Empresa de Pato Branco ligada ao entorno de Guto Silva aparece no Olho Vivo, mas não em contratos públicos
PROC Group reivindica participação no sistema de videomonitoramento do estado e menciona contrato com o governo, mas registros não aparecem no Portal da Transparência; empresa tem ex-assessor de Guto Silva na equipe
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução Instagram
Enquanto o programa estadual de videomonitoramento Olho Vivo passou a ser alvo de questionamentos políticos na Assembleia Legislativa do Paraná, uma empresa sediada em Pato Branco, no sudoeste do estado, passou a chamar atenção ao reivindicar protagonismo no desenvolvimento da tecnologia associada ao sistema.
Em publicações nas redes sociais e em textos institucionais, a PROC Group afirma que é responsável pelo que chama de “verdadeiro Olho Vivo do Paraná”. Em uma postagem divulgada em seu perfil no Instagram, a empresa declara de forma direta: “O Olho Vivo do Paraná é a PROC Group”.
Segundo o material divulgado pela própria companhia, o sistema desenvolvido permite funcionalidades como reconhecimento facial, leitura de placas de veículos, detecção de comportamentos suspeitos em tempo real, integração com bases policiais e monitoramento contínuo.
A empresa sustenta que essa tecnologia começou a ser desenvolvida em 2019, com a criação da plataforma Pato 360, descrita pela companhia como um sistema de monitoramento inteligente de cidades.
Em texto publicado no blog institucional da empresa, a PROC afirma que o avanço das câmeras inteligentes no estado estaria ligado à evolução das políticas públicas de segurança.
“O avanço das câmeras inteligentes com IA no estado, impulsionados pelo programa Olho Vivo, no Verão Maior Paraná, mostra que o futuro da segurança pública já está em curso”, afirma a publicação.
No mesmo texto, a empresa sustenta que teria antecipado o modelo tecnológico hoje adotado pelo poder público.
“Ao desenvolver o Pato 360 ainda em 2019, a PROC antecipou uma tendência que hoje se consolida como política pública”, afirma o material.
Fontes apontam fornecimento de câmeras
Fontes da Polícia Militar do Paraná ouvidas pela reportagem afirmaram que equipamentos da empresa sediada em Pato Branco estariam sendo utilizados em sistemas de monitoramento vinculados ao programa Olho Vivo.
Segundo esses relatos, câmeras e soluções tecnológicas da empresa estariam presentes em estruturas associadas ao projeto estadual de videomonitoramento.
Apesar dessa indicação, buscas realizadas pela reportagem no Portal da Transparência do Governo do Paraná não localizaram contratos firmados diretamente em nome da empresa ou vinculados ao CNPJ da PROC relacionados ao programa.
Também não foram encontrados registros de contratação direta da empresa pelo governo estadual nas consultas realizadas até o momento.
A ausência de contratos públicos identificáveis levanta questionamentos sobre o modelo de aquisição dos equipamentos utilizados no sistema e sobre a forma como as empresas fornecedoras estariam sendo integradas ao programa.
Registros públicos e menção a contrato
Apesar da ausência de registros detalhados no Portal da Transparência, uma publicação feita pela própria empresa em dezembro de 2024 sugere a existência de um acordo com o governo estadual.
Em postagem nas redes sociais, a PROC afirmou ter participado de um evento em Pato Branco com a presença do governador Carlos Massa Ratinho Junior, ocasião em que teria sido assinado um contrato relacionado à área de segurança pública.
Segundo a publicação, “a PROC Group teve a honra de fazer parte dessa transformação, assinando o contrato para a implementação de uma solução inovadora em segurança pública”.
A postagem, no entanto, não apresenta detalhes sobre a natureza do contrato, valores envolvidos ou órgão responsável pela contratação.
Até o momento, essas informações também não aparecem de forma identificável nas consultas realizadas pela reportagem aos bancos públicos de contratos do governo estadual.

Estrutura da empresa
Dados da Receita Federal mostram que a empresa está registrada formalmente como PROC Serviços de TI Ltda, com CNPJ 37.365.867/0001-50.
O registro indica data de abertura em 9 de junho de 2020 e capital social de R$ 110 mil.
A sede da empresa fica na rua Caetano Munhoz da Rocha, no bairro Menino Deus, em Pato Branco, município do sudoeste do Paraná.
A atividade principal registrada é suporte técnico, manutenção e outros serviços em tecnologia da informação. Entre as atividades secundárias aparecem comércio de equipamentos de informática, representação comercial de máquinas e equipamentos e manutenção de computadores.
O quadro societário da empresa aponta dois nomes como responsáveis:
Carlos Nei Boschi Junior, listado como sócio, e
Ana Paula Rosa, registrada como sócia-administradora.
A figura pública da empresa
Apesar da estrutura societária formal indicar dois sócios, nas redes sociais e em entrevistas públicas a figura mais associada à empresa é Aldo Arendt, que aparece frequentemente representando a PROC em eventos e entrevistas.
Arendt participou, por exemplo, de uma entrevista na Rádio Educadora FM, em Francisco Beltrão, na qual falou sobre tecnologias de segurança pública e sobre o aplicativo Botão do Pânico, implantado em escolas municipais da região.
Nas redes sociais, ele também aparece associado à empresa e mantém vínculo público com Ana Paula Rosa, que consta como sócia-administradora no cadastro da Receita Federal.
Relações políticas
Outro personagem vinculado à empresa é José Ricardo Crema Tiba, conhecido como Ricardo Tiba, que aparece nas redes sociais da PROC como responsável pela área de relações públicas da companhia.
Postagens institucionais da empresa o apresentam como integrante da equipe responsável pela articulação institucional e relacionamento da empresa.
O nome de Tiba já apareceu em investigações envolvendo o entorno político do secretário estadual Guto Silva, conforme reportagem publicada pela Gazeta do Paraná.
Segundo a apuração jornalística, uma delação premiada mencionou a existência de um suposto esquema de desvio de recursos públicos envolvendo operadores políticos ligados ao grupo político de Guto Silva no sudoeste do Paraná.
De acordo com os relatos citados na investigação, operadores políticos teriam atuado em articulações institucionais e intermediação de relações com administrações públicas, em um modelo que, segundo a delação, teria sido utilizado para viabilizar repasses indevidos.
O nome de Ricardo Tiba foi citado no contexto dessas articulações políticas regionais associadas ao grupo político do atual secretário estadual.
Até o momento, não há registro de condenação judicial contra Tiba relacionada a essas citações, mas o episódio colocou seu nome no radar de investigações e da cobertura jornalística sobre operadores políticos na região.
Conexão com Pato Branco
A sede da empresa fica em Pato Branco, cidade do sudoeste do Paraná que também é a base política do secretário estadual Guto Silva.
Guto é um dos principais articuladores do governo estadual na área de inovação e tecnologia e tem atuado em projetos relacionados à transformação digital da administração pública.
Até o momento, o governo do Paraná não detalhou publicamente quais empresas participam da implementação tecnológica do programa Olho Vivo.
Debate político
A estrutura do programa de videomonitoramento passou a ser discutida na Assembleia Legislativa após deputados cobrarem explicações do governo sobre contratos, empresas envolvidas e valores associados ao projeto.
O Executivo estadual afirma que o programa ainda está em fase inicial de implantação e que os municípios poderão aderir ao sistema por meio de convênios.
As discussões ocorrem em paralelo ao debate sobre a governança digital do estado e o futuro da Celepar, empresa pública responsável por grande parte da infraestrutura tecnológica do governo do Paraná.
Nesse contexto, a identificação das empresas que fornecem equipamentos e operam sistemas associados ao programa Olho Vivo tornou-se um dos principais pontos de questionamento no debate público.
Créditos: Redação
