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Recuperação bilionária expõe passado controverso da Tradener e levanta dúvidas sobre contrato de R$ 178 milhões com a Sanepar

Única empresa a participar da licitação que atende 838 unidades da estatal entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 1,7 bilhão; companhia já foi alvo de ações do Ministério Público, debates no Senado e análises de órgãos de controle

Por Gazeta do Paraná

Recuperação bilionária expõe passado controverso da Tradener e levanta dúvidas sobre contrato de R$ 178 milhões com a Sanepar Créditos: Divulgação

A recuperação judicial de aproximadamente R$ 1,7 bilhão da Tradener não expõe apenas a crise financeira de uma das mais antigas comercializadoras de energia do país. Ela também traz novamente à tona uma trajetória empresarial que, ao longo de mais de duas décadas, atravessou investigações do Ministério Público, ações judiciais envolvendo o setor elétrico, questionamentos políticos no Senado Federal e análises de órgãos de controle. Agora, o colapso da empresa atinge diretamente a Sanepar.

Responsável por cerca de um terço da energia consumida pela companhia de saneamento, a Tradener pediu a rescisão do contrato firmado com a estatal após ingressar em recuperação judicial. O acordo, assinado após licitação realizada em 2023, tem valor de R$ 178,5 milhões e envolve o fornecimento de energia para 838 unidades consumidoras espalhadas pelo Paraná.

O caso abre uma pergunta inevitável: como uma empresa que hoje admite um passivo bilionário foi considerada apta para assumir um dos maiores contratos energéticos da história recente da Sanepar?

 

Licitação sem concorrência

Os documentos da própria Sanepar revelam um detalhe que chama atenção. A Tradener foi a única participante do Pregão Eletrônico nº 1594/2023. Não houve disputa efetiva entre concorrentes. A empresa apresentou proposta e saiu vencedora do certame. Ao final do processo, recebeu a adjudicação de um contrato de R$ 178.528.609,80, exatamente o valor máximo previsto pela estatal para a contratação.  

O objetivo era ambicioso: migrar 838 unidades consumidoras da Sanepar para o mercado livre de energia, reduzindo custos e aumentando a previsibilidade das despesas energéticas da companhia.   Pouco mais de um ano depois, a fornecedora entrou em recuperação judicial.

 

Uma empresa cercada por controvérsias há mais de duas décadas

Embora a atual crise tenha origem declaradamente financeira, a Tradener não é uma empresa desconhecida dos órgãos de fiscalização e do meio político.

Em 2001, seu nome já aparecia em debates realizados no Senado Federal. Parlamentares questionavam operações envolvendo a comercialização de energia elétrica e discutiam a relação da empresa com o processo de abertura do mercado energético brasileiro.

Na época, a Tradener era apresentada como uma das primeiras comercializadoras privadas de energia do país e sua proximidade com ex-dirigentes da Copel despertava atenção política. Anos depois, a companhia voltaria ao centro de controvérsias.

Em 2004, o Ministério Público do Paraná ajuizou ação civil pública envolvendo operações ligadas ao setor elétrico e à venda de ações da Copel. A Tradener figurava entre os citados no processo. As acusações foram contestadas pelos envolvidos e a existência da ação não implica condenação.

Posteriormente, novas ações de improbidade administrativa relacionadas ao setor energético voltariam a mencionar a empresa e agentes públicos que atuavam no mercado de energia.

Ao longo dos anos, o nome da Tradener também apareceu em análises e procedimentos acompanhados pelo Tribunal de Contas do Estado.

Nada disso, por si só, comprova irregularidade atual. Mas demonstra que a empresa que hoje pede recuperação judicial e rompe contrato com a Sanepar não surge do nada. Trata-se de uma companhia cuja trajetória há décadas desperta interesse de órgãos de controle, do Ministério Público e do meio político.

 

Os homens por trás da empresa

Os controladores da Tradener também possuem histórico relevante no cenário empresarial paranaense. Um dos principais nomes do grupo é Walfrido Victorino Avila, ex-funcionário da Copel e figura histórica do mercado livre de energia.

Outro administrador é Carlos Frederico Gulin, integrante de uma das mais tradicionais famílias empresariais do Paraná, conhecida pela atuação no setor de transporte coletivo. O sobrenome Gulin também apareceu em investigações relacionadas a licitações de transporte urbano em diferentes cidades brasileiras. Em reportagens nacionais, Carlos Frederico Gulin foi citado em apurações envolvendo grupos empresariais do setor. Os investigados sempre negaram irregularidades.

Novamente, não há relação conhecida entre esses episódios e a atual recuperação judicial da Tradener. Mas eles ajudam a demonstrar que os personagens centrais dessa história já circularam por alguns dos mais relevantes embates empresariais e políticos do estado.

 

O ponto que mais incomoda

Talvez a questão mais delicada nem esteja na recuperação judicial. O que chama atenção é que a própria Sanepar possui normas rígidas para avaliação financeira de seus fornecedores.

Os critérios incluem análise de liquidez corrente, liquidez geral, endividamento e patrimônio líquido justamente para evitar que empresas sem capacidade financeira assumam contratos estratégicos.  

A resolução interna afirma expressamente que o objetivo é garantir a saúde financeira das contratadas e reduzir riscos para a companhia.  

Diante disso, a pergunta que permanece sem resposta é desconfortável: Quais indicadores econômicos a Tradener apresentou para ser habilitada? Os balanços já demonstravam sinais de fragilidade? A Sanepar identificou algum risco durante a análise? Quando a estatal tomou conhecimento da deterioração financeira da empresa? Havia mecanismos de monitoramento durante a execução contratual?

 

O problema agora é da Sanepar

Enquanto a recuperação judicial será discutida nos tribunais e entre credores, a consequência prática já chegou à porta da companhia de saneamento.

A saída da Tradener obriga a Sanepar a buscar novas fontes de fornecimento de energia para centenas de unidades operacionais espalhadas pelo Paraná.

O custo dessa substituição ainda não foi divulgado. Também não foram informados os impactos financeiros decorrentes da contratação emergencial nem eventuais garantias que possam ser executadas pela estatal.

O fato é que uma empresa que durante décadas participou da construção do mercado livre de energia brasileiro, que atravessou debates políticos, ações judiciais e processos de fiscalização, chega agora ao momento mais delicado de sua história.

E junto com ela surge uma pergunta que dificilmente deixará de ser feita nos próximos meses:

como uma companhia que hoje admite uma dívida de R$ 1,7 bilhão se tornou responsável por um dos contratos energéticos mais estratégicos da Sanepar?

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp