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Sanções dos EUA contra brasileiros ligados ao PCC ampliam pressão internacional sobre facção, diz especialista
Especialista afirma que medidas dos Estados Unidos contra investigados por ligação com o PCC reforçam o combate internacional ao crime organizado e ampliam o isolamento financeiro
As sanções anunciadas pelos Estados Unidos contra brasileiros e empresas investigados por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) representam um novo capítulo no enfrentamento internacional ao crime organizado. Na avaliação do advogado especialista em organizações criminosas William Pimentel, a decisão demonstra que facções brasileiras passaram a ser tratadas como ameaças transnacionais, o que tende a ampliar a cooperação entre autoridades e fortalecer o combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento das organizações criminosas.
O governo norte-americano anunciou medidas que incluem bloqueio de ativos sob sua jurisdição, restrições financeiras e proibição de transações envolvendo pessoas e empresas dos Estados Unidos. Embora tenham efeito direto no sistema financeiro americano, as sanções também produzem reflexos em escala global.
Segundo Pimentel, o impacto vai além da perda de patrimônio.
"Na prática, ser alvo de sanções dos Estados Unidos significa ser inserido em um regime de isolamento financeiro internacional. O efeito mais relevante não é apenas patrimonial, mas sistêmico. O sancionado passa a ser considerado um agente de alto risco para o mercado financeiro global, comprometendo movimentações bancárias, operações em dólar, relações comerciais e qualquer cadeia econômica que dependa de instituições expostas ao sistema financeiro dos Estados Unidos", explica.
Na avaliação do especialista, a decisão também sinaliza uma mudança na forma como o governo americano enxerga as facções brasileiras.
"Os Estados Unidos passaram a enxergar determinadas facções brasileiras não apenas como organizações criminosas locais, mas como ameaças transnacionais, com impacto sobre narcotráfico, lavagem de dinheiro, comércio internacional, corrupção, criptoativos e segurança regional", afirma.
Para ele, essa mudança desloca o combate às facções de uma perspectiva exclusivamente policial para uma estratégia internacional de segurança.
"O PCC deixa de ser visto apenas como uma facção prisional ou uma organização criminosa brasileira e passa a ser observado como uma estrutura com capacidade de movimentar recursos, influenciar territórios, intimidar instituições e operar além das fronteiras nacionais."
Cooperação entre Brasil e Estados Unidos deve aumentar
A tendência, segundo o advogado, é de ampliação da cooperação entre órgãos brasileiros e norte-americanos, principalmente nas áreas de inteligência financeira e rastreamento de patrimônio.
Entre as frentes que podem ganhar mais integração estão o combate à lavagem de dinheiro, ao tráfico internacional de drogas e armas, à movimentação de recursos por meio de criptomoedas e à identificação de beneficiários finais de empresas utilizadas para ocultação patrimonial.
Pimentel cita que instituições como Polícia Federal, Ministério Público, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Receita Federal e Banco Central podem atuar de forma mais próxima de órgãos americanos como o Departamento de Justiça, FBI, DEA, OFAC e FinCEN.
Ele ressalta, no entanto, que essa cooperação possui limites jurídicos.
"Provas, quebras de sigilo, bloqueios, prisões e compartilhamento de dados precisam observar a Constituição Federal, o Código de Processo Penal, a legislação de proteção de dados e os tratados internacionais. Cooperação internacional não pode ser convertida em atalho probatório."
Sanções atingem o fluxo financeiro das organizações
Para o especialista, medidas econômicas podem enfraquecer financeiramente organizações criminosas, desde que estejam acompanhadas de investigações patrimoniais consistentes.
"Sanções, isoladamente, não desmontam uma organização criminosa. Mas podem dificultar o acesso a bancos, empresas de fachada, operadores financeiros, moedas estrangeiras, comércio exterior, criptoativos e estruturas utilizadas para lavagem de dinheiro", afirma.
Segundo ele, o principal objetivo deve ser interromper a circulação dos recursos ilícitos.
"Facções não sobrevivem apenas pela força armada. Elas sobrevivem pelo dinheiro, pela logística, pela corrupção, pelas empresas interpostas e pelos profissionais que viabilizam a circulação desses recursos."
Nesse contexto, bloqueio de ativos, confisco de bens, rastreamento de beneficiários finais e responsabilização dos facilitadores financeiros passam a ser instrumentos estratégicos para reduzir a capacidade operacional das organizações criminosas.
Investigações internacionais enfrentam desafios jurídicos
As investigações envolvendo diferentes países também trazem desafios legais. De acordo com Pimentel, é necessário compatibilizar sistemas jurídicos distintos sem violar garantias fundamentais previstas na legislação brasileira.
Entre os principais pontos estão questões relacionadas à jurisdição, validade de provas produzidas no exterior, dupla incriminação, proteção de dados, sigilo bancário, cadeia de custódia digital, extradição e bloqueio internacional de bens.
"No Brasil, qualquer prova estrangeira precisa ser compatível com a ordem constitucional brasileira. Não basta que tenha sido obtida validamente no exterior. Ela também não pode afrontar direitos fundamentais, o contraditório, a ampla defesa, o devido processo legal e a reserva de jurisdição", destaca.
Criptomoedas ampliam a complexidade das investigações
O uso de criptomoedas pelo crime organizado também representa um desafio crescente para os órgãos de investigação, especialmente quando há utilização de carteiras sem identificação, plataformas sem controle regulatório, mixers, bridges, moedas voltadas à privacidade e operações realizadas em países com baixa fiscalização.
Apesar disso, o advogado afirma que os ativos digitais não garantem anonimato absoluto.
"Muitas blockchains públicas deixam rastros permanentes. O grande desafio é transformar esse rastro tecnológico em prova juridicamente válida, demonstrando quem controlava a carteira, qual era a origem dos valores, qual foi o caminho percorrido e qual o vínculo com a atividade criminosa."
Segundo ele, quando há técnica especializada, cooperação internacional e preservação adequada da cadeia de custódia digital, as transações em criptomoedas também podem servir como importante fonte de prova.
Debate pode influenciar futuras políticas criminais
Na avaliação de Pimentel, as sanções adotadas pelos Estados Unidos podem influenciar o Brasil a fortalecer políticas públicas voltadas ao combate financeiro das organizações criminosas, priorizando inteligência patrimonial, confisco de ativos, cooperação internacional, enfrentamento à lavagem de dinheiro e fiscalização sobre operações com criptoativos.
Ao mesmo tempo, ele alerta para a necessidade de preservar os princípios constitucionais do direito penal brasileiro.
"O Brasil não deve importar automaticamente a categoria norte-americana de terrorismo. O Direito Penal brasileiro exige legalidade estrita, tipicidade, finalidade específica e prova judicial. Nem todo crime organizado é terrorismo."
Para o especialista, também não é possível ignorar a capacidade de atuação das facções.
"Determinadas organizações criminosas já funcionam como estruturas de poder irregular. Elas controlam territórios, movimentam recursos transnacionais, corrompem agentes públicos, infiltram atividades econômicas e intimidam o Estado."
Segundo ele, o enfrentamento ao crime organizado deve combinar rigor jurídico com inteligência financeira.
"O Brasil precisa abandonar tanto o negacionismo, que subestima a gravidade do fenômeno, quanto o punitivismo improvisado, baseado apenas em endurecimento retórico. A resposta mais eficaz deve ser constitucional, técnica, financeira e estratégica."
