Oitiva de Renato ocorre sob disputa sobre vídeos do caso
Deputado descreve confronto, admite reação física e alega ameaça; Conselho de Ética prossegue com oitiva mesmo sob contestação da defesa sobre vídeos incompletos
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Valdir Amaral
A sessão do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Paraná desta segunda-feira, 6 de abril, foi marcada por um embate que misturou disputa processual, tensão política e um depoimento minucioso do deputado Renato Freitas sobre o episódio que motivou a representação contra ele. Reunido com o objetivo principal de ouvir o parlamentar, o colegiado decidiu manter a oitiva mesmo diante da insistência da defesa em adiar o ato até a obtenção das imagens completas do caso, apontadas como essenciais para o contraditório. Ao longo da sessão, o conselho expôs divergências internas sobre a suficiência das provas já juntadas, enquanto Renato apresentou sua versão dos fatos em tom combativo, admitiu movimentos de confronto físico e tentou enquadrar sua conduta como reação a uma ameaça.
Logo no início da reunião, a defesa, conduzida pelo advogado Edson Vieira Abdala, sustentou que não havia condições adequadas para o depoimento sem deliberação prévia sobre os requerimentos pendentes, especialmente o pedido de acesso às gravações integrais, sem cortes. “Não dá para apresentar a imagem, o deputado falar e depois ter outra deliberação. Isto prejudica totalmente a defesa”, afirmou. Ainda assim, o relator Márcio Pacheco rejeitou a tese de que a oitiva dependia da resolução prévia dessa controvérsia e insistiu que o foco do colegiado não era a discussão técnica sobre os vídeos. “Esse Conselho de Ética não está julgando imagens, está investigando fatos”, disse. Em seguida, reforçou sua resistência ao pedido da defesa ao afirmar que “não entende que seja dessa relevância essa solicitação dessas imagens”.
A presidência acompanhou o avanço da instrução, embora tenha admitido a necessidade de buscar novos elementos. Ao indeferir o adiamento e, ao mesmo tempo, anunciar que requisitaria mais imagens ao condomínio, produziu uma solução intermediária que atravessou toda a sessão. “Eu indefiro a prorrogação para esperar outros vídeos, mas vou requerer ao condomínio tudo o que tiver disponível”, declarou. Na prática, o conselho decidiu ouvir Renato Freitas com base em provas cuja completude ainda é questionada e que poderão ser ampliadas posteriormente.
Foi nesse ambiente que Renato passou a reconstruir o episódio de forma detalhada. Segundo o deputado, tudo começou quando ele atravessava a rua com a companheira, grávida, após uma consulta médica. Ele afirmou que um carro avançou em sua direção de forma perigosa. “Ele avançou sobre nós executando uma manobra perigosa”, disse. De acordo com seu relato, a reação inicial foi verbal. “Eu falei ‘respeite o pedestre’ e ele respondeu com ‘lixo’, ‘nóia’”, afirmou. A partir daí, sustentou que deixou de ver a situação como mero incidente de trânsito e passou a entendê-la como ameaça concreta. “Era para abafar, para cessar uma injusta e iminente agressão”, declarou ao explicar o momento em que decidiu partir para o confronto. Em um dos trechos mais fortes do depoimento, Renato admitiu: “Eu fui na voadora. A voadora não pegou”.
Na sequência, o parlamentar descreveu a participação de Carlos, apontado por ele como o homem que efetivamente imobilizou o outro envolvido. “O Carlos chegou e já imobilizou o rapaz”, disse. Renato admitiu, ainda, que fez contato físico com o adversário, embora tenha tentado reduzir a gravidade do gesto. “Eu dei um tapa na bunda dele e falei ‘respeite os mais velhos’”, afirmou. Ao afastar a versão de espancamento, acrescentou que “o contato físico durou nove segundos” e argumentou que “quem quer espancar não faz isso em nove segundos”.
O deputado também descreveu um segundo momento do conflito, já depois de deixar o local inicial. Segundo sua versão, ele e a companheira foram novamente alcançados. “Eles entraram na frente do carro, bateram na lataria, causaram pânico”, afirmou. Renato disse que, ao descer do veículo, foi agredido primeiro. “O primeiro soco partiu dele”, declarou. A partir desse ponto, seu depoimento passou a incluir descrições mais técnicas da briga. “Eu falei ‘agora começou’”, relatou, acrescentando que teve o nariz quebrado durante o confronto. “Quebrou meu nariz, isso não é novidade para mim”, disse. Em vários momentos, insistiu em que poderia ter agido com mais violência e não o fez. “Eu poderia ter sido covarde, não quis”, afirmou. “Não quis protagonizar um espetáculo sangrento”, acrescentou.
As declarações provocaram reações imediatas dos membros do conselho. O deputado Tiago Amaral questionou a postura de Renato com uma frase que sintetizou uma das linhas de crítica presentes na sessão. “Quando um não quer, dois não brigam”, afirmou. Renato rebateu sem recuar. “Há situações em que o não enfrentamento pode custar caro”, respondeu. Em outra frente, o deputado Dr. Leonidas ponderou que “sempre há a possibilidade do autocontrole”, rejeitando a ideia de que a reação pudesse ser lida apenas como impulso instintivo. Já o deputado doutor Antenor apresentou um contraponto e alertou para o que chamou de risco de leitura contaminada por viés político. “Se a gente não tiver essa condescendência do olhar sobre o todo e ficar apenas na visão ideológica, a gente vai ferir a verdade”, afirmou. Na sequência, acrescentou que, “em circunstâncias de ameaça à própria vida, a agressividade não é violência, mas ela pode encaminhar para a defesa”.
Enquanto o depoimento avançava, a disputa sobre os vídeos não desapareceu. Durante a exibição das imagens, Abdala voltou a apontar falhas no material apresentado ao colegiado. “Essa parte está cortada. É por isso que queremos as imagens integrais”, afirmou. Apesar da contestação, o relator não recuou. “Presidente, o próximo vídeo”, disse, deixando claro que a instrução seguiria normalmente. O andamento da sessão acabou cristalizando esse duplo movimento: de um lado, a defesa insistindo que a prova visual é incompleta e pode comprometer a análise do caso; de outro, o conselho optando por prosseguir mesmo sem resolver integralmente essa controvérsia.
Ao final, ficou definido que novas imagens poderão ser requisitadas e anexadas aos autos, mas sem suspensão do processo. O saldo da sessão foi o de um conselho que decidiu avançar apesar da disputa aberta sobre a prova e de um deputado que, longe de negar o confronto, tratou de reconstruí-lo em detalhes, tentando deslocar o centro do julgamento da agressão em si para a justificativa apresentada para ela.
Créditos: Redação
