Quarto governo Lula: economia pressionada e Congresso à direita desafiam presidente
Especialista ouvido pela Gazeta do Paraná aponta pressão fiscal, juros elevados, oposição fortalecida e necessidade de negociação com o Congresso
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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa seu quarto mandato diante de um cenário diferente daquele encontrado no início do atual governo. Reeleito no segundo turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), o presidente terá pela frente uma economia que combina mercado de trabalho aquecido com inflação acima da meta, juros elevados e pressão sobre as contas públicas. No Congresso, encontrará uma direita fortalecida e o PL como maior bancada das duas Casas.
O resultado das urnas também deixou uma oposição com quase 60 milhões de votos para o candidato derrotado, mas sem um comando político tão claro depois da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. O senador deixou o país com a família e chegou a Miami na quarta-feira (28), depois de não cumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para entregar os passaportes.
Para Carlos Fareh, especialista em gestão pública, em entrevista à reportagem da Gazeta do Paraná, o primeiro grande desafio do novo governo será recuperar a previsibilidade das contas públicas.
“O ponto de partida do novo mandato é a recomposição da credibilidade fiscal”, avalia Fareh.
A preocupação ganhou uma dimensão concreta logo após a eleição. Na segunda-feira (26), primeiro pregão depois da vitória de Lula, o dólar chegou a subir mais de 8% e o Ibovespa caiu 13,88%, em uma forte mudança das expectativas dos investidores. O movimento foi associado à reação do mercado ao resultado eleitoral e às dúvidas sobre a condução econômica do próximo mandato.
Para o especialista, a questão fiscal não fica restrita aos investidores. Ela chega ao cotidiano da população por meio do câmbio, dos juros e do custo do crédito.
“Câmbio e juros elevados pressionam o preço dos alimentos e o custo do crédito”, afirma Fareh. Segundo ele, a instabilidade também pode afetar o planejamento de estados e municípios, que dependem de previsibilidade para organizar serviços públicos como saúde e educação.
O governo terá pouco espaço no orçamento
O tamanho do desafio aparece também na estrutura do Orçamento de 2027.
O projeto apresentado pelo governo prevê R$ 2,576 trilhões em despesas primárias. Desse montante, 91,7% são despesas obrigatórias. A parcela destinada às despesas discricionárias, que inclui custeio e investimentos sob maior margem de decisão do governo, é muito menor.
É justamente nesse espaço reduzido que o governo precisa acomodar investimentos, políticas públicas e novas prioridades.
Fareh chama atenção para o impacto dessa estrutura sobre os municípios. Na avaliação dele, quando o orçamento federal fica pressionado, a previsibilidade dos repasses passa a ser ainda mais importante para as cidades, principalmente porque são os municípios que entregam boa parte dos serviços diretamente à população.
A questão ajuda a explicar por que o debate fiscal não deve ser tratado apenas como uma discussão entre governo e mercado. A forma como o Executivo administra receitas e despesas influencia a capacidade de financiar obras, manter programas e ampliar serviços públicos.
O próprio projeto do Orçamento de 2027 prevê R$ 272,2 bilhões para a saúde, R$ 141,2 bilhões para a educação e R$ 133,8 bilhões em investimentos. O salário mínimo foi estimado em R$ 1.741.
Emprego é ponto positivo, mas juros preocupam
Apesar das dificuldades, Fareh aponta um indicador que considera positivo para o início do novo mandato: o mercado de trabalho.
A taxa de desocupação está em 5,3%, enquanto a renda real cresceu 4,8% em um ano, segundo os dados citados pelo especialista. Na avaliação dele, esse desempenho sustenta o consumo das famílias, a arrecadação e a demanda por serviços públicos.
“O dado que mais me anima é o mercado de trabalho”, afirma.
O problema aparece quando esse cenário é colocado ao lado da inflação e dos juros.
A inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta, enquanto a Selic está em 13,75%. Para Fareh, a alta do dólar depois da eleição pode dificultar uma redução mais rápida dos juros.
