Cheque sem fundo de Nelson Tanure na privatização da Sercomtel
Suspeitas sobre aporte sem lastro financeiro e possível cheque sem fundos ligado ao Banco Master levantam dúvidas sobre a legalidade da privatização da Sercomtel e ampliam pressão por investigações
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Folhapress
Uma nova frente de incerteza paira sobre a já turbulenta privatização da Sercomtel. Documentos e relatos internos da administração municipal indicam que um cheque sem fundos ligado ao Banco Master pode se tornar elemento central para questionamentos jurídicos e até mesmo anular o negócio que transferiu o controle da empresa ao grupo privado.
Nos bastidores da Prefeitura de Londrina, o caso já é tratado como potencial “ponte aérea dos negócios”, expressão usada por servidores para descrever a rede de relações envolvendo investidores, intermediários financeiros e estruturas empresariais ligadas à operação.
Cheque e Fundo Bordeaux no centro das suspeitas
Informações levantadas em relatórios internos apontam que o chamado Fundo Bordeaux, apontado como peça-chave na engenharia financeira da privatização, não teria aportado recursos efetivos no caixa municipal. Em vez disso, balanços indicariam a presença de valores vinculados ao Banco Master em forma de aplicações e certificados financeiros.
A suspeita levantada por técnicos é que os recursos que viabilizaram a operação não teriam transitado de forma convencional pela estrutura pública, abrindo margem para questionamentos sobre a validade do processo.
Nos corredores da Controladoria-Geral, segundo relatos, já se consolidou a tese de que o aporte financeiro prometido pode não ter ocorrido como anunciado oficialmente.
Rastro contábil e possíveis vínculos empresariais
Demonstrações contábeis analisadas por técnicos apontariam conexões entre estruturas empresariais envolvidas na privatização e outras companhias ligadas ao setor de telecomunicações. Parte dessas movimentações envolveria transferências indiretas de receitas e aplicações financeiras vinculadas a empresas do mesmo grupo econômico.
A leitura técnica é que, se confirmadas as inconsistências, o negócio poderia ter sido viabilizado com base em lastros financeiros frágeis ou indiretos, o que abre espaço para contestação judicial.
Dívidas e impacto fiscal agravam cenário
Outro fator que amplia a pressão sobre a operação é o passivo tributário da Sercomtel, especialmente no que diz respeito ao ICMS. Dados de órgãos fazendários apontam que a dívida estadual da companhia alcança valores elevados, o que reforça o debate sobre a real saúde financeira da empresa no momento da privatização.
Especialistas avaliam que, caso se confirme que o passivo não foi adequadamente equacionado, o impacto pode recair tanto sobre o Estado quanto sobre municípios que dependem de repasses fiscais vinculados à arrecadação.
Um histórico bilionário que volta ao centro do debate
O Fundo Bordeaux, ligado ao empresário Nelson Tanure, não entrou no setor de telecomunicações do Paraná apenas pela Sercomtel. Em 2020, o grupo venceu também o leilão da Copel Telecom — hoje Ligga — com proposta de R$ 2,395 bilhões, em uma das maiores operações do setor no Estado.
Antes disso, a compra da própria Sercomtel já havia passado pelo crivo regulatório. O Cade aprovou a aquisição naquele mesmo ano, abrindo caminho para a transferência societária e consolidando a presença do fundo no mercado regional de telecomunicações.
Esse histórico ganha relevância porque o mesmo fundo que protagonizou aquisições bilionárias no Paraná é agora citado no centro das desconfianças locais envolvendo o desenho financeiro da privatização e a origem do dinheiro declarado na operação — justamente o ponto que, se comprovado como irregular, pode abrir margem para questionamentos sobre a higidez do negócio.
Movimentações recentes com ativos de telecom
Nos últimos anos, a Sercomtel sob gestão ligada ao Bordeaux também passou a figurar em rearranjos estratégicos envolvendo ativos relevantes. Um dos episódios mais recentes foi a negociação de licenças de radiofrequência na faixa de 3,5 GHz, associadas ao leilão do 5G, em transação envolvendo um consórcio de operadoras regionais.
A operação chamou atenção no mercado por envolver ativos regulatórios sensíveis e por indicar uma reorganização do portfólio da companhia, em meio às obrigações financeiras e de infraestrutura típicas das concessões de telecomunicações.
Esse pano de fundo amplia o peso das suspeitas atuais: se houver falhas estruturais na origem do capital que sustentou a privatização, o impacto pode atingir não apenas o passado da operação, mas também contratos e ativos derivados dela.
Risco jurídico e pressão política
O conjunto de indícios já desperta movimentações no campo político. Parlamentares e ex-integrantes da companhia discutem a possibilidade de abertura de investigações formais, incluindo CPI municipal e apurações no Ministério Público.
No campo jurídico, advogados ouvidos pela reportagem avaliam que a existência de irregularidades financeiras estruturais — como a eventual emissão de cheque sem fundos ou aportes fictícios — pode configurar vício de origem suficiente para questionar a validade da privatização.
Em termos práticos, isso significaria a possibilidade de anulação do negócio, com repercussões diretas sobre investidores, credores e o próprio município.
Município não quer falar
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Londrina afirmou, por meio de sua assessoria de comunicação, que não comentará o mérito das dúvidas envolvendo a privatização da Sercomtel. Em nota, o município declarou que eventuais questionamentos sobre o processo devem ser direcionados à administração anterior, responsável pela condução da operação.
“As perguntas relacionadas à privatização da Sercomtel devem ser feitas à gestão anterior, que foi a responsável pela condução do processo”, informou a comunicação oficial.
A manifestação, no entanto, não elimina as dúvidas sobre o dever de acompanhamento institucional do próprio município. Como atual controlador das informações administrativas e patrimoniais, a prefeitura detém acesso aos registros do processo e aos efeitos ainda vigentes da privatização. A reportagem questionou se a gestão possui dados técnicos ou documentais capazes de esclarecer a estrutura financeira da operação, mas não houve resposta até o fechamento desta edição.
Créditos: Redação com agências
