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MPF investiga transparência do crédito privado do agro; operação de R$ 601 milhões expõe dimensão do mercado no Paraná

Procedimento aberto pelo Ministério Público Federal acompanha a rastreabilidade dos recursos e os riscos ambientais do financiamento privado do agronegócio; documentos de emissão de títulos revelam como cooperativa do Oeste paranaense captou recursos no mercado financeiro

Gazeta do Paraná · · 8 min de leitura
Colheita de soja
Colheita de soja — Crédito: Gilson Abreu

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento administrativo para acompanhar a transparência e a regulamentação dos mecanismos privados de financiamento do agronegócio brasileiro. A medida ocorre em meio ao crescimento das operações realizadas por meio do mercado de capitais, que movimentam centenas de bilhões de reais e apresentam desafios para a identificação dos empreendimentos efetivamente beneficiados pelos recursos. No Paraná, documentos públicos revelam uma operação de R$ 601,4 milhões realizada pela C.Vale, cooperativa agroindustrial sediada em Palotina, no Oeste do estado.

A captação ocorreu em 2025, por meio da emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), títulos utilizados para levantar recursos junto a investidores. O prospecto definitivo da operação informa que os valores serão destinados à aquisição de soja em grãos e estabelece condições específicas para a comprovação dessa destinação. Embora não exista indicação de que a cooperativa seja investigada pelo MPF, a operação permite compreender o funcionamento de um dos instrumentos financeiros cuja transparência passou a integrar a agenda de acompanhamento do órgão.

O procedimento foi instaurado pela Portaria nº 40, de 28 de outubro de 2026, publicada na edição de 29 de outubro do Diário Eletrônico do Ministério Público Federal. A iniciativa partiu de solicitação do procurador da República Ricardo Augusto Negrini, que atua na área de financiamentos com significativos impactos ambientais, e foi encaminhada à estrutura da 4ª Câmara de Coordenação e Revisão responsável pelo acompanhamento de biomas e financiamentos com impactos ambientais.

A portaria estabelece prazo inicial de um ano, prorrogável, para o acompanhamento institucional. O documento não identifica empresas investigadas, não aponta operações financeiras irregulares e não apresenta acusações contra instituições específicas. Seu objeto está relacionado à evolução da regulamentação e à transparência dos mecanismos privados utilizados para financiar atividades agropecuárias.

Operação milionária no Oeste

A dimensão desse mercado no Paraná pode ser observada na operação realizada pela C.Vale, uma das principais cooperativas agroindustriais do Oeste paranaense. Conforme o prospecto definitivo e as demonstrações financeiras da entidade, a cooperativa participou de uma emissão de CRAs que totalizou R$ 601,4 milhões.

A operação corresponde à 417ª emissão da Eco Securitizadora de Direitos Creditórios do Agronegócio, estruturada em três séries e lastreada em Cédulas de Produto Rural (CPRs) financeiras emitidas pela cooperativa. Os títulos possuem vencimentos previstos para 2030 e 2032.

Nesse modelo, a cooperativa assume obrigações financeiras vinculadas às CPRs, enquanto a securitizadora estrutura os recebíveis em títulos destinados a investidores. A captação permite acessar recursos fora das modalidades tradicionais de financiamento bancário, ampliando as alternativas disponíveis para custear atividades e compromissos relacionados à produção agropecuária.

O prospecto definitivo informa que os recursos da emissão serão destinados à aquisição de soja em grãos. O documento também estabelece que não haverá verificação periódica dessa destinação pelo agente fiduciário, conforme as condições previstas para a operação. Caso uma autoridade competente solicite comprovação, a cooperativa deverá apresentar a documentação exigida.

Essa disposição não representa, por si só, irregularidade ou ausência de fiscalização. A operação está sujeita às normas aplicáveis ao mercado de capitais e às obrigações previstas nos documentos da emissão. Entretanto, a existência de diferentes mecanismos de comprovação e acompanhamento ajuda a dimensionar o debate sobre a rastreabilidade dos recursos privados destinados ao agronegócio.

Não há, nos documentos examinados, evidência de que a emissão da C.Vale esteja relacionada a desmatamento ilegal, infrações ambientais ou qualquer investigação específica do Ministério Público Federal.

Rastreabilidade preocupa o MPF

A preocupação com a identificação dos beneficiários finais do financiamento privado já havia sido apresentada publicamente pelo MPF antes da abertura do procedimento administrativo.

Em junho de 2026, durante uma audiência na Câmara dos Deputados, o procurador Ricardo Augusto Negrini chamou atenção para os desafios de acompanhamento das operações realizadas por meio do mercado de capitais. Segundo a exposição do representante do Ministério Público, a estruturação de instrumentos financeiros pode envolver diferentes intermediários, dificultando a identificação das propriedades e atividades rurais que recebem os recursos.

O debate envolve especialmente a capacidade de verificar se os empreendimentos financiados cumprem a legislação ambiental e respeitam direitos de comunidades tradicionais e povos indígenas. A preocupação não se restringe à origem do dinheiro, mas também à identificação das atividades econômicas sustentadas pelos recursos captados.

