IDEAS administra bilhões, acumula dívidas e recebe título de utilidade pública no Paraná
Mesmo sem contrato em Assis Chateaubriand e com patrimônio líquido negativo, passivo bilionário e obrigações trabalhistas elevadas, o IDEAS amplia contratos e é declarado de utilidade pública no Paraná
Créditos: Reprodução/Google Street View
A Gazeta do Paraná publicou, recentemente, uma reportagem que detalhava como o Instituto Ideas atuou durante anos na cidade de Assis Chateaubriand, mas precisamente no hospital beneficente Moacir Micheletto, sem nunca ter firmado um contrato com a entidade. O segredo para viabilizar este cenário está em Rodrigo Massaroli, que atua no Ideas e foi colocado como gestor do hospital. Nos corredores, no entanto, a chegada do instituto para administrar o hospital não era segredo para ninguém. Tanto é, que este fato nos foi facilmente confirmado em um simples telefonema, no qual questionamos “quem representava o Ideas no hospital”: “Você está falando do Rodrigo Massaroli? Ele saiu do hospital há cerca de 6 meses”, responderam. Com sua saída o então secretário de Saúde. Rodrigo Furlan assumiu a gestão do hospital e esposa do prefeito, Franciane Micheletto, também vice-prefeita do município.
Ocorre que o instituto em questão acumula situações controversas que vão de operação da Polícia Federal, passam por pedido de cassação de prefeito e acabam em salários atrasados e falta de profissionais em unidades de saúde. A dúvida que paira, diante deste cenário é: se o instituto Ideas reúne tantas denúncias (como relatado pela reportagem anterior), como ele consegue manter contratos com municípios espalhados por todo o Brasil e chega ao ponto de atuar em municípios onde nem contrato possui? Afinal, o IDEAS segue apto a contratar com o poder público e continua firmando contratos de gestão em diferentes municípios. No entanto, o acúmulo de denúncias, procedimentos investigatórios e operações de fiscalização coloca o instituto sob monitoramento permanente por órgãos de controle.
Esse contexto ajuda a explicar por que o nome do IDEAS desperta atenção sempre que surge associado a hospitais que dependem de recursos públicos. Não se trata de um instituto desconhecido ou periférico, mas de um operador nacional que administra contratos milionários e que já esteve no centro de apurações conduzidas por algumas das principais instituições de fiscalização do país. O que desperta a atenção é que, mesmo administrando dezenas de contratos que resultam em movimentação surpreendente em recursos públicos, a saúde financeira do instituto respira por aparelhos. Isso porque os demonstrativos contábeis oficiais do Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS) revelam um paradoxo que se repete ao longo dos últimos exercícios: crescimento expressivo de receitas públicas acompanhado de deterioração estrutural das finanças.
De acordo com os balanços patrimoniais e demonstrações de resultado publicados no Diário Oficial de Santa Catarina, o IDEAS encerrou o exercício de 2024 com receita operacional superior a R$ 1,7 bilhão. Praticamente a totalidade desse montante teve origem em contratos de gestão na área da saúde, firmados com estados e municípios em diferentes regiões do país. Apesar do volume bilionário de recursos administrados, os números indicam que o instituto não converteu essa receita em equilíbrio financeiro.
Patrimônio líquido negativo e endividamento
O balanço patrimonial de 2024 aponta que o IDEAS operava com patrimônio líquido negativo, sinal clássico de que as obrigações da entidade superavam seus ativos totais. Em termos práticos, isso significa que, mesmo controlando hospitais, unidades de saúde e contratos de grande porte, o instituto não dispunha de lastro patrimonial suficiente para cobrir suas dívidas. O passivo total declarado se aproxima de R$ 2 bilhões, um valor que praticamente acompanha o volume de receitas anuais, evidenciando uma estrutura altamente alavancada e financeiramente frágil.
Entre os componentes mais sensíveis desse passivo estão as obrigações trabalhistas e previdenciárias, que somam mais de R$ 63 milhões, conforme registrado nos demonstrativos contábeis. Esse montante inclui: salários a pagar, encargos sociais, contribuições previdenciárias, provisões trabalhistas e obrigações correlatas. Esses números ajudam a explicar um padrão recorrente de queixas sobre atrasos no pagamento de funcionários e fornecedores, relatado em diferentes localidades onde o IDEAS atua, e que passou a ser objeto de questionamentos de sindicatos, conselhos profissionais e órgãos de controle.
Outro dado relevante é o fluxo de caixa operacional deficitário. Mesmo com receitas elevadas, o IDEAS apresentou dificuldades para gerar caixa suficiente a partir de suas operações regulares, indicando que os custos de manutenção da estrutura - folha de pagamento, contratos terceirizados, insumos médicos e despesas administrativas - consumiam quase integralmente os recursos recebidos. Na prática, isso significa que o instituto passou a depender de adiantamentos contratuais, renegociações de prazos e postergação de obrigações, estratégia que, embora permita a continuidade operacional no curto prazo, agrava o desequilíbrio financeiro no médio e longo prazo.
