Setembro/2026

"Não vamos nos ajoelhar": presidente do Irã responde a Trump na ONU e acusa EUA de terrorismo

Masoud Pezeshkian respondeu às ameaças feitas por Donald Trump no mesmo púlpito um dia antes, defendeu negociações para encerrar a guerra e afirmou que Teerã não abrirá mão de seu programa nuclear civil

Por Julia Maraschi

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Créditos: Divulgação

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, usou seu discurso nesta quarta-feira (23) na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, para responder diretamente às ameaças feitas pelos Estados Unidos e afirmar que o país não pretende se render no conflito iniciado em fevereiro. Ao mesmo tempo, o iraniano voltou a defender negociações diplomáticas como caminho para encerrar a guerra.

A fala ocorreu um dia depois de Donald Trump afirmar, também na tribuna da ONU, que avaliava entre fechar um acordo com Teerã ou “aniquilar” a República Islâmica caso as negociações fracassassem. O presidente americano também voltou a exigir garantias de que o Irã não desenvolverá armas nucleares.

Pezeshkian classificou a postura de Trump como uma demonstração de intimidação e afirmou que as ameaças e sanções apenas aumentariam a resistência iraniana. “O povo iraniano não se curvará à pressão”, afirmou durante o discurso. O presidente também rebateu a acusação norte-americana de que o Irã seria um patrocinador do terrorismo, afirmando que aqueles que, segundo ele, praticam e apoiam atos terroristas estariam fazendo a mesma acusação contra Teerã.

Pezeshkian também acusou diretamente os Estados Unidos de “terrorismo” pela morte do então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques conjuntos realizados por Estados Unidos e Israel no início da guerra. Durante o pronunciamento, ele exibiu uma fotografia de Khamenei diante da Assembleia.

Khamenei morreu durante os ataques iniciados em 28 de fevereiro, episódio posteriormente confirmado pelas autoridades iranianas. A ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel marcou o início do atual conflito e atingiu também integrantes da cúpula política e militar iraniana.

"Não vamos nos ajoelhar" 

Ao responder a Trump, Pezeshkian adotou um tom de resistência. O presidente afirmou que o Irã já havia sido testado militarmente e que não poderia ser obrigado a se render por meio de pressão econômica ou uso da força.

Segundo ele, Teerã continuará defendendo o território iraniano enquanto considerar que está sendo alvo de uma guerra imposta por potências estrangeiras. Ao mesmo tempo, o presidente reiterou em diferentes momentos do pronunciamento que seu governo continua disposto a negociar com Washington.

A posição resume a estratégia apresentada pelo governo iraniano durante a Assembleia-Geral: rejeitar qualquer negociação condicionada à rendição, mas manter aberta a possibilidade de um acordo diplomático. A Reuters informou que a delegação dos Estados Unidos deixou o plenário no início do discurso de Pezeshkian. A missão norte-americana na ONU não havia comentado imediatamente o episódio.

Presidente Iraniaino acusa EUA de morte de civis  

Pezeshkian também utilizou o discurso para acusar os Estados Unidos de responsabilidade pela morte de civis durante a guerra. Ele mostrou fotografias de vítimas, entre elas imagens relacionadas ao ataque contra uma escola primária em Minab, ocorrido no primeiro dia do conflito.

Autoridades iranianas afirmam que mais de 175 crianças e professores morreram no ataque. A Reuters informou anteriormente que uma investigação preliminar interna das Forças Armadas dos Estados Unidos apontava que forças americanas provavelmente haviam sido responsáveis pelo bombardeio. Em setembro, uma missão de investigação da ONU afirmou haver fundamentos razoáveis para considerar que ataques norte-americanos contra uma escola e uma instalação esportiva no Irã poderiam configurar crimes de guerra.

O relatório da ONU também apontou, por outro lado, indícios de crimes contra a humanidade cometidos pelas próprias autoridades iranianas durante a repressão aos protestos internos iniciados no fim de 2025. As conclusões ilustram as acusações de violações dirigidas a diferentes lados no conflito e no cenário político iraniano.

Programa Nuclear permanece no centro da disputa

Outro ponto central do discurso foi o programa nuclear iraniano. Pezeshkian afirmou que o país não busca desenvolver armas nucleares, mas que não aceitará abrir mão do conhecimento e da tecnologia necessários para um programa nuclear com fins pacíficos.

Os Estados Unidos sustentam que qualquer acordo deverá impedir de forma verificável a obtenção de uma arma nuclear pelo Irã. Trump afirmou nesta terça-feira que as negociações entre Washington e Teerã continuam e declarou acreditar que um entendimento ainda poderá ser alcançado. O governo iraniano, por sua vez, afirma que seu programa tem finalidade civil e reivindica o direito ao desenvolvimento de tecnologia nuclear dentro das regras internacionais aplicáveis.

Hormuz também entra na negociação

O discurso ocorreu enquanto representantes iranianos e americanos tentam avançar em negociações paralelas em Nova York. Uma das questões centrais é o Estreito de Hormuz, passagem estratégica por onde circula aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente.

Teerã já transmitiu aos Estados Unidos, por meio de intermediários, condições para reabrir plenamente a rota. Autoridades iranianas disseram estar dispostas a reduzir as restrições caso Washington diminua a pressão militar e flexibilize o bloqueio sobre portos do país.

Pezeshkian afirmou na ONU que o Irã não aceitará uma situação em que outros países utilizem livremente o estreito enquanto embarcações iranianas enfrentam restrições.

Trocas de ameaça ocorrem em meio a tentatiivas de negociação

A sequência de discursos de Trump e Pezeshkian expôs duas mensagens que caminham paralelamente nesta Assembleia-Geral. De um lado, os dois governos mantêm uma retórica de forte confronto e ameaças militares. De outro, representantes de Washington e Teerã continuam mantendo canais diplomáticos abertos.

O conflito começou em 28 de fevereiro, com ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos. Desde então, o Irã respondeu com mísseis e drones contra Israel e instalações relacionadas aos Estados Unidos na região, enquanto a guerra passou a produzir impactos sobre transporte marítimo, mercados de energia e segurança de países do Golfo.

Sete meses depois, não há acordo definitivo de cessar-fogo. O discurso de Pezeshkian indicou que Teerã pretende manter duas frentes simultâneas: resistência militar às condições impostas por Washington e disposição para negociar, desde que, segundo o governo iraniano, as conversas ocorram sem ameaça de força

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp