Crise da Aegea acende alerta sobre PPPs da Sanepar no Paraná
Grupo que opera contratos bilionários no estado enfrenta investigações no RS, revisão contábil de R$ 5 bilhões, rebaixamento de crédito e queda no lucro
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
A crise enfrentada pela Aegea Saneamento em outros estados voltou a colocar sob pressão o modelo de Parcerias Público-Privadas adotado pela Sanepar no Paraná. Enquanto a companhia aparece no centro de investigações sobre falhas no abastecimento em municípios do Rio Grande do Sul, o grupo também atravessa uma turbulência financeira, com revisão contábil bilionária, rebaixamento de nota de crédito e forte queda no lucro no primeiro trimestre de 2026.
No Rio Grande do Sul, os serviços da Aegea/Corsan são investigados em seis municípios. Segundo o Jornal do Comércio, Canoas, Gravataí, Viamão e Venâncio Aires instalaram CPIs para apurar falhas no abastecimento de água e esgoto. Esteio criou uma comissão especial e Alvorada anunciou ação judicial contra a companhia.
A crise operacional se soma ao desgaste financeiro. A Aegea precisou revisar informações contábeis de 2020 a 2024, movimento que reduziu em R$ 5 bilhões o patrimônio líquido da empresa e diminuiu o lucro de 2024 de R$ 2,4 bilhões para R$ 1,8 bilhão. O ajuste provocou impacto negativo de R$ 700 milhões na Itaúsa, holding que controla o Itaú e detém 13,2% da Aegea.
O mercado reagiu mal. Agências de classificação de risco rebaixaram a nota de crédito da companhia para grau especulativo, e a abertura de capital, antes esperada para 2026, foi empurrada para 2027, segundo o Metrópoles.
No Paraná, a Aegea atua por meio da Ambiental Paraná, responsável por executar contratos de esgotamento sanitário firmados com a Sanepar. Como mostrou a Gazeta do Paraná, o grupo venceu duas concorrências recentes ligadas à ampliação da rede de esgoto, com contratos de longo prazo, dezenas de municípios envolvidos e investimentos bilionários.
A preocupação não nasce apenas da crise atual. A Gazeta já revelou que Priscila Marchini Brunetta, ex-diretora administrativa da Sanepar, migrou para a Ambiental Paraná depois de passar pelo primeiro escalão da estatal. Documentos públicos mostram que ela deixou a diretoria em abril de 2023, permaneceu vinculada a conselhos e comitês internos até outubro do mesmo ano e, depois, assumiu posição de comando em empresas ligadas às PPPs.
O caso ganhou ainda mais sensibilidade após a divulgação de áudios atribuídos a Wellington Bedeu, ex-funcionário da Sanepar. Nas gravações, ele relata cobranças de dinheiro, pressões internas e afirma que Priscila dava ordens dentro da estrutura da estatal. A Gazeta registrou que as falas estão no campo do relato pessoal e mantém espaço aberto aos citados.
A Aegea afirma, em manifestações públicas, que fatos antigos envolvendo delações se referem a períodos anteriores a mudanças de governança e que os contratos atuais seguem regras de compliance. Também sustenta que mantém diálogo permanente com o poder público sobre a prestação dos serviços.
O ponto, agora, é outro. Se uma empresa responsável por contratos essenciais enfrenta questionamentos operacionais em municípios, turbulência contábil bilionária, rebaixamento de crédito e queda de confiança no mercado, o Paraná precisa olhar para suas PPPs com lupa. Saneamento não é aposta financeira. É serviço público essencial. E contrato de décadas não pode depender apenas da promessa de que tudo está sob controle.
Créditos: Redação