Os números oficiais desmontam a imagem de solidez que costuma acompanhar organizações com atuação nacional e contratos bilionários. O que os balanços revelam é um modelo financeiramente tensionado, no qual: a expansão territorial não foi acompanhada de fortalecimento patrimonial; a receita elevada convive com endividamento crescente; e a dependência quase absoluta de contratos públicos expõe o instituto a riscos elevados de descontinuidade.
Todos esses dados constam nos próprios documentos assinados pela direção do IDEAS e por sua contadora responsável. Eles ajudam a compreender por que, apesar de administrar volumes expressivos de recursos públicos, o instituto passou a figurar com frequência em questionamentos sobre sustentabilidade financeira, capacidade de pagamento e governança, temas que ganharam relevância nacional diante da amplitude de sua atuação.
Utilidade pública
Mesmo diante de um cenário financeiro marcado por endividamento elevado, patrimônio líquido negativo e obrigações trabalhistas expressivas, o Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS) obteve, em 2025, uma chancela institucional relevante no Paraná. O instituto foi oficialmente declarado entidade de utilidade pública estadual, após a sanção da Lei nº 22.459, em 13 de junho de 2025, pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior.
A lei teve origem no Projeto de Lei nº 153/2025, apresentado pelo deputado estadual Gugu Bueno, e tramitou na Assembleia Legislativa com base em uma justificativa centrada na atuação do IDEAS na área da saúde e em sua suposta relevância social. O texto legal reconhece o instituto como entidade de interesse público com sede de referência no município de Toledo, no Oeste do Paraná, e passou a produzir efeitos imediatos a partir de sua publicação no Diário Oficial.
Durante a tramitação, o processo legislativo foi instruído com documentos formais exigidos pela legislação estadual, entre eles o estatuto social do IDEAS, atas administrativas e certidões fiscais. Entre essas certidões, consta ao menos uma Certidão Positiva de Débitos com efeito de negativa, modalidade emitida quando há pendências fiscais, mas cuja exigibilidade está suspensa por parcelamento ou discussão administrativa ou judicial. Ou seja, a documentação apresentada não atestava inexistência de débitos, mas regularidade formal mínima para fins administrativos.
Ainda assim, a análise legislativa limitou-se à verificação formal dos documentos, sem aprofundamento sobre a situação econômico-financeira do instituto. Não houve, no processo que resultou na sanção da lei, debate público sobre os balanços contábeis do IDEAS, que indicam receita operacional bilionária combinada com passivo elevado, patrimônio líquido negativo e dezenas de milhões de reais em obrigações trabalhistas e previdenciárias. Tampouco foram considerados, nos autos legislativos, os questionamentos e investigações que envolvem a atuação do instituto em outros estados.
Com a sanção da lei, o IDEAS passa a contar com o status de utilidade pública estadual no Paraná, condição que pode facilitar a celebração de convênios, parcerias e outros instrumentos de cooperação com o poder público. Trata-se de um reconhecimento institucional relevante, concedido em um momento no qual os próprios documentos oficiais do instituto apontam para um modelo de gestão financeiramente tensionado.
A concessão do título, portanto, não encerra o debate - ao contrário. Ela reforça a necessidade de escrutínio público sobre os critérios adotados pelo Estado para reconhecer entidades privadas que operam contratos de grande vulto na saúde pública. No caso do IDEAS, a utilidade pública foi concedida apesar dos alertas financeiros documentados, transformando o instituto, simultaneamente, em beneficiário de reconhecimento oficial e em objeto legítimo de questionamento sobre sustentabilidade, governança e interesse público.
Em Toledo também
O reconhecimento do IDEAS como entidade de utilidade pública no Paraná também foi celebrado publicamente em Toledo, município que aparece como referência territorial do instituto no Estado. A sanção da lei foi apresentada como um marco institucional para a entidade, com destaque para sua atuação na área da saúde e para a ampliação de sua legitimidade junto ao poder público local. O IDEAS foi descrito como um parceiro estratégico do sistema público de saúde, e a declaração de utilidade pública aparece como um reconhecimento natural de sua atuação, sem qualquer menção aos dados financeiros constantes nos balanços oficiais, tampouco às investigações, denúncias e dificuldades operacionais registradas em outros estados.
Ou seja, enquanto, no plano político e institucional, o IDEAS passa a ser apresentado como entidade de interesse público oficialmente reconhecida, os documentos contábeis assinados por sua própria direção revelam um instituto que opera com passivo elevado, patrimônio líquido negativo e forte dependência de repasses públicos.
