Governo corta contrato do Google no meio da operação e possível conta pode sobrar para a Celepar
Estatal foi transformada em revendedora oficial da Google Cloud pelo Governo do Paraná; após corte de quase 28 mil licenças, companhia pública pode acabar absorvendo impacto financeiro da própria engenharia criada pelo Estado
Por Gazeta do Paraná
Créditos: AEN
A decisão do Governo do Paraná de reduzir quase 28 mil licenças do Google Workspace abriu uma crise silenciosa dentro da Celepar e expôs uma operação que mistura contratos milionários, questionamentos do Tribunal de Contas, falta de transparência e um modelo que colocou a estatal paranaense como intermediária direta de negócios da Google Cloud Brasil.
A apuração da Gazeta do Paraná mostra que o problema vai muito além de um simples corte administrativo promovido pelo Estado.
O que está em jogo é a própria estrutura da operação criada pelo Governo do Paraná: a Celepar virou oficialmente parceira comercial e revendedora autorizada da Google para órgãos públicos estaduais. Depois disso, o próprio Estado decidiu reduzir drasticamente o tamanho do contrato.
O resultado é um cenário delicado: o Governo corta mais de R$ 30 milhões da operação, diminui a receita da estatal e deixa no ar a principal pergunta do caso: quem ficará responsável pelo impacto financeiro dessa redução?
O corte foi formalizado por meio do 2º Termo Aditivo ao Contrato Administrativo nº 7473/2025, firmado entre a Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (SEAP) e a Celepar. O documento determina a supressão de 27.993 licenças da solução Google Workspace anteriormente destinadas à Secretaria de Estado da Educação (SEED).
Foram excluídas 27.137 licenças do tipo Starter e outras 856 do tipo Standard. O próprio aditivo registra que a redução corresponde a aproximadamente 24,92% do valor mensal do contrato.
Com isso, o valor global do contrato caiu de R$ 145,3 milhões para R$ 115,1 milhões. Já o valor mensal passou de R$ 4,03 milhões para R$ 3,03 milhões.
A principal atingida foi a Secretaria de Estado da Educação. Após a alteração contratual, a SEED ficou com apenas 2.007 licenças ativas.
Enquanto isso, outros órgãos permaneceram com estruturas significativamente maiores, como a Secretaria da Segurança Pública, com 38,5 mil licenças, e a Secretaria da Saúde, com 10,5 mil.
O aditivo também deixa claro que não houve redistribuição das licenças retiradas da Educação para outros órgãos estaduais.
Celepar virou “elo de confiança” da Google no setor público
O ponto central da controvérsia está justamente na forma como a operação foi estruturada.
O próprio site institucional da Celepar apresenta a estatal como parceira oficial da Google e “elo de confiança entre o Governo e a inovação global”.
A página institucional afirma que a companhia atua como revendedora autorizada do Google Partner Advantage Program, envolvendo Google Workspace, Google Workspace for Education e Google Cloud Platform.
Em outro trecho, a Celepar deixa explícito que sua função seria justamente intermediar a contratação da Google dentro do setor público:
“A Celepar nasceu e cresceu dentro da administração pública”, afirma o texto institucional ao defender que a estatal oferece “segurança jurídica” para contratação das soluções da multinacional.
Na prática, o Governo do Paraná não contratou diretamente a Google. A operação foi desenhada para passar pela Celepar.
É justamente aí que o problema começa. A apuração da Gazeta do Paraná aponta que a lógica financeira da operação dependia da manutenção do volume contratado pelo Estado. O modelo previa aquisição integral das licenças enquanto os pagamentos ocorreriam de maneira parcelada ao longo da execução contratual.
Ocorre que, no meio da operação, o próprio Governo resolveu reduzir quase 28 mil licenças do contrato administrativo.
Com isso, a Celepar perde parte significativa da receita da operação justamente após assumir posição contratual como parceira comercial e revendedora autorizada da Google Cloud Brasil.