Na prática, uma Selic elevada encarece o financiamento para as famílias, mas também pesa sobre empresas, estados e municípios. Obras financiadas ficam mais caras e o serviço da dívida consome uma parcela maior dos recursos disponíveis.
Há, porém, uma possibilidade de melhora.
“O salário mínimo proposto, de R$ 1.741, supera a inflação projetada de 4,93% e preserva o poder de compra”, explica Fareh. O especialista pondera, entretanto, que a política fiscal será decisiva para determinar se esse cenário positivo poderá ser mantido.
Para ele, existe espaço para melhora da economia, desde que o governo consiga oferecer previsibilidade na condução das contas públicas.
O desafio de Lula estará também no Congresso
Se a economia exigirá cautela, a política exigirá negociação.
O Congresso que tomará posse em fevereiro de 2027 será mais à direita. O PL elegeu 121 deputados e terá 28 senadores, consolidando a maior bancada individual nas duas Casas. A federação formada por PT, PCdoB e PV terá 88 deputados.
A composição, porém, não significa que Lula estará automaticamente sem capacidade de articulação.
Antes mesmo da posse, o governo começou a construir uma ponte com o centro. A federação PT-PCdoB-PV anunciou apoio à recondução de Hugo Motta à Presidência da Câmara e entrou no bloco formado por partidos de centro e centro-direita. Com a adesão, Motta passou a contar com o apoio de 15 partidos, que somam 354 deputados, número superior aos 257 votos necessários para a eleição.
Fareh interpreta esses movimentos como um sinal de que a governabilidade tende a ser construída no centro, e não exclusivamente pela esquerda.
“A polarização eleva o custo de transação da governabilidade, mas a arquitetura do Legislativo oferece vias de acomodação”, avalia.
A expressão resume um dos principais dilemas do próximo mandato. Lula venceu a eleição presidencial, mas não elegeu um Congresso alinhado ao seu projeto político.
O PL, por outro lado, terá força suficiente para exercer oposição, mas dependerá de alianças para transformar essa força parlamentar em capacidade efetiva de bloquear ou aprovar propostas.
Para Fareh, o cenário indica uma relação de negociação permanente.
A direita perdeu o candidato, mas não perdeu o tamanho
É nesse ponto que a saída de Flávio Bolsonaro ganha importância.
O senador terminou a eleição presidencial com 59,8 milhões de votos, 48,21% dos votos válidos. Mesmo derrotado, o resultado mostrou que o bolsonarismo preservou uma base eleitoral expressiva.
Dias depois, Flávio deixou o Brasil com a família e chegou aos Estados Unidos, após descumprir a ordem de entrega dos passaportes determinada por Alexandre de Moraes. O episódio abriu uma nova frente de disputa política dentro da oposição.
Para Fareh, o efeito mais imediato é justamente a perda de uma liderança nacional que acabava de receber quase 60 milhões de votos.
“Eu diria que a direita perde em liderança, mas mantém peso parlamentar”, resume.
A análise ganha força quando confrontada com os números do Congresso. O PL ampliou sua bancada na Câmara de 97 deputados eleitos em 2022 para 121 em 2026. No Senado, chegará a 28 integrantes, a maior bancada da Casa.
Ou seja, a ausência de Flávio não retira automaticamente o peso político da direita.
O que muda é a disputa pela liderança.
Fareh aponta nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e Michelle Bolsonaro como possíveis polos dessa reorganização. Tarcísio, citado pelo especialista, foi reeleito em São Paulo com 62,65% dos votos válidos no primeiro turno.
O governador paulista passa, portanto, a ter um ativo político importante: uma vitória eleitoral expressiva, controle de um dos principais estados do país e capacidade de dialogar com setores diferentes da direita.
Na avaliação de Fareh, se a oposição conseguir convergir em torno de uma liderança, continuará tendo capacidade de pressão sobre a agenda nacional. Se permanecer fragmentada, poderá perder força nas votações mais importantes.
“Sem comando unificado, a oposição terá dificuldade para barrar o governo”, afirma.
