Créditos: Antônio Cruz/Agência Brasil
Problemas com o Credcesta? Veja o que fazer em caso de cobrança indevida na aposentadoria
Queixas de cobranças duplicadas, seguros não reconhecidos e dificuldades no atendimento levam prefeituras e o Governo do Estado a suspender operações com o cartão consignado
Queixas envolvendo descontos em aposentadorias e salários, dificuldades para acessar contratos e problemas no atendimento têm colocado o cartão consignado Credcesta no centro de reclamações de servidores públicos, aposentados e pensionistas no Paraná. O produto, inicialmente ofertado a funcionários municipais e estaduais, passou posteriormente a ser utilizado pelo Banco Master em operações com beneficiários do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
A reportagem da Gazeta do Paraná ouviu aposentados que afirmam ter identificado cobranças adicionais após a contratação de empréstimos consignados. Entre as reclamações estão descontos relacionados a cartões que dizem nunca ter utilizado, seguros não reconhecidos e refinanciamentos supostamente feitos sem autorização clara.
A pauta chegou ao jornal após denúncia enviada por uma leitora, que afirmou haver falta de fiscalização sobre o modelo de operação. Segundo o relato encaminhado à redação, aposentados e pensionistas do Estado estariam sofrendo descontos considerados indevidos, sem que houvesse providências efetivas dos órgãos responsáveis.
Durante a apuração, aposentados relataram ainda receber ligações frequentes oferecendo redução de juros ou liberação de valores adicionais conhecidos como “troco”, sem explicações detalhadas sobre as condições do refinanciamento.
O Credcesta operava por meio de um mecanismo chamado “Saque Fácil”. Nesse modelo, o cliente recebia um empréstimo em dinheiro, pago em parcelas descontadas diretamente da folha salarial ou do benefício previdenciário, dentro da margem consignável. Junto da operação, era emitido um cartão de crédito consignado. Caso o cartão fosse utilizado, o valor mínimo da fatura era descontado automaticamente em folha, enquanto o restante deveria ser quitado por boleto bancário.
O produto surgiu como uma modalidade de crédito consignado estruturada em parceria com o Banco Master. Parte das operações também passou a ser vinculada ao Banco Pleno, instituição liquidada pelo Banco Central em fevereiro deste ano.
À reportagem, o serviço de atendimento do Credcesta informou que novos empréstimos não estão mais sendo realizados.
Uma das aposentadas ouvidas pela reportagem, Terezinha de Fátima, de 66 anos, afirma que recebeu no fim do ano passado, por e-mail e WhatsApp, uma cobrança referente a um serviço de saúde que diz jamais ter contratado. Segundo ela, a empresa alegou que a adesão teria ocorrido por telefone, mas não apresentou qualquer gravação da suposta autorização.
Após solicitar o cancelamento, Terezinha afirma que percebeu um desconto de R$ 89 em seu contracheque, vinculado ao Credcesta. Ela relata que somente conseguiu encerrar a cobrança depois de registrar reclamação na plataforma Reclame Aqui, embora ainda tenha sofrido dois descontos em folha antes da suspensão definitiva.
A aposentada afirma ainda possuir dois empréstimos com o Credcesta, contratos que reconhece ter firmado por intermédio de uma correspondente bancária.
Outra reclamação partiu de uma professora de Curitiba, que pediu para não ser identificada. Ela relata que, no início do contrato, as parcelas descontadas correspondiam ao valor acordado. Com o passar do tempo, porém, começou a perceber cobranças simultâneas do empréstimo consignado e do valor mínimo da fatura do cartão de crédito, situação que afirma não ter autorizado.
Segundo a servidora, os descontos só foram interrompidos depois que procurou o setor de Recursos Humanos da prefeitura de Curitiba.
As reclamações chegaram também ao município. Em fevereiro, a SMGP (Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal) de Curitiba anunciou a suspensão de todos os descontos relacionados ao cartão Credcesta contratados por servidores ativos da prefeitura.
As reclamações não se limitam aos servidores públicos estaduais e municipais. Nas páginas do Reclame Aqui relacionadas ao Banco Master e ao Credcesta, aposentados e pensionistas do INSS também relatam descontos que dizem desconhecer e dificuldades para obter acesso aos contratos firmados.
Procurado pela reportagem, o INSS informou que, após a deflagração da Operação Sem Desconto, passou a reavaliar os mecanismos internos de fiscalização de instituições financeiras que atuam com crédito consignado.
Segundo o instituto, a principal preocupação é assegurar que qualquer desconto realizado decorra de manifestação inequívoca de vontade do beneficiário e esteja em conformidade com a legislação vigente e com as regras do consignado.
Bloqueio de descontos
Diante do aumento das reclamações e das investigações nacionais envolvendo descontos considerados indevidos, o Governo do Paraná anunciou medidas relacionadas aos cartões de benefícios Credcesta e Mettacard.
Em comunicado divulgado pelo Departamento de Recursos Humanos e Previdência da Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (SEAP), o Estado informou que, desde 24 de novembro de 2025, foram bloqueados novos lançamentos de descontos em folha vinculados aos cartões Credcesta – PKL One e Mettacard.
Segundo a nota, a decisão foi tomada após as próprias empresas comunicarem a suspensão temporária das operações enquanto aguardam posicionamento do Banco Central. O governo afirmou que a medida busca proteger servidores ativos, aposentados, militares e pensionistas contra possíveis fraudes.
Com o bloqueio, os usuários não podem mais realizar novas compras ou utilizar os cartões na rede credenciada. No entanto, descontos referentes a operações já contratadas anteriormente continuam sendo debitados normalmente na folha de pagamento.
O Estado também orientou servidores e beneficiários a conferirem mensalmente os extratos dos cartões e os contracheques, para verificar eventuais cobranças indevidas. Além disso, pediu o preenchimento de um questionário sobre o tema, como forma de auxiliar no reforço dos mecanismos de controle e segurança.
O que fazer em caso de desconto indevido
De acordo com o código de defesa do consumidor a orientação é de que, ao identificar cobranças desconhecidas, o consumidor procure inicialmente o banco, a instituição financeira ou a associação responsável pelo desconto para solicitar o cancelamento e a devolução dos valores.
Caso o problema não seja solucionado, é possível registrar reclamação no Portal do Consumidor, plataforma da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). Dados do órgão apontam que as reclamações envolvendo o Credcesta começaram a aparecer em 2020 e tiveram aumento significativo em 2025, quando foram registrados 2.285 atendimentos relacionados ao tema.
Beneficiários do INSS também podem recorrer à ouvidoria do instituto, por meio da Central 135, do aplicativo Meu INSS ou do site oficial do órgão.