Entre os instrumentos utilizados pelo setor estão os CRAs, as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), as CPRs e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros). Embora apresentem estruturas e regras distintas, esses mecanismos ampliaram a participação de investidores privados no financiamento da produção e das cadeias agroindustriais.

A manifestação do procurador na Câmara é compatível com o objeto do procedimento instaurado em outubro. A portaria, entretanto, não estabelece expressamente que a audiência tenha motivado sua abertura.

Mercado movimenta bilhões

Dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária mostram a dimensão alcançada pelo financiamento privado do agronegócio. Em setembro de 2026, o estoque nacional de CPRs chegou a aproximadamente R$ 597 bilhões. No mesmo período, as LCAs somavam cerca de R$ 563 bilhões, enquanto os CRAs alcançavam R$ 175 bilhões.

Os valores representam estoques de diferentes instrumentos financeiros e não devem ser somados como se correspondessem a recursos novos destinados à produção, já que as estruturas podem apresentar relações entre si.

No Paraná, a importância do crédito para a atividade agroindustrial também aparece nos levantamentos do Sistema Ocepar. Entre julho e setembro de 2026, as cooperativas paranaenses contrataram aproximadamente R$ 3,3 bilhões em crédito rural, volume equivalente a cerca de 31% das contratações realizadas por cooperativas brasileiras no período.

Esse indicador abrange operações de crédito rural e não corresponde exclusivamente ao mercado privado de títulos. Ainda assim, demonstra a relevância do financiamento para um setor que reúne produção de grãos, pecuária, agroindústrias e grandes cooperativas no estado.

A operação da C.Vale representa um exemplo específico de captação pelo mercado de capitais, mas não permite concluir que outras cooperativas paranaenses utilizem estruturas idênticas ou estejam submetidas às mesmas condições contratuais.

Transparência em discussão

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável pela regulamentação e fiscalização do mercado de capitais, possui regras específicas para os instrumentos de securitização e os fundos de investimento ligados ao agronegócio.

No caso dos Fiagros, a Resolução CVM nº 214, de 2024, estabeleceu disposições próprias para a categoria, que pode reunir diferentes tipos de ativos relacionados às cadeias produtivas agroindustriais. Já as operações de securitização, como as emissões de CRAs, seguem exigências de registro, divulgação e prestação de informações previstas na regulamentação aplicável.

Em outubro de 2026, a CVM também aprovou a Resolução nº 247, que prevê o encaminhamento de informações de operações de crédito de securitizadoras ao Sistema de Informações de Créditos do Banco Central. A norma entrou em vigor em novembro, com prazo de adaptação até outubro de 2027 para as securitizadoras já registradas.

No Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 821/2026 propõe ampliar a transparência das informações relacionadas a determinados títulos privados do agronegócio, incluindo dados sobre os créditos que sustentam essas operações e seus riscos. A proposta ainda depende de tramitação legislativa e não representa uma obrigação já em vigor.

As iniciativas demonstram que a divulgação de informações e a identificação dos participantes das operações estão no centro de discussões regulatórias. Não significam, entretanto, que todas as modalidades de financiamento privado apresentem falhas ou que a abertura do procedimento pelo MPF tenha produzido novas restrições às operações existentes.

O que o Ministério Público vai acompanhar

A Portaria nº 40 determina a instauração de um procedimento administrativo destinado ao acompanhamento institucional do tema. A medida foi formalizada a partir de solicitação registrada no expediente PGR-00292505/2026, relacionada ao Despacho nº 2937/2026.

O documento de origem é relevante porque pode detalhar as questões que levaram o procurador Ricardo Negrini a solicitar o acompanhamento. A íntegra desse despacho não foi localizada nos registros públicos examinados.

Também não foram identificadas, até o momento, diligências específicas contra instituições financeiras ou cooperativas paranaenses no âmbito do procedimento.

O caso evidencia uma questão que ganha importância à medida que o agronegócio amplia suas fontes de financiamento: como assegurar que a circulação de recursos entre investidores, securitizadoras, instituições financeiras e produtores permita identificar adequadamente os empreendimentos financiados e avaliar os riscos ambientais associados às atividades.

No Paraná, onde o cooperativismo agroindustrial possui forte participação econômica, a emissão de R$ 601,4 milhões vinculada à C.Vale demonstra a escala que uma única operação pode alcançar. Para o Ministério Público Federal, o desafio mais amplo está em acompanhar a transparência e a evolução das regras aplicáveis a um mercado que passou a desempenhar papel relevante no financiamento da produção agropecuária.

 

Nota de apuração: a matéria utiliza a operação da C.Vale como exemplo documental do funcionamento do financiamento privado do agro. Não existe, nos elementos examinados, indicação de que a cooperativa seja alvo do procedimento do MPF. Os R$ 3,3 bilhões de crédito rural contratado por cooperativas paranaenses são um indicador contextual e não representam exclusivamente operações de CRA.
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