É falso que Lula tenha recebido 165 mil votos de origem desconhecida; entenda a diferença na contagem do TSE
Vídeo que circula nas redes sociais compara resultados nacionais e estaduais em momentos diferentes da apuração; Justiça Eleitoral explica por que os números não coincidiam e como é possível conferir os votos registrados nas urnas
Uma publicação que circula nas redes sociais desde o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria recebido 165.699 votos sem origem identificada. A alegação é utilizada para levantar suspeitas de fraude na eleição, mas não corresponde ao funcionamento do sistema de totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A diferença apresentada no vídeo existiu nas consultas realizadas naquele momento. Entretanto, ela não representava votos desconhecidos, adicionados irregularmente ou sem identificação de procedência. Segundo esclarecimentos da Justiça Eleitoral, a divergência ocorreu porque o painel nacional de resultados estava em um estágio de atualização mais avançado do que as páginas com os números separados por estado e pelo exterior. A situação aconteceu durante uma interrupção temporária da totalização e divulgação dos resultados, provocada pela decisão judicial que prorrogou o horário de votação no segundo turno.
De onde surgiram os 165.699 votos?
O vídeo mostra um homem consultando os resultados da eleição presidencial no site do TSE. Primeiro, ele registra o número total de votos recebidos por Lula em todo o país. Depois, consulta os resultados apresentados individualmente para os estados brasileiros e para o exterior. Ao somar esses números, encontra um resultado 165.699 votos inferior ao total nacional exibido anteriormente. A partir dessa diferença, questiona onde estariam os votos restantes, sugerindo que eles não teriam origem conhecida.
O problema está no método utilizado: o autor compara consultas que não estavam sincronizadas. A gravação foi realizada no domingo (25), aproximadamente às 17h57, durante a suspensão temporária da totalização. Naquele momento, o painel nacional já havia incorporado dados que ainda não apareciam integralmente nos resultados regionais. Isso significa que a subtração entre os dois conjuntos de números não poderia ser utilizada para determinar a existência de votos irregulares.
Por que a apuração foi interrompida?
A interrupção ocorreu depois que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação do horário de votação até as 19h de Brasília, em seções eleitorais que ainda não haviam encerrado suas atividades. A decisão foi tomada após pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro (PL), que relataram dificuldades de deslocamento dos eleitores. A campanha petista mencionou problemas no transporte público, enquanto a campanha de Flávio apontou situações envolvendo chuvas, alagamentos e interrupções no fornecimento de energia elétrica. Como algumas urnas já haviam sido encerradas e seus resultados começavam a ser processados, o TSE precisou interromper temporariamente o recebimento dos boletins, a totalização e a divulgação. A medida provocou uma situação excepcional: informações já incorporadas ao painel nacional não haviam sido reproduzidas integralmente nas demais consultas quando o sistema foi pausado. A totalização e a divulgação foram retomadas depois das 19h.
Como funciona a totalização dos votos?
Para compreender por que a diferença não comprova fraude, é necessário distinguir a votação dentro da urna, a emissão do Boletim de Urna e a totalização dos resultados. O voto é registrado na urna eletrônica da seção eleitoral. Quando a votação termina, o equipamento produz um Boletim de Urna (BU), documento que informa a quantidade de votos recebidos por cada candidatura, além dos votos brancos e nulos. Uma via do boletim é impressa e afixada no local de votação. O documento também pode ser conferido por meio de seu código QR e dos arquivos disponibilizados pela Justiça Eleitoral. Os dados dos boletins são transmitidos à Justiça Eleitoral e processados pelo sistema de totalização.
O resultado nacional corresponde à reunião dos votos registrados nas seções eleitorais, inclusive no exterior. É importante destacar que a totalização acompanha o recebimento e o processamento dos boletins, e não o horário individual em que cada eleitor votou. Assim, quando um conjunto de votos aparece no painel nacional, isso não significa que todos tenham sido registrados nas urnas naquele instante. Da mesma forma, uma atualização tardia do painel não significa que os votos tenham sido acrescentados irregularmente. O TSE disponibiliza os dados por seção eleitoral para conferência pública.

A mesma conta também apontaria votos supostamente desconhecidos para Flávio Bolsonaro
Outro elemento importante é que o vídeo seleciona apenas a diferença encontrada nos votos de Lula. A checagem do UOL identificou que, se o mesmo procedimento fosse aplicado aos números apresentados para Flávio Bolsonaro, também seria encontrada uma diferença de aproximadamente 127.400 votos. Isso demonstra que o problema não era exclusivo de uma candidatura, mas decorria da comparação entre consultas em diferentes estágios de atualização. Portanto, o cálculo apresentado no vídeo não permite concluir que uma das candidaturas tenha recebido votos sem procedência identificada.
O resultado final permite conferir os números
Após a conclusão da totalização, os resultados oficiais do segundo turno registraram:

A consulta aos resultados oficiais completos permite verificar que os totais nacionais de Lula e Flávio Bolsonaro, assim como os votos brancos e nulos, correspondem à soma dos resultados por estado e do exterior. Diferentemente do que sugere o vídeo, não há um conjunto de 165.699 votos sem procedência identificada no resultado final.
É possível verificar os votos de cada urna?
Sim. O TSE disponibiliza arquivos de votação por seção eleitoral, relatórios de totalização e outros documentos que permitem confrontar os resultados divulgados com os boletins emitidos pelas urnas. Esse procedimento permite verificar, por exemplo, quantos votos cada candidato recebeu em uma seção específica e comparar esses números com o resultado oficial. O Portal de Dados Abertos do TSE reúne os arquivos referentes às eleições de 2026, inclusive os resultados por seção eleitoral.
Portanto, é falsa a alegação de que Lula recebeu 165.699 votos de origem desconhecida no segundo turno das eleições de 2026. A diferença numérica exibida no vídeo resultou da comparação de painéis do TSE que estavam em estágios diferentes de atualização, durante a interrupção temporária da totalização. Quando os dados completos foram disponibilizados, os resultados nacionais passaram a corresponder à soma dos votos registrados nos estados e no exterior. A divergência momentânea, portanto, não comprova fraude eleitoral, inclusão irregular de votos ou ausência de identificação da origem dos resultados.
Documentos oficiais e fontes da checagem
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TSE — Esclarecimento específico sobre os 165.699 votos (27/10/2026)
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TSE — Resultados oficiais das Eleições 2026, inclusive votação por seção
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TSE — Esclarecimento sobre totalização, horários e Boletins de Urna
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