Violência contra povos indígenas: Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul registram ataques e investigações
Polícia Federal apura ocorrências no Oeste do Paraná e tentativa de homicídio no Rio Grande do Sul; Mato Grosso do Sul concentra 37 assassinatos de indígenas registrados em 2025 e investiga novas ameaças
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A violência contra os povos indígenas segue mobilizando autoridades federais em diferentes regiões do Brasil, com registros de conflitos territoriais, ataques armados, ameaças e tentativas de homicídio. No Paraná, ocorrências envolvendo comunidades indígenas de Guaíra e Terra Roxa foram investigadas pela Polícia Federal em julho. No Rio Grande do Sul, um homem foi baleado quatro vezes durante um conflito em um acampamento indígena, enquanto Mato Grosso do Sul concentra investigações sobre novas ameaças contra comunidades Guarani e Kaiowá. Os episódios fazem parte de um cenário nacional de violência documentado por órgãos públicos e organizações que acompanham a situação dos povos originários. Segundo dados divulgados em agosto pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), com base em registros oficiais de saúde, o Brasil contabilizou 258 assassinatos de indígenas em 2025, contra 211 em 2024. O aumento foi de aproximadamente 22,3%. O levantamento mais recente sobre as ocorrências no Sul e em Mato Grosso do Sul demonstra que os conflitos continuam sendo objeto de investigações policiais e de procedimentos do Ministério Público Federal (MPF). É importante distinguir, entretanto, os crimes já registrados das denúncias ainda não comprovadas, especialmente as divulgadas após as eleições presidenciais.
Oeste do Paraná registra ocorrências em Guaíra e Terra Roxa
No Paraná, a Polícia Federal realizou diligências em Guaíra e Terra Roxa no dia 3 de julho de 2026, após receber informações sobre hostilidades envolvendo indígenas da região. Segundo comunicado oficial publicado em 4 de julho, a operação contou com apoio da Polícia Militar. Indígenas envolvidos nos fatos compareceram à unidade da Polícia Federal, onde foi instaurado um procedimento para registrar e apurar as ocorrências. A PF não divulgou, naquela comunicação, números de vítimas, informações sobre possíveis feridos ou conclusões sobre a responsabilidade pelos episódios. Por essa razão, não é possível classificá-los como ataques armados ou tentativas de homicídio sem documentação complementar.
A região já possui um histórico de disputas territoriais envolvendo o povo Avá-Guarani. No início de 2025, quatro indígenas foram baleados durante um ataque armado na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, área em processo de demarcação no Oeste paranaense. Um deles sofreu um ferimento na coluna que provocou a perda dos movimentos das pernas, segundo relatório divulgado pelo Cimi, em agosto de 2026. Esse episódio é anterior ao período mais recente analisado, mas ajuda a contextualizar a permanência das tensões fundiárias na região. A situação territorial de comunidades de Guaíra e Terra Roxa também é acompanhada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com participação da Comissão Nacional de Soluções Fundiárias do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Rio Grande do Sul: homem é atingido por quatro tiros
No Rio Grande do Sul, a Polícia Federal deflagrou, em 4 de setembro de 2026, a Operação Mondecaá, para investigar uma tentativa de homicídio ocorrida no Acampamento Indígena 3, no município de Mato Castelhano, na região de Passo Fundo. Conforme a investigação, um homem foi atingido por quatro disparos de arma de fogo durante um conflito no local. A operação contou com apoio do Batalhão de Choque da Brigada Militar e resultou no cumprimento de dois mandados de prisão preventiva e dois mandados de busca e apreensão. Segundo a PF, as investigações reuniram elementos sobre a possível autoria do crime, mas as diligências também buscavam identificar todos os envolvidos e esclarecer as circunstâncias do episódio.
Mato Grosso do Sul registra 37 assassinatos de indígenas em um ano
Entre os estados próximos ao Paraná, Mato Grosso do Sul apresenta um dos quadros mais preocupantes em relação aos homicídios de indígenas. Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), de secretarias estaduais de saúde e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), reunidos pelo Cimi, apontam 37 indígenas assassinados no estado em 2025. O número coloca Mato Grosso do Sul na terceira posição nacional em quantidade de assassinatos registrados naquele ano, atrás de Roraima, com 82 vítimas, e Amazonas, com 47.
A situação voltou à atenção das autoridades federais depois do segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro de 2026. Em 28 de outubro, o MPF informou a abertura de procedimentos para investigar denúncias encaminhadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), envolvendo ameaças, hostilidades, possíveis atropelamentos e suspeitas de contaminação da água utilizada por comunidades indígenas.
No município de Tacuru, próximo à fronteira com o Paraguai, o MPF requisitou esclarecimentos à prefeitura, com prazo de 48 horas, sobre áudios contendo supostas ameaças contra indígenas, incluindo referências a um possível envenenamento da água. O órgão também recomendou providências administrativas caso sejam identificados indícios consistentes de participação de servidores públicos nas intimidações. As denúncias permanecem sob investigação.
Governo federal anuncia medidas após denúncias de violência
Em 28 de outubro, o governo federal divulgou um levantamento preliminar de 45 ocorrências de violência com possível motivação política durante o período eleitoral, envolvendo 47 vítimas em diferentes regiões do país. Segundo a Secretaria-Geral da Presidência da República, dez ocorrências foram classificadas inicialmente como homicídios, com três vítimas indígenas. O governo informou que Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina estavam entre os estados com maior concentração das ocorrências contabilizadas.
Esses números, entretanto, representam um levantamento inicial e mais amplo de violência política, não uma estatística exclusiva de ataques a indígenas. As informações ainda dependem da consolidação das investigações e da confirmação das circunstâncias de cada caso. Diante das denúncias, o governo anunciou a articulação entre Ministério da Justiça, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério dos Direitos Humanos, Polícia Federal e órgãos de segurança pública para acompanhar as ocorrências e proteger comunidades em situação de risco.
Falta de dados atualizados dificulta avaliação da violência
Embora os registros policiais e as investigações federais demonstrem a continuidade de ocorrências envolvendo povos indígenas, ainda não há, nos documentos examinados, um balanço nacional consolidado de assassinatos referente a todo o ano de 2026. O relatório divulgado pelo Cimi em agosto reúne, principalmente, informações de 2025, e constitui uma referência para compreender a evolução dos indicadores. Os registros policiais publicados em 2026, por sua vez, permitem identificar ocorrências específicas, mas não são suficientes para calcular uma taxa nacional de crescimento dos crimes neste ano.
No Paraná, o histórico dos conflitos envolvendo comunidades Avá-Guarani no Oeste do estado, especialmente em Guaíra e Terra Roxa, reforça a importância do acompanhamento das investigações e dos processos de regularização territorial. Já os casos documentados em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul mostram que a violência pode assumir diferentes formas, desde conflitos com uso de armas de fogo até ameaças e intimidações investigadas pelas autoridades. A dimensão exata desses episódios e a responsabilização dos envolvidos dependem da conclusão dos procedimentos policiais e judiciais.
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