Nos bastidores da companhia, a percepção é de que a estatal pode acabar absorvendo o impacto financeiro criado pela própria engenharia contratual construída pelo Estado.
“Celepar vira revenda Google”
A controvérsia em torno do modelo adotado pelo Governo do Paraná já vinha crescendo desde 2025.
Reportagem do portal Capital Digital afirmou que a Celepar foi transformada em uma espécie de revendedora do Google para órgãos públicos estaduais.
A publicação apontou que o modelo vinha sendo expandido para outros órgãos e empresas públicas, incluindo a Sanepar, por meio de contratos derivados envolvendo Google Workspace.
Segundo a reportagem, o Tribunal de Contas do Paraná já havia vedado o uso da figura de “oportunidade de negócio” para simples revenda de bens ou serviços por estatal pública.
O texto também apontou fragilidades consideradas graves no contrato padrão utilizado pela Google Partner Advantage, incluindo cláusulas de pagamentos não reembolsáveis, limitação extrema de responsabilidade da fornecedora, arbitragem privada e obrigação de pagamento independentemente do recebimento dos clientes públicos.
A própria reportagem alertava para um possível cenário de risco financeiro dentro da estatal: "a Celepar assume risco comercial ilimitado”, descreveu o portal.
Agora, com o corte promovido pelo Governo do Paraná, a discussão ganha dimensão ainda maior.
Documentos desapareceram do Portal da Transparência
Ao aprofundar a apuração sobre o contrato, a Gazeta do Paraná encontrou outro elemento que amplia os questionamentos envolvendo a operação entre Celepar e Google.
Embora o Portal da Transparência do Paraná mantenha visível o cadastro resumido do contrato firmado entre Celepar e Google Cloud Brasil, os documentos vinculados ao instrumento desapareceram do sistema.
Ao tentar acessar os arquivos do contrato, termos aditivos e anexos da operação, o portal não apresenta nenhum documento disponível.
Em diferentes áreas do sistema, o resultado exibido é o mesmo: ausência total de arquivos ou a mensagem indicando inexistência de documentos anexados.
Na prática, permanecem acessíveis apenas informações resumidas, como número do contrato, objeto, vigência e modalidade da contratação. O conteúdo documental da operação deixou de estar disponível para consulta pública.
A situação chama atenção porque se trata de uma contratação milionária envolvendo uma estatal pública e uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Mais do que isso: a operação já vinha sendo alvo de questionamentos no Tribunal de Contas do Estado do Paraná.
PT e PSOL apresentaram denúncias apontando dúvidas sobre o uso do modelo de “oportunidade de negócio” para viabilizar contratação milionária sem licitação tradicional.
Em decisões anteriores, o TCE-PR apontou indícios de possíveis irregularidades, incluindo ausência de estudos comparativos, dúvidas sobre inviabilidade de competição, problemas de transparência e questionamentos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Agora, além das discussões sobre contratação e soberania digital, surge uma nova pergunta: por que os documentos relacionados ao contrato entre Celepar e Google desapareceram do Portal da Transparência do Paraná?
O risco ficou dentro da estatal
O episódio expõe um problema maior do que apenas a contratação de serviços digitais.
A modelagem criada pelo Governo do Paraná colocou a Celepar como intermediária direta de uma operação milionária com uma big tech internacional. Depois de estruturar a parceria, o próprio Estado reduziu unilateralmente parte significativa do contrato administrativo.
O resultado é um cenário em que o Governo corta despesas, reduz a receita da Celepar e deixa dentro da própria estatal o possível impacto financeiro da operação.
Tudo isso em meio ao debate sobre privatização da companhia responsável por armazenar parte estratégica dos dados públicos do Paraná.
A pergunta central do caso segue sem resposta pública: como ficou a relação financeira entre Celepar e Google após o corte promovido pelo Governo do Paraná?
Até agora, nem o Estado nem a Celepar apresentaram esclarecimentos detalhados sobre o impacto da supressão das quase 28 mil licenças na parceria comercial firmada com a Google Cloud Brasil.
Créditos: Redação
