interno Bruto (PIB), o indicador foi impulsionado para baixo principalmente pelo desempenho do setor agropecuário, que registrou queda de 1,2% no mês.
O cenário desfavorável se consolida no acumulado do trimestre encostado (maio a julho), período em que a atividade econômica geral recuou 0,3% em relação ao trimestre anterior (fevereiro a abril). Na mesma janela comparativa, o agro teve uma contração de 0,6% — o pior resultado entre os grandes setores da economia, ficando atrás da indústria e do segmento de serviços. Embora apresente um escopo mais restrito de análise que o PIB oficial do IBGE, o IBC-Br é utilizado pelo Banco Central como um termômetro de curto prazo para mensurar o ritmo da atividade e subsidiar decisões de política monetária, como a definição da taxa Selic.
Lentidão na renegociação e gargalos de crédito
O esfriamento da atividade agropecuária coincide com um período de forte incerteza financeira no campo. Entidades representativas do setor criticam a execução da Medida Provisória 1.376/2026, criada para renegociar débitos rurais, mas que vem enfrentando entraves práticos na ponta.
Em carta aberta, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) destacou burocracias que impedem os produtores de acessar as linhas de repactuação. Dentre os gargalos apontados pela bancada estão:
-Exigência de laudos agronômicos para comprovar perdas passadas;
- Custos operacionais adicionais e exigência de revisão de garantias;
-Cobrança de valores de entrada de produtores sem liquidez imediata;
- Restrições cadastrais que ameaçam o financiamento da próxima safra.
A urgência por soluções é reforçada pelos números do próprio Banco Central. Em julho, a carteira de crédito rural somava R$ 881,7 bilhões, dos quais R$ 207,4 bilhões (23,5%) pertenciam a operações classificadas como problemáticas (prorrogadas, renegociadas ou em atraso). Apenas a taxa de inadimplência direta atingiu R$ 45,8 bilhões, o patamar mais elevado registrado nas últimas safras.
Em avaliação do quadro atual, a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), classificou a situação como uma "tempestade perfeita". A parlamentar enfatizou que o setor sofre com custos de produção elevados, juros altos e desvalorização cambial. "Plantamos a safra com o dólar a R$ 6,00 e hoje ele está em R$ 5,20, o que gera prejuízo direto ao produtor, cuja receita é atrelada à moeda americana", pontuou a senadora, citando ainda a desaceleração na venda de máquinas agrícolas e insumos, além do aumento nos pedidos de recuperação judicial.
Desafios orçamentários no Seguro Rural
Diante do endividamento, a FPA defende o fortalecimento do Seguro Rural como mecanismo de mitigação de riscos. Contudo, as projeções orçamentárias continuam a gerar apreensão. O Projeto de Lei Orçamentária para 2027 prevê R$ 1,2 bilhão para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), mas mais de 70% dessa quantia depende de receitas extraordinárias ou aprovações orçamentárias complementares.
O cenário repete a instabilidade verificada nos anos anteriores:
- 2025: Dos R$ 1,06 bilhão previstos, apenas R$ 581 milhões foram efetivamente executados;
- 2026: Bloqueios governamentais reduziram a dotação de R$ 1,01 bilhão para R$ 473,8 milhões disponíveis.
Essa limitação reflete-se na baixa cobertura nacional. Segundo o vice-presidente da FPA, senador Jaime Bagattoli (PL-RO), em 2025 menos de 3,5% da área plantada no Brasil contava com proteção de seguro em contraste com os Estados Unidos, onde a cobertura alcança 90% da área agrícola.
Como alternativa para estruturar o sistema de proteção no país, o setor aposta no Projeto de Lei 2.951/2024, de autoria da FPA, que prevê a modernização do Seguro Rural e a regulamentação do Fundo de Catástrofes. O texto foi aprovado pelo Senado Federal e segue no aguardo da sanção presidencial.
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