O Centrão pode ser decisivo
O movimento dos partidos de centro ajuda a explicar por que o resultado presidencial não determina sozinho a governabilidade.
A União Progressista, formada por União Brasil e PP, apoiou Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas passou a apoiar a recondução de Davi Alcolumbre à Presidência do Senado. Na Câmara, partidos que não integram a base ideológica de Lula também estão reunidos em torno de Hugo Motta.
Esse comportamento mostra que as alianças no Congresso não serão necessariamente uma reprodução da disputa presidencial.
É justamente aí que Fareh identifica uma possibilidade de acomodação.
“O cenário aponta para uma governabilidade organizada em torno do centro, com o PL na oposição”, avalia.
A consequência prática é que Lula terá de negociar projeto por projeto. Orçamento, segurança pública, regulamentações econômicas e mudanças constitucionais exigirão construção de maioria.
A agenda já começa a ser desenhada. Entre as propostas mencionadas por Motta está uma PEC sobre voto distrital misto, além de discussões sobre propaganda eleitoral nas plataformas digitais. Como se trata de uma proposta de emenda à Constituição, mudanças desse tipo exigem três quintos dos votos em cada Casa.
Saúde, educação e segurança serão o teste do governo
No fim das contas, a disputa fiscal e política terá impacto direto naquilo que chega ao cidadão.
Fareh defende que saúde e educação sejam as primeiras prioridades do novo governo, principalmente porque são áreas de forte demanda nas periferias.
Na saúde, a prioridade apontada por ele é reduzir a fila de consultas e exames especializados e fortalecer a atenção primária. Na educação, a aposta está na conclusão de creches e escolas que estão com obras paralisadas e na ampliação das vagas para a primeira infância.
Na segurança, o especialista defende a aprovação da PEC da Segurança Pública e uma maior integração entre União, estados e municípios.
Ele também chama atenção para a violência contra as mulheres. Segundo os dados citados por Fareh, os feminicídios cresceram 4% em 2025, mesmo com queda de 8,2% nas mortes violentas.
Na mobilidade urbana, o desafio seria reduzir o tempo gasto no deslocamento de quem mora distante dos centros das cidades.
Mas existe uma condição para que essas políticas não fiquem apenas nas promessas de governo.
“Para que nada disso fique no papel, o governo precisa garantir três condições: repasses previsíveis, apoio técnico aos municípios para projetos e convênios e informação clara sobre os programas disponíveis”, afirma Fareh.
A declaração resume um dos pontos centrais do próximo mandato. O governo federal pode anunciar programas e estabelecer prioridades, mas boa parte dos serviços precisa ser executada na ponta, por estados e municípios.
O que está em jogo nos próximos quatro anos
O novo mandato de Lula começa, portanto, com uma combinação de forças contraditórias.
De um lado, o presidente chega ao Palácio do Planalto com o maior número absoluto de votos já obtido por um candidato à Presidência e com uma economia que ainda apresenta um mercado de trabalho forte. Lula recebeu 64,26 milhões de votos, contra 59,83 milhões de Flávio.
De outro, enfrenta uma oposição eleitoralmente relevante, um Congresso mais à direita, juros elevados, inflação acima do teto da meta e um orçamento com pouco espaço para novas despesas.
O PL, que será a maior bancada das duas Casas, não terá Flávio Bolsonaro no comando direto da oposição se o senador permanecer fora do país. Ao mesmo tempo, nomes como Tarcísio de Freitas ganham espaço para disputar a liderança desse campo político.
No centro dessa equação estará o Congresso.
A primeira demonstração de força já ocorreu antes mesmo da posse, com a aproximação entre o governo eleito e as presidências da Câmara e do Senado. O movimento indica que Lula tentará começar o quarto mandato com uma relação institucional construída com o centro.
Para Carlos Fareh, o grande desafio será transformar essa capacidade de negociação em resultados concretos.
A economia precisará de previsibilidade. O Congresso exigirá negociação. A oposição continuará forte. E a população cobrará que saúde, educação, segurança e mobilidade deixem de ser apenas prioridades anunciadas e apareçam na vida real.
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