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Plataformas seguem oferecendo CDBs do Digimais no mercado secundário mesmo após operação da PF
Títulos do banco ligado ao bispo Edir Macedo continuam disponíveis em corretoras e bancos de investimento, com rentabilidade de até 135% do CDI e cobertura do FGC para aplicações de até R$ 250 mil
As principais plataformas de investimentos do país continuam oferecendo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo Banco Digimais, instituição ligada ao bispo Edir Macedo, mesmo após a operação da Polícia Federal que apura supostas irregularidades financeiras envolvendo o banco. As ofertas, no entanto, ocorrem exclusivamente no mercado secundário, onde investidores negociam títulos adquiridos anteriormente.
Atualmente, Itaú, XP Investimentos, BTG Pactual e Ágora, corretora do Bradesco, disponibilizam papéis do Digimais com rentabilidade que pode chegar a 135% do CDI. Nessas operações, o dinheiro não é destinado ao banco emissor, mas ao investidor que decidiu vender o título antes do vencimento.
Já os aplicativos do Nubank e do Inter, que também atuaram como distribuidores de produtos do Digimais no passado, não apresentavam ofertas desses CDBs durante consulta realizada às plataformas.
Os títulos continuam sendo comercializados com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante aplicações de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, dentro dos limites estabelecidos pelo fundo.
Classificação de risco varia entre as plataformas
Embora permaneçam disponíveis para negociação, a maior parte das instituições financeiras classifica os CDBs do Digimais como investimentos de risco elevado. A única exceção é o BTG Pactual, que mantém classificação de risco moderado para os papéis disponibilizados em sua plataforma.
A manutenção dessas ofertas ocorre poucos dias depois de o Digimais ser alvo de uma operação da Polícia Federal. As investigações apontam indícios de práticas financeiras semelhantes às atribuídas ao Banco Master, incluindo suposta manipulação de balanços para elevar artificialmente ativos e ocultar do Banco Central a real situação patrimonial da instituição.
Mercado secundário pode ampliar exposição do FGC
Especialistas ouvidos pelo mercado avaliam que, embora a negociação aconteça entre investidores, a comercialização desses títulos pode aumentar a exposição do Fundo Garantidor de Créditos em um eventual processo de intervenção ou liquidação do banco.
Isso acontece porque a garantia do FGC é calculada individualmente por CPF. Assim, um título pertencente a um investidor que já ultrapassou o limite de cobertura pode ser vendido para outro aplicador que ainda tenha direito à garantia integral, ampliando o valor potencialmente protegido pelo fundo.
Segundo dados do próprio banco, o Digimais possui aproximadamente R$ 8,5 bilhões captados por meio de CDBs e um passivo total estimado em R$ 9,2 bilhões.
Distribuição primária foi encerrada
As instituições que distribuíram os produtos do Digimais afirmam que deixaram de oferecer novas emissões antes da atual crise.
O BTG Pactual, que chegou a concentrar cerca de 25% dos CDBs emitidos pelo banco, encerrou a distribuição primária em 24 de junho, mesma data da operação da Polícia Federal. Desde então, a plataforma passou a disponibilizar apenas títulos colocados à venda por clientes. A instituição não comentou os critérios utilizados para manter a classificação de risco moderado.
A XP informou que interrompeu a distribuição primária dos papéis em novembro de 2025. Em nota, afirmou que as negociações atuais ocorrem exclusivamente no mercado secundário, onde investidores negociam diretamente entre si e as taxas são definidas pelas condições de oferta e demanda.
O Itaú Unibanco informou que comercializou CDBs do Digimais entre agosto de 2024 e março de 2025. Segundo o banco, a distribuição foi encerrada após sistemas internos de monitoramento identificarem movimentações na estrutura financeira da instituição que elevaram os alertas de risco.
A Ágora, corretora vinculada ao Bradesco, foi procurada, mas preferiu não comentar o assunto.
Banco negocia venda após pressão do Banco Central
Enquanto enfrenta o avanço das investigações e a pressão dos órgãos reguladores, o Digimais busca um comprador para evitar uma eventual liquidação.
O BTG Pactual chegou a formalizar interesse na aquisição da instituição em abril. Segundo informações publicadas pelo Valor Econômico, o Banco Safra também analisa a possibilidade de apresentar proposta.
Entre os ativos considerados atrativos pelos potenciais interessados está um crédito tributário estimado em cerca de R$ 3 bilhões, que pode representar vantagem financeira em uma eventual aquisição.
Como funciona o mercado secundário de CDBs
No mercado secundário, o investidor que comprou um CDB no momento da emissão pode vender o título antes do vencimento.
Nesse processo, a corretora atua como intermediária da operação. Ela recompra o papel do investidor, normalmente aplicando um deságio, mecanismo que permite antecipar a liquidez ao vendedor.
Após adquirir o título, a instituição financeira passa a disponibilizá-lo em sua plataforma para novos investidores interessados. Dessa forma, a negociação ocorre entre particulares, sem que novos recursos sejam direcionados ao banco emissor do CDB.
